Pontos-de-Vista

Hugo de Oliveira

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Som negro, indústria branca.

A colonização do Jazz: 100 anos de Miles Davis

“Génio” é uma designação duplamente depreciativa, para o visado, por desmerecer o árduo processo criativo, e para os restantes, pela colocação de barreiras mentais no mesmo. É também a continuidade da mentalidade cristã da procura de um messias. No caso de Miles Davis, o epitomo é um reducionismo depreciativo da sua história pessoal, por onde passaram tantos nomes em diálogo com sua música e sem os quais não teria sido o que foi. Também é desmerecer o seu activismo artístico, indissociável da sua arte, que esvazia a humanidade do músico, conferindo-lhe um estatuto divino com que os mortos vivem bem, mas os vivos não. 

Miles considerava o termo jazz uma invenção do homem branco para a sua sonoridade verdadeiramente negra, cujos intérpretes racializados continuavam a ser explorados por uma indústria que não controlavam. Acusava também a apropriação dessa linguagem, fossem os blues ou o jazz, por parte dos músicos brancos, embora reconhecesse autenticidade a alguns, como Bill Evans.

Da era Kind of Blue, disco em que Miles se começaria a distanciar da imagem de jazz, faz parte tanto o saxofone de John Coltrane como o episódio de brutalidade policial e racismo que Davis sofreu em Nova Iorque em 1959. Miles estava encostado a fumar à porta do clube no intervalo do concerto, um polícia ordenou que saísse do local, o músico recusou e foi agredido por um sargento branco que não acreditava que um negro pudesse ser cabeça de cartaz, mesmo depois de lho terem explicado.

Miles já então não era estranho ao racismo estrutural norte-americano. Viveu parte da sua vida em segregação, foi perseguido por um vizinho branco com uma caçadeira em criança e obrigado a comer na entrada da cozinha, com os restantes negros, quando em digressão com Charles Mingus pelos estados do sul. Essa consciência étnica e de classe, nos antípodas da subserviência de Louis Armstrong tão criticada por Miles, moldou a sua postura em palco. Ele recusava-se a sorrir, como era habitual entre os artistas negros para entreterem o público branco e demonstrar que não representavam perigo.

Depois de dois julgamentos relacionados com o episódio da polícia, não só Davis foi declarado inocente, como o seu caso abriu um precedente, onde o tribunal decretou ser impossível obrigar qualquer cidadão a abandonar um local público sem uma razão válida. Como tantos outros negros, Davis foi mandado parar pela polícia várias vezes ao volante dos seus carros desportivos, apenas devido à cor da sua pele. Miles, já apreensivo com polícia, passou a criticá-la abertamente, demonstrando uma noção exacta da duplicidade de critérios da instituição ao lidar com brancos e outras etnias.

Como muitos outros negros oriundos do proletariado, que apanharam o elevador social, confirmando o seu estatuto de excepção e não de regra, Davis utilizou o privilégio conseguido através da sua música para condenar o imperialismo americano também na forma de genocídio contra os nativos americanos. George Clarke, poeta e académico canadiano, compara Malcolm X a Miles Davis na recusa do modelo liberal branco de integração, trocando a reconciliação fácil ou universalismo abstracto pela auto-definição negra, o orgulho racial e a independência cultural, materializados numa ostentação de “coisas boas”, como Miles as descrevia e em exercer controlo da própria narrativa. Parte dessa estratégia foi o seu período eléctrico onde procurou romper com o jazz, cujos ouvintes eram maioritariamente universitários brancos, passando a explorar linguagens mais urbanas, como o rock, o soul e o funk a fim de se aproximar da juventude negra.

Assim surge On the Corner, considerado por Miles uma intervenção política no movimento Black Power, presente não só na estética musical mas também na imagem, sua e do disco. Miles vai mais longe ainda ao incorporar elementos orientais no projecto, como forma de desguetificar as linguagens negras numa barricada unificada contra o colonialismo ocidental em toda a linha. Numa entrevista alguns anos antes de morrer, Miles proferiu a polémica frase: “Se alguém me dissesse que eu só tinha mais uma hora de vida, passava-a a estrangular um homem branco. Devagarinho. Se me cansasse, parava, bebia um copo de água, e voltava a estrangulá-lo.” Mais tarde, Davis confirmou não odiar brancos, excepto os racistas, mas todo o seu privilégio não foi o suficiente para lhe conferir um direito básico, concedido por defeito a pessoas brancas, sobretudo ricas: a empatia.

Várias testemunhas próximas do músico confirmaram que o episódio de agressão em 1959 o tornou mais amargo e poderá ter originado um trauma profundo nunca considerado, enquanto figuras como Elvis beneficiaram duma abordagem psicológica, humanizadora dos seus comportamentos, mesmo os mais aberrantes. Celebrar Miles apenas como apenas mais um génio musical é expropriá-lo da sua própria história, comodificando-o.


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