Pontos-de-Vista

Hugo de Oliveira

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Um vídeo corporativo branqueador e obcecado com uma ideia de ascensão, sem queda.

Michael Jackson ou pop de marca branca

Durante grande parte do seu tempo de vida, Michael Jackson foi utilizado, na esfera pública, como exemplo de um negro em negação, servindo assim para confirmar a tese ocidental da supremacia branca. 

Embora Michael nunca se tenha desviado do seu objectivo primordial de ser uma estrela pop global – vivendo desde cedo como pura forma de mercadoria – Michael, a sua nova biopic, no único momento em que poderia ter conquistado significado, rejeitou introduzir a questão racial apenas pelo seu valor nominal. Preferiu tornar a interdição oficiosa de músicos negros na MTV — que Bowie chegou a chamar racista numa entrevista — uma  mera estratégia de marketing, demitindo-se também de discutir as suas fronteiras, sobretudo em relação a alguém cuja existência nunca delas beneficiou.

A vontade de Michael em ver o videoclipe de “Billie Jean” rodar na MTV é apresentada apenas como produto de um ego orientado para o vedetismo, embora com uma puerilidade artificializada, esbanjando, precisamente no local onde o capital recolhe o seu estrume, o fermento de qualquer potencial revoltoso desse desejo, em troca de um triunfo pessoal.

Apesar do subtil, tão subtil, flirt da personagem com o movimento de consciência negra, num único momento, quando confirma ter orgulho negro, este serve apenas para deflectir eventuais críticas duma democracia bicéfala onde a igualdade serve os semelhantes e a exclusão serve os dissemelhantes, ambas legisladas pelos mesmos. Excluído do contexto está também o frequente apoio de Michael Jackson à NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) onde discursou mais do que uma vez sobre liberdade e igualdade, chegando até a prestar homenagem ao Black Panther Party com a dança final no vídeo de “Black or White”.



Ao negar a possibilidade de qualquer materialização de consciência étnica ao Rei da Pop, o filme não só despreza toda a história do movimento dos direitos civis que permitiu a Michael Jackson começar onde começou, mas também apresenta o cantor apenas como a pura antecipação de um mito à escala do mercado global que haveria de vir, confirmado pelo poder institucional da CBS, a sua editora de então.

É alicerçado nesse poder e motivado pela sua prossecução que ambos forçam a MTV, sob ameaça de estrangulamento económico, a passar “Billie Jean”, abrindo o precedente de passar artistas negros em alta rotação num canal que ambicionava ter apenas música rock — ironicamente, por definição, música negra. 

Essa fabulação dos valores do capital desumaniza uma figura tão humana como humanista e humanoide em toda a sua confusão e contradição, esvaziando-a de qualquer perigo e conferindo às elites um virtuosismo moral alicerçado no aumento dos rendimentos de uma forma que projecta essa virtude para lá do alcançável pelo comum dos mortais. Devido ao esvaziamento e ao encobrimento da sua ambivalência, Jackson surge como uma personagem Disney, cumprindo a lógica hollywoodesca da história em arco, da pobreza até à realeza da pop, onde tudo redunda num Deus Ex Machina.

Além de aplainar a personagem principal, a biopic, que em determinados momentos parece um blockbuster série B, também destrói as personagens secundárias, chegando ao ponto, já não de se demitir apenas de apresentar ideias, isto sem mencionar demonstrar coragem, mas de levar a simplificação ao extremo, ridicularizando até momentos essenciais da história do país. Um exemplo crasso é a cena em que Michael, qual Cristo, chega para unir todos sob a sua luz, reunindo Crips e Bloods, dois gangs em guerra aberta há décadas, apenas pela força da sua arte e pelo poder da dança.

Essa simplificação a roçar a inconsciência absoluta de si e do seu efeito, é constante na recusa do mundo que produziu Michael Jackson, na altura quase uma improbabilidade estatística devido à sua etnia e também às origens proletárias, excepto quando serve para a narrativa avançar no sentido de tornar a estrela ainda mais estelar. 

Nunca existe conflito ou frustração e, portanto, também não se dá a magnífica superação com que o filme procura desesperadamente caracterizar Michael. Ainda que como superestrela Jackson habite uma esfera que não toca o quotidiano, é apresentado como compreensivo e moderado ao lidar com os anónimos, numa tentativa tão fracassada de associar o músico à inocência, que acaba por passar uma imagem de insuperável alienação.

Também nos problemas da autoimagem de Michael, cujo corpo é em si mesmo um product placement infinito, o filme escolhe abordar a primeira operação ao nariz do artista como um ajuste natural às exigências da pop, indeferindo a possibilidade de Jackson, que acabou por ser tanto o protótipo do viciado em operações como um Narciso invertido, abrir o debate, pois talvez parte da sua motivação derivasse da obsessão com a juventude eterna, o que abriria caminho para as questões da pedofilia.

Essa transparência de Michael que pretende revelar tudo, revela apenas nada haver além do visível, evitando um oculto equivalente à negritude que o filme evita a todo custo, sofrendo com uma comparação que o próprio propõe. Ao mencionar Prince, com toda a sua carga erótica, provocadora e provocante, Michael surge ainda mais como um produto linha branca, inócuo e pueril que parece ter superado o racismo estrutural americano através do mercado, quando nem sequer reconhece a sua existência. 

Considerando o controlo exercido pelos herdeiros na produção do filme, fica claro, em todas as acepções da palavra, porque Michael não passa de um vídeo corporativo branqueador, obcecado com uma ideia de ascensão, sem queda.


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