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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/07/2026

Nos bastidores do Festival MED com o "cota" da música angolana.

Bonga: “Onde está o jovem que vai dar continuidade?”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/07/2026

Poucos artistas construíram uma obra com a dimensão de Bonga e menos ainda o terão feito a partir da diáspora. Entre Angola 72 (1972) e Kintal da Banda (2022), gravou 32 álbuns de estúdio. Mas a sua obra há muito que transcendeu a música. Tornou-se memória histórica e parte da identidade de Angola.

Em cinquenta anos de demanda política e cultural preservou a matriz dos Ambundu — da língua kimbundu, do semba e da herança histórica dos antigos reinos de Ndongo e Matamba. As suas canções assinalam as marcas de Angola e cruzam com a língua portuguesa rituais, idiomas e ritmos que sobreviveram ao colonialismo e ao exílio. 

Hoje, olha com preocupação para o papel dos jovens na conservação de um património que importa preservar e conhecer antes de reinventar. Aos 83 anos, começa concertos à 1h00 da madrugada e foi recentemente pai de gémeos. Parar é que não. O Rimas e Batidas encontrou-o no camarim do Convento do Espírito Santo, em Loulé, pouco antes do regresso ao palco do MED.



Como é que olha para este momento da sua carreira? Neste momento actual, o que sente em relação a isso?

Eu diria: relax máximo. Nguengue, como a gente usa muito na nossa terra. Nguengue.

O que significa? 

Relaxamento. Já estou como hei-de ir: bem relaxado, sem chatices nem incómodos. Claro que, por causa da carreira e da exposição pública, tenho de estar sempre atento às intervenções, às entrevistas, aos contactos. E depois há a responsabilidade familiar. Nasceram agora mais dois. 

Pois, agora recentemente. Quantos filhos tem?

Como bom africano que sou, deviam ser quarenta e tal.

Deviam porquê? É tradição?

Não, porque é assim. Era assim no outro tempo e ninguém se chateava nada com isso. Não tínhamos de imitar outros povos e menos ainda o colonizador. Hoje a Europa faz um filho e meio e fica com raiva de quem faça mais. Nós temos condições para fazer os filhos que a gente quer. Temos uma terra fértil que ainda dá mandioca, batata doce, quiabo, abóbora, tudo isso dá, se nos empenharmos. Agora se a gente não se empenha, vai ficar naquela de um filhinhozinho cada um e tal. “Ô Manel, estás aonde, Manel? Anda cá, seu maroto”. Lá, não. Lá quando não estás em casa é a tia, é a vizinha que vem tomar conta do teu filho. É uma vivência diferente. E ainda não tivemos tempo de nos relacionarmos com as pessoas com a nossa particularidade, porque o facto de termos sido colonizados 500 anos pelos portugueses, não significa que tivéssemos de imitar o português no comportamento, na atitude ou nas frustrações. Sou uma pessoa privilegiada, pelo que carrego de um passado recente, dos meus velhos e das minhas velhas. Faz favor. O pai do outro era teu pai, a mãe do outro era tua mãe. Quer dizer, aquela vivência salutar, comunitária. Maravilhoso, nem dá para recordar. Fico com a lágrima no canto do olho.

Vive em Angola actualmente?

Infelizmente não, porque nós temos políticos de meia tigela.

Ainda são piores do que os de cá?

São piores. Os de lá são piores do que toda a gente. Fizeram guerra de irmão contra irmão. Temos de dizer isso de boca cheia e não fazer o papel de ninguém, principalmente dos maus. Não, isso é que era bom, era o que faltava agora. É por esta razão que ficamos acabrunhados e estamos a sofrer as consequências desta situação que também deriva do deixa andar. E complicou.

E acredita na mudança?

Não, isso vai ter que mudar, quer queiramos, quer não. Cada coisa tem o seu tempo. Leva tempo, mas muda. Faz favor, e já faltou mais.

É o povo que tem de o fazer?

Faz favor, o povo está à espera. Desgraçado do povo ali à espera que as coisas aconteçam. “Ê papá, quando é que vai ser? Ê papá”. Está à espera de chuva para que a batata nasça. Não pode ser assim. Mas estamos no bom caminho, porque temos uma juventude que está a despertar. Começa a funcionar essa juventude. Está impaciente, mas não vão cometer as asneiras que já os outros cometeram e a coisa degenerou. Eu não tenho confiança nos militares.

Porquê?

O militar africano é aquele nosso polícia que diz: “Bate, vai, maltrata aquele gajo”. Ou quando está uma senhora a vender, o gajo chega, rouba o negócio da senhora e dá para o lado. Mas o que é isso? Quem é esse gajo? Antigamente nós é que reagíamos na rua. Uma senhora era agredida e nós parávamos o triciclo, a bicicleta, a motorizada, o que fosse, e íamos bater no gajo. Quer dizer, era uma sociedade que tinha fulgor. Era óptimo. Depois deixou de ser assim, porque ficou naquela do deixa andar. E até inventámos uma tónica: “A máquina essa que estamos com ela, vamos fazer como?” Foi a pior porcaria que se inventou. “Esse assunto é de outro galho, é para não ter nada a ver com isso”. O que é? Então e quando for a tua mãe a ser agredida na rua, os outros passam a assobiar, a fumar um cigarro e ninguém viu?

A indiferença.

Não, não pode. Nós temos guerras.

O que é que lhe dá força para subir ao palco à 01h30 da manhã?

Isso é a vivência do Bonga e dos meus cúmplices. Desde há muito tempo a esta parte que os meus cúmplices são pessoas muito sérias. Pessoas com quem a gente consegue, enfim, trabalhar, se não também, desculpa… Eu ia fazer um playback, ou uma coisa assim, dos anos 90? Não. As pessoas têm que estar no mesmo diapasão, para dar seguimento a algo que se tornou importante. Eu nunca pensei que ia dar nisso, e deu.

A carreira?

A carreira, sim.

Nunca pensou que ia dar nisto?

Não, quem é que pensa que naquela altura, por gravar um disco, vai virar boom ou vai dar um sucesso internacional? Não, nunca pensei, nem pouco mais ou menos. Depois é que fui vendo todas as solicitações, e isso é que fez com que a carreira tomasse forma e fórmula de verdade em todo o sentido da palavra.

E como é que olha para os jovens músicos de Angola?

Aí há muito que se lhe diga, mas tem que se ter, sobretudo, personalidade.

Alguns revisitam a sua música.

Sim, tem acontecido. É muitíssimo bom ver jovens – e menos jovens – que têm acompanhado e revisitado a minha música. Mas o mais interessante é que o jovem de hoje já é diferente do jovem de ontem. Claro que deviam informar-se melhor. Por exemplo, no meu ponto de vista, deviam ocupar-se e dedicar-se mais. Muito embora seja complicado, porque há muito jovem que já não fala a língua da terra. Muitos não sabem o que é o semba, o que é o cabetula, e o lapanga, etc. Porque o assimilado, o negro assimilado, com a cultura de quem passou por ali, complicou um bocadinho o caminho desta tradição, desta personalidade sociocultural, musical, etc. E a gente pôs as mãos na cabeça: “E agora?” Mas não tem que ser assim, espera aí, vamos dar uma força que isso é nosso. Dar uma força significa chamar a atenção e quando se faz uma música, dizer: “Eh pá atenção, aqui está mal”.  E mesmo eu não sendo teu professor, e menos ainda teu pai, vê se encaminhas isso mais ou menos para esse lado. Queres uma força instrumental? Eu dou a força instrumental, nem preciso te pagar. Mas tem que haver pessoas dessas, para que tenham um incentivo e, em função disso, melhorarem essas composições artísticas e assim satisfazer até a mãe que o pariu, e o pai também. Os pais dele vão ficar admirados: “Como é que tu conseguiste fazer isso? Estás a dar continuação a uma coisa que já era do meu tempo”, e tudo mais. Era isso que eu gostaria que fosse. Por isso é que Portugal ainda tem fandango, tem o vira, tem o fado. E nós temos aquilo que é nosso. Mas então cadê o jovem? Onde está o jovem que vai dar continuidade? Sem querer, esse tem sido o meu trabalho. Fazê-los saber que ainda se fala assim, ainda se diz assim e ainda se canta assim. Antigamente, isso era um crime. 

Destacaria algum nome dos novos músicos angolanos?

Nenhum deles. Nenhum. Muito embora eu colabore com todos aqueles que me solicitam. Ai de mim, que fosse agora o contrário, que eu é que tinha dar a volta para ir lá: “Vem cá, menino, que eu vou te…” Não, isso é que era bom. Eles é que têm que se interessar, da mesma forma que eu fiz. Tocar a instrumentação típica tradicional. Satisfazer o cota ali na concertina a tocar. E dos nove irmãos, ele é que o acompanhava na kikasa, no reco-reco. Maravilha. Dessa maneira e sem querer, dei um contributo e uma força tremenda àquilo que viria ser, mais tarde, tão importante para mim e para todo o segmento da música tradicional angolana.

Qual o significado deste regresso ao MED?

Sim, é um regresso e já quase um caminho. Já fomos a tantos espectáculos seguidos, fizemos aqui, e hoje outra vez. Quem agrada, volta, temos consciência disso. Por isso é importante estar aqui.

Há um novo disco no horizonte?

Discos não estão a ser falados porque há muita coisa espalhada, algumas deturpadas. Não quero entrar por aí. Quero dizer que tenho motivação para fazer, há umas músicas novas que foram feitas, mas isso requer trabalho e eu hoje estou mais ocupado com os gémeos do que propriamente a compor e a criar. Não. Eu agora vou mais devagar. Não posso é parar, isso não. 

O que espera para o concerto hoje?

Festa. A gente está vendo a cara deles, a cara deles é de festa.

E vai apresentar algum desses temas novos hoje?

Não. Vira o disco e toca aquilo que eles gostam. Sim, faça o favor. Ainda por cima na rua, ao ar livre. Espera aí, faça o favor. E é isso mesmo que vai acontecer. Faça o favor.

O concerto prolongou-se até perto das três da manhã. O público não arredou pé. Durante mais de duas horas cantou em kimbundu, dançou semba e celebrou uma memória colectiva que Bonga recusa que desapareça. No final, regressava a pergunta: “Onde está o jovem que vai dar continuidade?”

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