ARCA é como um receptáculo que se abre — de par em par —, e não somente para que nela se possa entrar, como de igual forma para fazer sair o que contém, e nisso do que nos contem. Os dias abertos da OSSO — Associação Cultural estão de volta ao lugar na Aldeia de São Gregório, nas Caldas da Rainha. Renovados os dias, o lugar como encontro surge em modo concentrado, de 17 a 19 de Julho viveram-se num primeiro fim-de-semana, daqueles que nos remetem para a fuga da arte. E de que fugimos?
Fugimos para lá da sociedade disciplinar de Foucault ou na tentativa em esboçar a fuga à implantada “sociedade de produção” — uma clara ideia trazida pelo pensamento de Byung-Chul Han. No seu ensaio A Sociedade do Cansaço vem inscrita a tese sumária de que “a sociedade do século XXI já não é uma ‘sociedade disciplinar’, mas, sim uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não são, por sua vez, ‘sujeitos de obediência’, mas, sim, sujeitos de produção. São empresários de si próprios”. As mudanças encetadas pelo efectivo auto-controle, alicerçadas na ilusão da produtividade. De que nos serve? Para nos arredar de nós mesmos — certamente. Depois, durante, e ainda a tempo, surge o convite à ideia libertadora, da fuga. O lugar indestrutível da arte (sonora) — entre o som e o silêncio.
A pianista e compositora Sakoto Fujii pode nem estar no programa, mas surge-nos na vontade, a propósito do que referia com sons não-musicais a Rui Eduardo Paes — na edição transacta de ARCA ministrou um mini-curso sobre escrita musical criativa. No texto “Som e Silêncio”, publicado no seu segundo volume de Bestiário Ilustríssimo citava-lhe o pensamento: “Quando digo que faço música com sons e silêncios, estou a referir-me a todos os tipos de sons e de silêncios. Quaisquer sons podem ser belos num determinado contexto. Não acredito nas definições existentes de ruído. Ruído é coisa que não existe. O que existe, de facto, é som, é silêncio. Nada mais, e tudo é matéria-prima para mim”. Partimos desse campo infinito de combinações para entrar nesta ARCA.
Começamos por (nos) encontrar (n)o tempo — mal se apaga o foco zenital sobre a mesa mármore com umas finas velas encaracoladas. O programa inicia-se com a dupla Mafalda Costa & Marcelo Reis para “Vestígios da Furna”. Estiveram em residência artística na OSSO para desenvolver a ideia. Foram os primeiros do ano, era Inverno. Nesses dias frios o fogo aconchega-nos, neste dias quentes o fogo repele-nos, mas dificilmente nos é indiferente. É talvez no fogo que melhor encontramos a nossa condição animal — primordial e ancestral. A ideia de furna, no título, vem de zona de abrigo, de refúgio. Durante a estadia da dupla, em residência, visitaram as Grutas de Mira de Aire. Trouxeram-lhe a luz na memória, aquele ondular luminoso sobre as paredes. Lá, nas profundezas há a Sala Grande, a Vermelha, a Cúpula Majestosa; aqui, na sala há um piano, gente em redor e um par de velas que se acendem na Sala do Piano da OSSO. O som vem em seguida e remete-nos à condição de sorver o tempo. Num cantar de parabéns há essa ideia da vela a consumir-se e a música — o tempo da consumação, que marca o que lhe cabe — aqui parecemos estar na antítese disso. Como uma escultura sonora dinâmica, onde a intensidade e a luminosidade são matéria-prima para o som. A música ouve-se em harmónicos de notas pedais, que se propagam e interagem ao sabor da chama. O hipnotismo do fogo e a cerimónia involuntária do som. Mafalda Costa e Marcelo Reis estão fora de cena dando todo o protagonismo ao som e à imagem.
O mecanismo está programado na resposta do som, mas sem significar que se repita ou seja previsível. A escuta do tempo está em curso — expande-se ou contrai-se, consoante a chama e a matéria combustível. A escuta interior também é lugar, tem-se a noção colectiva do indivíduo — a chama de cada um, que é partilhada por todos. Até ao crepitar final luminoso, viu-se um fio de drone a esvaziar o espaço rumo ao silêncio. Saboreou-se como um fim de princípio, aconteceu a abrir a ARCA como podia ter tido lugar no seu desfecho. Um tempo de som sem tempo.
Depois, mais tarde e no mesmo local, o trompetista João Silva juntou-se à percussão de André Hencleeday para SUCURI. Um novo território, onde as composições estruturadas se fizeram em rituais sonoros, como que para equilibrar a “ordem e caos, estrutura e espontaneidade”, como anunciavam, ou o som e o silêncio como absorvemos. Como acima citado, o ruído não existe. Os súbitos estalidos da tarola (acto performativo adiante) não são ruído, são antes estados impetuosos de som. A tempestade começara no bombo de grande dimensão, com tronos graves entre um pedal e uma baqueta. A trompete respira, entre pistões ou directa à surdina, sempre textural. Mas foram os intervalos de silêncio, impostos como um vital respiro, que soaram mais alto e nos deram o sentido de fuga, gizando o plano, como uma dessas cobras que agita o seu extremo antes de desferir o ataque à presa.
Fugimos numa caminhada. O passeio-sonoro que Sara Marques e Santiago Tricot desenharam. Chama-nos para um ponto de partida (fuga) na Eira da OSSO. Com “Holding Listening” convidam-nos num áudio‑percurso, traçado num trilho pelas paisagens de São Gregório, como um exercício de escuta expandida. O imenso legado de uma Pauline Oliveros e o seu pioneirismo em Deep Listening. Promovendo a passagem da natureza involuntária do ouvir para a natureza consciente da escuta, e nisso uma fuga voluntária, na própria realidade, mas num efectivo modo desperto e de receptores abertos. Guiados pela emissão que nos cabe na palma da mão e chega directa aos ouvidos, disponível durante o percurso à distância da Rádio Eira. Enquanto descemos pomares modernos, orlados por frutos do maquis espontâneo, ao encontro da linha de água do fundo do vale — a água que ruma, do Rio Arnoia. É no som da água que descobrimos uma narrativa de contraste. A paisagem sonora é de uma outra estação — no lado oposto orbital — a esta que os olhos observam. Ouve-se Inverno e caminha-se Verão. Passa a ter lugar uma escuta no princípio do “escutar com os olhos e ver com os ouvidos”. Nessa fuga onde “o rio que contém o vale, cria o vale que o contém”. Uma caminhada para sustentar o ouvir com o olhar — ver e ouvir mais além. Até que para o final se encontra na ideia, posta em prática, de um caminhar efectivo de olhos fechados — rumo ao foco no escutar, baseado na memória auditiva mais recente, como quem recobra o caminho de volta.
Juju Bento traz um outro plano, num biombo tripartido e translúcido, instalado na Adega Estúdio da OSSO. “Pulmão de Lustre” é uma coreografia desenhada partindo da paisagem de respiração sonora do acordeão de Dinis Oliveira. Quatro operadores de manivelas que fazem a dança do biombo. Quando a música pára há uma quebra, um desligar. Antes ficar a ouvir o fole a respirar. Acercam-se ao biombo, como de um espelho se tratasse, e nisso escutamos-lhe o respirar profundo e fatigado. Ganha-se consciência do mecanismo. “Quando fecho os olhos, ouço a totalidade do respirar do meu corpo. Os movimentos pulmonares são mecanismos acústicos de uma profundidade vital. O som proveniente destes movimentos pertence à partitura da medida da caixa torácica, oscilando capacidades aéreas constantemente. As suas pausas – são sinónimo do óbito. O alento vital é a capacidade de armazenar o que rodeia”, diz-nos em palavras. Juju Bento como que puxa o lustre de uma coreografia esboçada num final de tarde de sábado. Será mesmo que devemos procurar um princípio, um meio e um fim ao vivido? Antes olhar o decurso — ficamos a respirar a luz num biombo articulado. Uma proposta que se vê intensificada à medida da escuta, como um véu diáfano, permeável ao som, na busca de uma ideia de luz.
Já dispostos no Salão de São Gregório — o fumo da sardinhada do jantar comunitário, sob os desígnios culinário do Chef Brito, havia percolado o espaço e emprestado mais rigor aos focos de luz, que se iam acender para ver de perto OMNISPECTRUM ter lugar. A cineasta experimental Inti Gallardo junto dos artistas sonoros Henrique Fernandes e Jorge Quintela, numa produção do colectivo Sonoscopia. Um mergulho nos ambientes dos sabkha por imediato confronto sonoro-visual. O triplo efeito ocular nas telas denuncia na perfeição o sentido. Três volumetrias esféricas: som, imagem e o futuro-ancestral. Nesses ambientes hiper-salinos dos sabkha, como o grande Salar de Atacama, há uma vasta região de formações de crostas minerais associadas à evaporação. Do extrativismo colonial-actual, os recursos de nitratos revelaram a prática ancestral de mumificar corpos, da cultura do extinto povo nómada Chinchorro. Em OMNISPECTRUM há um espaço evocativo, mas sem ser em modo documental da história, antes de nos libertar para esse conhecimento. As duas mesas de mecanismos múltiplos e inventivos criam a sonoplastia em tempo real, feita de elementos que remetem para esse ambiente sedimentar: o vento, a areia, os sais. Das imagens, que surgem dos diapositivos feitos de frames que Inti Gallardo não incluiu no filme das múmias, das filmagens em película de super8 e 16mm, ouve-se o som mágico das bobines a rodar. Sobreposições que revelam a estratificação do tempo sobre os corpos, a permineralização como forma de preservar, de revelar o passado no presente. Estas comunidades sobreviveram sobre os efeitos mortais dos ambientes de arsénio, encontravam a morte precocemente, prolongavam a presença através da mumificação e viajavam, todos em conjunto. Gallardo, Fernandes e Quintela fazem-no em igual medida no sentido da arte sonora, do cinema, da ecologia, da memória e ancestralidade, atravessando o deserto, na lonjura do tempo, numa fluidez absolutamente tocante e emocional.
No final do segundo dia de ARCA é na intrínseca poesia que vamos ao encontro da arte (da fuga). Harpoemacto é um desiderato entre as palavras ditas e as cordas tangidas da harpa, são as mãos dadas de Angélica Salvi à voz de Nuno Marques Pinto. Um habitáculo feito redoma à produção dos dias. Nele incorporados, na confortabilíssima Sala do Piano da OSSO, estamos a salvo pelo acto poético adiante. E toda a acção é feita de sorriso estampado de rosto em rosto. Entrada ao som contínuo da atmosfera de “In a Landscape”, a peça que John Cage inscreveu directa à serenidade dos sons, que nos remete a um Satie. Salvi toca-a na sua suprema harpa, um convite para que se tomem assentos na sala, para um escape à terra, como traduz na raiz a palavra. Logo em seguida servem outras, essas onde se escuta: “Agora na superfície da luz a procurar a sombra / agora encostado ao vidro a sonhar a terra”. Elo de ligação de Cage a António Maria Lisboa através de “Rêve Oublié”. Atrás da dupla um vidro, diante de nós as palavras entre harpejos.
“Reservado ao Veneno” é a poesia que radica Forte, e se torna mais radical quando o diseur Nuno (que também noutras ocorrências é Nu No) prossegue em acção, e porque os poemas melhor que se explicam — ouvem-se, sorvem-se e vão até ao osso. Um dia (na noite) reservado às pequenas coisas, tornadas grandes e imprescindíveis, como a harpa em modo exploratório no rodopio de um vórtice nas cordas. O “Surrealismo”, o “Frio”, “Ruivo”, até ao “Medo”, sucedem-se em cadência poética como se enumeram os poemas ditos — cadáveres esquisitos melhor se aceitam no sentido da língua hispânica. “De que cor é o vermelho? É verde! / Quem é o teu pai? É o revisor do comboio para a Lua” e os glissandos sem fim, sobem e descem aos lugares que importam. É certo, estamos “presos à noite por um frio” mas num conforto inquebrantável. “Caderno Azul Nº 10″ ou no original “Голубая тетрадь № 10″, de Danill Kharms, conta-nos no absurdo, a estória de um homem que nada tem, de quem se dirá “que seria melhor não acrescentar mais nada a seu respeito” e que a harpa serve em encantador embalo. Trazido à actualidade, por pertinência que dispensa a razão do motivo, surgem com “Poema Pouco Original do Medo” de O’Neill. Primorosamente recitado entre acordes em suspensão. “O medo vai ter tudo…” como um poema-noir que diz o que se sabe, “penso no que o medo vai ter / e tenho medo / justamente aquilo que o medo quer” — havemos todos de chegar a ratos, como no desfecho do poema.
As onomatopeias várias, como Marques Pinto, a solo, melhor recita “A Revolta do Texto”, de Melo e Castro — poema-visual, assim como “Aranha”, que já antes circulava impresso pelo chão. Pelo meio, de António José Forte vêm outros, d’A Faca Nos Dentes, onde Salvi ressurge como ao universo de Phantone (Lovers & Lollypops), quando se apresentava no seu primeiro registo discográfico a solo. As folhas de cada poema caem às mãos do declamador, como as folhas do Outono caem quando nelas deixa de haver palavra-clorofila. Notabilizam-se em “Prelude no. 1 [BWV 846]” de Bach, num arpejo de delicadeza e sofisticação, onde as sonoridades vocais voaram tão alto que ninguém mais as agarrou na noite. Uma fuga como em desígnio. Tal como de “de repente / como uma flor violenta / um homem com uma bomba no peito […] como uma rosa na boca / negra” — as cordas guinam, gemem, tronam em simultâneo a tensão do desfecho inesperado.
Acrescem-lhe, nesse desfecho: “cego / surdo / mudo”, à condição — em razão. Que nem o retrato do artista — nós mesmos — enquanto cão, como evocando o galês Dylan Thomas. “Relações Perigosas” e as árvores de uma genealogia reinventada ao embolo da harpa em arcadas, trazendo para perto Ernesto Melo e Castro. A harpa ouve-se abstracta e o desfecho poético deixa-nos nas palavras, retiradas directamente do calhamaço em mãos, a bater, a embater… — de frente a Beckett na praia, para “A fábula de alguém, a fabular alguém que está contigo no escuro”. Mas e “se gostais de belas torturas, não ouvireis… NADA!”, como melhor se encontra no silêncio.