Há quatro anos, os beats de Crate Diggs e as rimas de Eloherrede começaram a trocar impressões e a mesclar-se. No início deste mês de Julho, saiu cá para fora o resultado deste longo processo criativo em conjunto: um disco com uma dezena de faixas intitulado Dedos de Pedra.
Foi o primeiro projecto de Eloherrede — que é como quem diz Lord — apenas enquanto MC. Seleccionou instrumentais crus de Crate Diggs, que ainda foram trabalhados para terem uma estética mais analógica e nostálgica. Em declarações ao Rimas e Batidas, a dupla desvenda estes Dedos de Pedra.
Como surge este projecto conjunto entre os dois? Já se conhecem há muito tempo?
[Crate Diggs] Sim, por volta de uns quatro anos. Surgiu porque eu já conhecia o trabalho e já tinha a ideia de fazer algo com ele, então a cena deu-se pelo meu primeiro envio de beats.
[Eloherrede] Como ele disse, surge naturalmente depois do primeiro contacto.
Como foi o processo criativo? Eloherrede, ouviste vários beats do Crate Diggs, escolheste alguns e começaste a escrever? Foi algo mais conjunto para ter um feeling mais coeso? Ao mesmo tempo, há faixas diversas. Também o procuraram intencionalmente?
[Crate Diggs] Sim, eu comecei por fazer vários envios ao Lord, e ele foi escrevendo à medida dos envios. O facto de haver diversidade nos temas acho que foi algo que aconteceu organicamente.
[Eloherrede] Considero que esta tape teve duas fases. Da primeira leva de beats, penso que só quatro foram usados na tape final, incluindo a intro. Ainda não havia pés, nem cabeça, nem direcção. Depois de um bom período de tempo em águas de bacalhau, fui a casa do Diggs escolher mais uns beats. Dessa leva, surgiram os sons mais fulcrais da tape, incluindo o “Dedos de Pedra” itself. Ainda ficaram alguns sons de fora. Quanto à diversidade das faixas é algo que surge naturalmente porque gosto sempre que os projectos “principais” sejam uma viagem com altos e baixos. Também foi a primeira vez que fiz um projecto só como MC e acho que isso também me deu uma certa despreocupação.
Durante quanto tempo estiveram a construir este disco?
[Crate Diggs] Mais ou menos durante quatro anos.
[Eloherrede] Foi a ir pegando no projecto entre vários, mas sim, foi mais ou menos isso.
E porquê o título Dedos de Pedra?
[Eloherrede] Depois de escrever o som “Dedos de Pedra”, vi-o mesmo como a espinha dorsal do projecto. É capaz de ser uma das letras das quais tenho mais orgulho; em termos de esquemas, punchlines, não deixei ideias por incluir e está super coerente do início ao fim. Achei importante o suficiente para encabeçar o projecto e descrevê-lo também. Quanto ao significado, implica ruínas, algo feito pelo homem, abandonado e esquecido pelo tempo, com a natureza a reclamar de volta o seu espaço. Ao mesmo tempo, é um monumento à história, que continua de pé e a ocupar o seu lugar na história mesmo depois de completar o seu ciclo. Também queria diferenciar esta tape em termos sonoros. Passámos as mixes finais pelos compressores da SP-404 para lhe dar um feeling mais raw e analógico. Não tinha nada escrito, foi tudo feito original para os instrumentais.
Queres deixar algumas palavras sobre o que sentes que une estes beats, Crate?
[Crate Diggs] Acabam por ter em comum uma abordagem simples, sem muitas layers, uma sonoridade mais rústica.
Estão a preparar mais alguma coisa, a solo ou noutros projectos, que queiram partilhar?
[Crate Diggs] Sim, a solo cada um tem avançado com outros projectos que tem na calha, mas eu estou a preparar uma próxima beatape e o Eloherrede um outro projecto a solo.
[Eloherrede] Não consigo trabalhar apenas numa coisa. Fatigo-me depressa se o fizer. Por isso, além do meu próximo projecto grande a solo, que está nas fases finais, também tenho mais dois projectos colaborativos a serem construídos, juntamente com uma espécie de follow-up do Com/im/o/posições.