Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.
[Adam Schatz] Civil Engineering Vol. 1 (Jealous Butcher Records)
Há um momento em “A Growing Line at the Returns Counter” – belíssimo título, diga-se – em que Adam Schatz, sentado ao piano, parece desenhar círculos em torno do perfil inicial de uma das passagens melódicas mais indeléveis da música popular: a primeira frase de “The Windmills of Your Mind”, de Michel Legrand. Que seja uma referência intencional ou apenas uma dessas alusões fugazes que emergem quando o vocabulário de um músico se tornou indissociável do seu instinto é quase irrelevante. O que importa é que soa plausível.
Schatz, compositor, multi-instrumentista e força motriz dos Landlady, pertence a essa categoria cada vez mais rara de músicos cujo gosto pela aventura não assenta numa ruptura gratuita, mas numa familiaridade íntima com um determinado cânone musical. A sua curiosidade parece ter-se movido sempre de forma centrífuga, para fora, em direcção à experimentação, mas partindo de um centro de profunda cultura musical.
Isso era já evidente em 2021, quando, escrevendo no The New York Times sobre as estranhas distorções temporais do confinamento pandémico, Schatz descreveu a forma como se deixou absorver pela intrincada mecânica emocional de “Simon Smith and the Amazing Dancing Bear”, de Randy Newman, canção cuja aparente ligeireza esconde uma extraordinária sofisticação composicional. Era um auto-retrato revelador. “Não posso deixar que os meus músculos do risco fiquem flácidos”, escreveu – uma frase que capta com precisão a tensão que anima grande parte do seu trabalho: disciplina ao serviço da incerteza, estudo como preparação para o desconhecido. Schatz nunca apresentou a experimentação como ruptura. Aproxima-se dela, antes, como de uma conversa contínua com o passado, uma conversa em que memória, técnica e apetite pelo perigo permanecem em equilíbrio criativo.
Essa sensibilidade é central em Civil Engineering Vol. 1, álbum cuja espontaneidade, a uma primeira escuta, poderia sugerir precisamente o contrário. A 4 de Abril de 2025, Schatz recebeu um convite inesperado do amigo e veterano engenheiro de som Seth Paris para servir como uma espécie de cobaia nos lendários estúdios Power Station, em Nova Iorque. Paris estava a demonstrar uma máquina de fita Studer a técnicos de som mais jovens – talvez uma iniciação a um ramo em vias de desaparecimento da alquimia de estúdio – e havia algum tempo disponível. Schatz, reconhecendo de imediato o valor da oportunidade, formou um trio com a prontidão que o caracteriza, convocando a contrabaixista Carmen Quill, conhecida sobretudo pelo trabalho nos Scree, e o baterista e percussionista Qasim Naqvi, cuja música com os Dawn of Midi há muito ocupa um território singular entre repetição, ritual e abstracção jazzística. As circunstâncias não convidavam à contemplação. Naqvi teria, ao que consta, apenas uma hora livre numa agenda já sobrecarregada. Não haveria preparação elaborada, manifesto conceptual ou partituras distribuídas antecipadamente. Uma sala, uma máquina, três músicos, fita a rolar.
Essa génese comprimida oferece uma narrativa atractiva, mas concentrarmo-nos exclusivamente na espontaneidade do álbum seria não compreender aquilo que o torna tão convincente. Improvisação deste calibre não nasce do vazio. Nasce da acumulação. A ausência de um mapa previamente traçado não implica ausência de direcção; significa apenas que o rumo tem de ser negociado em tempo real, através de uma fluência partilhada e não de instruções explícitas. Civil Engineering Vol. 1 é fascinante precisamente porque demonstra quanta estrutura pode ser gerada por músicos que sabem o suficiente para dela não precisarem.
O próprio título é sugestivo. Afinal, a engenharia civil é a disciplina que cria estruturas capazes de suportar peso: sistemas desenhados para absorver pressão, movimento e instabilidade. É difícil não escutar o álbum através dessa metáfora. Estas interpretações parecem construídas em movimento, pontes provisórias erguidas sob fortes constrangimentos de tempo, mas com uma extraordinária inteligência estrutural. A música dobra-se, absorve o impacto, redistribui a tensão. Nada desaba.
Isso torna-se imediatamente perceptível no tema de abertura, “A Test of Attention Spans and Contact Cleaner”, cujo título aponta tanto para detritos tecnológicos como para a fragmentação psíquica contemporânea. A peça começa com algo próximo de uma proposta jazzística reconhecível: linhas de saxofone articuladas com clareza, fricção rítmica a gerar impulso, a sensação de que talvez esteja a desenrolar-se uma convencional interpretação de trio. Mas Schatz e os seus companheiros são demasiado inquietos para permanecerem dentro desse enquadramento. A música começa rapidamente a sofrer mutações, abrindo corredores laterais em vez de avançar em linha recta. O que impressiona é quão pouco essa transformação soa a uma sucessão de saltos entre géneros. A passagem de Schatz do saxofone tenor para o piano não se lê como mudança de direcção, mas antes como deslocação de perspectiva. Naqvi, por seu lado, expande o vocabulário do trio com intervenções texturais que resistem a classificações fáceis: conchas, pequenas percussões, sons que evocam ambientes orgânicos sem resvalarem para um exotismo decorativo. Impulsos minimalistas afloram e dissolvem-se depois numa matéria mais próxima do ambient, até que a insistência rítmica volta a afirmar-se a partir de um ângulo inesperado.
A interpretação desenrola-se segundo uma lógica que só a improvisação pode gerar: irracional quando descrita, inteiramente coerente quando escutada. Schatz falou noutras ocasiões do desejo de fazer música que permanecesse porosa à surpresa, e Civil Engineering Vol. 1 floresce precisamente nessa permeabilidade. Mas a surpresa nunca é aqui confundida com aleatoriedade. O que se escuta é antes o comportamento de músicos que operam a partir de sistemas internos altamente desenvolvidos e interiorizados, capazes de tomar decisões estruturais em fracções de segundo porque essas decisões são informadas por anos de escuta, prática e absorção. O papel de Carmen Quill é particularmente vital nesse aspecto. Em contextos improvisados, os contrabaixistas são muitas vezes descritos em termos arquitectónicos – fundação, estrutura, ancoragem –, mas o contributo de Quill é mais subtil e dinâmico do que esses clichés permitem. Ela é menos uma âncora estabilizadora do que uma negociadora activa de possibilidades, capaz de insinuar uma direcção sem a impor. As suas linhas podem funcionar como convite, provocação ou redireccionamento, consoante aquilo que o momento exige.
“Rock Solid” oferece talvez a ilustração mais clara desse processo. Um gesto de contrabaixo enganadoramente simples inaugura a peça, estabelecendo algo que tanto poderia transformar-se num groove como ficar pela mera sugestão. Em vez de solidificar numa estrutura previsível, esse fragmento torna-se a base de algo mais estranho. Surge um loop. Um drone instala-se sob a superfície. Naqvi responde não fixando-se num pulso, mas abrindo espaço em torno desse centro implícito. O tenor de Schatz entra de forma oblíqua, sem afirmar domínio nem se render à atmosfera. O que se segue é notável menos pela proeza técnica – embora esta exista em abundância – do que pela forma como parece conter várias temporalidades em simultâneo. A execução de Schatz soa plenamente presente, reactiva às peculiares condições criadas pelos seus colaboradores, mas transporta também o sedimento da história. O que se ouve não é exactamente citação, mas depósito: vestígios de gerações de saxofonistas cujos sons saturaram outrora as salas dos clubes nova-iorquinos, agora comprimidos numa fraseologia instintiva. A interpretação torna-se simultaneamente acontecimento imediato e eco histórico. Essa dualidade talvez seja a qualidade mais fascinante do álbum.
A música improvisada apresenta-se muitas vezes em termos de ruptura: uma quebra com a convenção, uma recusa da forma pré-determinada. Civil Engineering Vol. 1 propõe, porém, um modelo mais matizado, em que a inovação emerge da densidade das referências. Estes músicos recombinam linguagens herdadas sob pressão, descobrindo formas desconhecidas dentro de vocabulários familiares. Essa dinâmica torna-se especialmente interessante no caso de Schatz, porque a sua identidade artística nunca foi facilmente contida no discurso do jazz, por mais poroso que esse termo continue a ser. O seu trabalho com os Landlady abraçou sempre, em igual medida, a arte da canção, a teatralidade, o humor e a imprevisibilidade estrutural. Schatz escreveu também com invulgar perspicácia sobre composição e escuta. A sua sensibilidade é inequivocamente a de um omnívoro musical, desconfiado de categorizações rígidas, mas profundamente respeitador do ofício. Essa amplitude importa aqui. Civil Engineering Vol. 1 não soa como o disco “outside” de um músico de jazz, nem como o gesto de músicos experimentais que se aproximam do vocabulário jazzístico por mero efeito textural. Soa, antes, a três músicos que compreendem a categorização como historicamente útil, mas criativamente insuficiente.
Naqvi é crucial para essa ambiguidade. A sua forma de tocar há muito ocupa um espaço fascinante entre propulsão e suspensão, e aqui funciona quase como um arquitecto de ambientes, moldando tanto a atmosfera do trio como o seu pulso. Mesmo quando o ritmo se torna explícito, raramente se comporta de maneira convencional. O tempo torna-se elástico; a pressão é redistribuída em vez de simplesmente mantida. E, no entanto, apesar de toda a sua sofisticação, o álbum nunca soa académico. Esse é um dos seus triunfos discretos. Música criada nestas condições, por instrumentistas deste calibre, poderia facilmente resvalar para a demonstração: uma exibição de competência disfarçada de espontaneidade. Civil Engineering Vol. 1 conserva, em vez disso, uma sensação de genuíno prazer exploratório. Ouvem-se músicos a escutar, a recalibrar, por vezes a seguir caminhos que talvez lhes pareçam incertos até a eles próprios.
O próprio meio de gravação contribui para essa sensação. O facto de estas interpretações terem sido captadas em fita nos Power Station não é mero romantismo anedótico. A fita impõe condições psicológicas diferentes. Sugere compromisso. Altera a relação com o erro, a repetição e a consequência. Quer os ouvintes registem conscientemente esse contexto material, quer não, a música parece moldada por ele: assumida em vez de infinitamente passível de revisão, corporizada em vez de provisória. Há uma tentação, quando se discute música como esta, de romantizar a espontaneidade como autenticidade. Civil Engineering Vol. 1 defende algo mais interessante: que a autenticidade na improvisação pode residir precisamente na interacção perceptível entre preparação e incerteza. Os músculos do risco que Schatz um dia descreveu estão claramente bem exercitados, mas o que os torna impressionantes não é a mera ousadia. É a inteligência com que se abdica do controlo.
No final do álbum, o que permanece é a peculiar lógica emocional que o trio sustenta do princípio ao fim: a sensação de movimento através de um terreno parcialmente familiar, cujos pontos de referência se vão rearranjando subtilmente. Se Civil Engineering Vol. 1 documenta alguma coisa, não é apenas um encontro fortuito em estúdio, embora também seja isso. Documenta aquilo que se torna possível quando músicos de vasta cultura permitem que o conhecimento acumulado funcione como rampa de lançamento. O paradoxo no centro do disco é também o seu prazer: esta é música que soa simultaneamente descoberta e recordada, íntima e alienígena, rigorosamente construída e arrebatadoramente instável. Por outras palavras, exactamente o tipo de música que Adam Schatz parece singularmente preparado para fazer.
Texto originalmente publicado no número 19 da revista We Jazz