Pontos-de-Vista

Gonçalo Oliveira

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Nem na arte pode valer tudo.

Hoje acordei chateado com tamanha falta de decência

Não é tarefa fácil tirar o sorriso da cara a alguém que está prestes a viajar para outra cidade para marcar presença num dos festivais de música mais entusiasmantes do país, sabendo de antemão que vai ter a oportunidade de testemunhar ao vivo alguns dos artistas que mais admira. Mas o que se passou a 10 de Junho, um dia antes de apanhar o comboio rumo ao Porto para voltar a pisar o recinto da edição portuguesa Primavera Sound revoltou-me. Do nada, no feed do Instagram surgiam posts de Sippinpurpp e da Virgin Music a promover cachimbos e o que pareciam ser agulhas artesanais, ambos para consumo de drogas pesadas.

Os posts em questão já não estão online, sendo que agora ambas as entidades apenas exibem um trecho do videoclipe do novo single do rapper, “Hoje Acordei Chateado”, que não contém qualquer referência às referidas substâncias — na peça visual completa, no entanto, ainda se pode ver tudo sem filtros. Se o post foi tirado do ar pelo próprio Instagram devido a denúncias ou se foram a Virgin e Sippinpurpp a fazê-lo por vontade própria, não sabemos. Mas também não interessa. A pouca vergonha estava feita e levanta questões graves: Poderá realmente a arte servir de desculpa para que tudo seja aceite, mesmo quando se trata da glorificação de um negócio que estraga tantas vidas por esse mundo fora? Fará sentido monetizar conteúdo deste calibre sem qualquer tipo de visão ou conceito artístico que o suporte?

Desde que Sippinpurpp apareceu em 2017, o seu nome nunca foi realmente consensual e a “arte” que lhe tem saído do estúdio vem muitas vezes embrulhada em diferentes camadas de polémica. O seu rap é vazio e fruto de uma baixa taxa de esforço na caneta, sendo que o que “vende” mais é a persona, o estilo de vida que ostenta e a forma como se veste. Mas isso não significa que não mereça um lugar de destaque no circuito da música portuguesa se houver realmente alguém a escutá-lo. Nos Estados Unidos da América, o berço da cultura hip hop à qual André Rocha Vaz também pertence, não faltam exemplos semelhantes.

No final de 2020, algo parecia mudar. “1000 Jogos” mostrava-nos uma outra face do bad boy de Ovar, numa balada a puxar pela lágrima ao canto do olho e a fazer lembrar a história d’O Patinho Feio. Ao longo de dois minutos e meio, escutávamos um Sippinpurpp em apoteose e com a caneta em esteróides enquanto tentava demonstrar ao público que por detrás do gimmick existia alguma essência naquilo que canta. Por momentos, parecia que estava pronto para puxar dos galões e dar a vida pela sua próxima rima, mas a verdade é que os temas que vieram a seguir foram mais do mesmo arroz que já nos tinha servido antes. Hoje, feitas as contas, “1000 Jogos” é um valente oásis na discografia do ovarense, o que até nos leva a indagar sobre se terá tido ajuda de alguém a redigir aquela letra — João Maia Ferreira, pelo menos, surge nos créditos não apenas como produtor, mas também como compositor.

Olhando para a história do hip hop — e até de outros géneros —, a relação entre droga e música não é inédita. Para o próprio Sippinpurpp, esse é até um tema bastante recorrente. Seja da forma parola com que assume “fumo muita erva, eu ‘tou muito forte” (em “Vim do Norte”) ou para nos explicar que os cifrões que ostenta na música vêm de outras fontes, mesmo que enrolado numa contradição — “Patrão Pablo, eu faço o dinheiro calado”, ouve-se em “Fato Treino do City”. O que causa indignação no caso de “Hoje Acordei Chateado” é a forma tão in your face com que nos esfrega uma série de imagens que não deviam ser promovidas por ninguém, muito menos alguém com estatuto de figura pública, com alcance considerável por entre os mais jovens, alguns deles que podem até podem olhar para si como uma espécie de role model na vida. E para uma label responsável pela edição de tantos discos de música infantil, levanta-se a dúvida: será esta a arte que querem dar a consumir aos mesmos miúdos que ouviram o Panda e Os Caricas quando crescerem?


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