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De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?

Festival MED’26 — dia 3: uma conversa entre o Atlântico e o Mediterrâneo

A terceira noite do Festival MED pintou-se como um sonho demorado e sequencial no quadro de Gauguin. Libertou o tempo sob o chão de Loulé e destapou a sucessão dos séculos gravados nas fachadas, suspensos sobre o mercado e escondidos nos telhados. Enquanto nos cruza com as vidas do mundo, as que foram e as que são, faz regressar as inquietações do pintor — De onde viemos? O que somos? Para onde vamos? — e as respostas pareciam existir. 

No Chafariz, há uma hora certa em que o sol estampa de ouro a muralha do castelo, as sombras projetam-se e as famílias sentam-se na relva da encosta. É o (re)começo do sonho que agita a cidade e lhe desperta a história para a espalhar ao vento, no presente. “O Mar não é fronteira” tatuado nas paredes de Quarteira recorda-nos o famoso verso: “Que o mar unisse, já não separasse”. Ao mesmo tempo, encaminha-nos para a compreensão do encontro entre a pianista carioca Bianca Gismonti e o guitarrista de Guimarães, Manuel de Oliveira. Resulta de uma afinidade recente, mas revela uma cumplicidade rara e que parece tão antiga como o atlântico. Entre o piano e a guitarra estabeleceu-se um diálogo subtil e delicado, feito de escuta permanente. O silêncio pesava tanto como as notas. As frases e os gestos sucediam-se como ondas suaves que encontravam sempre uma praia ou uma margem para chegar. Perto do final, Manuel de Oliveira ficou sozinho em palco para interpretar uma homenagem dedicada a Paco de Lucía num momento de contenção e respeito. Técnica e emoção. 

Pouco antes do concerto já não sobrava muito espaço para receber a Orchestra Baobab. Fundada em Dakar, em 1970, a banda mantém-se como referência maior da música africana, unindo há mais de cinco décadas as margens do Atlântico. Em palco, nove músicos da segunda geração desenharam uma sonoridade de grande elegância: duas guitarras em permanente diálogo, baixo e bateria de pulso discreto, percussões, dois saxofones de fraseado sedoso e duas vozes que alternavam entre a serenidade e a celebração. O son cubano, o highlife, os ritmos mandingas e a tradição senegalesa coexistiam com uma naturalidade desarmante, produzindo um som que envelheceu sem perder frescura. Na Cerca ouviu-se música sem urgência, mas cheia de vida. Uma celebração coletiva, construída com elegância e um som irrepreensível, que fez do balanço a sua maior força. À medida que o sol desaparecia e as primeiras estrelas se acendiam, o palco incendiava-se de vermelho, como um céu africano refletido numa baía de Havana. 

Sábado é o dia que atrai mais público, crescem as filas e o trânsito nos becos. Os vizinhos convidam amigos. As portas das casas ficam abertas e as mesas estão postas. Os sorrisos são mais numerosos e disparam-se gargalhadas facilmente. É a noite inundada pela pura alegria de uma festa.

Se a Orchestra Baobab convidou à dança com elegância, os Los Van Van fizeram dela uma inevitabilidade. A histórica orquestra cubana apresentou uma impressionante formação de dezasseis músicos, onde dois teclados, bateria, percussão, baixo, contrabaixo elétrico, dois violinos elétricos, três trombones e quatro vozes criavam uma autêntica parede sonora. No ecrã líamos: “Ven, dâme”, enquanto a banda mergulhava num dos seus temas mais românticos. Criadores do songo e decisivos na evolução da timba cubana, os Los Van Van continuam a demonstrar porque são uma referência absoluta da música popular latino-americana. O virtuosismo da secção de metais coexistiu com um balanço contagiante, onde tudo parecia acontecer com uma naturalidade desarmante. Não havia um corpo parado na Matriz. Todas as ancas baloiçavam ao mesmo ritmo, numa celebração onde a técnica nunca se sobrepôs ao prazer de tocar. 

Enquanto a Matriz fervilhava ao ritmo de Cuba, o Chafariz oferecia uma viagem ao Mediterrâneo. A voz de Natacha Atlas habita um território onde Oriente e Ocidente deixam de ser direções para se tornarem matéria sonora. Herdeira de múltiplas geografias, a cantora constrói canções onde a tradição árabe encontra a eletrónica, o jazz e a música contemporânea sem perder identidade. O ambiente era calmo e a interpretação manteve essa delicada tensão entre o misticismo e a modernidade, conduzindo o público por paisagens sonoras que dispensam tradução e vivem da força expressiva da voz.

Arnaldo Antunes apresentou um espetáculo de som renovado, mais próximo do rock independente, sem abandonar a densidade poética que há décadas marca o seu percurso. O palco, mergulhado em fumo e luz vermelha, parecia desenhado para retirar importância a tudo o que não fosse a palavra. Vestido de negro, imóvel durante longos momentos, o músico brasileiro ocupava o centro da cena como um poeta que decidiu cantar em vez de recitar. À sua volta, guitarras, bateria e sintetizadores construíam um som desafiador, mais próximo do rock alternativo do que da canção brasileira tradicional, sem nunca perder espaço para o silêncio. Entre palavras depuradas e guitarras de textura contemporânea, interpretou uma canção escrita com Erasmo Carlos e apresentou “Uma canção de entrada ao desconhecido”, onde a poesia surrealista encontrou uma surpreendente clareza musical. Em “A Casa É Sua”, o concerto abriu-se definitivamente ao público, lembrando que, na obra de Antunes, é a palavra quem conduz a música, nunca o contrário, e a linguagem permanece como lugar de encontro.

O coletivo franco-sírio Sarab trouxe um dos concertos mais intensos da noite ao palco Castelo. A energia do punk atravessou harmonias do jazz e da tradição árabe, criando uma música inquieta, de tensão permanente. Nada ali procurava conforto: cada tema parecia nascer do conflito e da urgência, mas sem perder sofisticação. Um espetáculo vigoroso, onde a eletricidade serviu de veículo à emoção.

Os gregos Koza Mostra regressaram ao MED com a irreverência que os tornou conhecidos muito para além da Eurovisão. No segundo concerto do palco Matriz, o bouzouki dividia atenções com o violino, enquanto o rock balcânico se misturava com o ska, o punk e discretas aproximações ao reggae, particularmente evidentes em Malaka, um dos novos temas apresentados e antecipação do próximo álbum. O grande painel ilustrado, inspirado na iconografia tradicional grega, servia de cenário para uma banda que nunca perdeu o sentido de humor nem a energia. O concerto viveu da permanente tensão entre tradição e excesso.

Basta perdermo-nos num dos becos de Loulé para encontrar os Calle Mambo, irredutíveis a qualquer classificação. O grupo chileno fez do último concerto no Chafariz uma celebração da América Latina contemporânea, cruzando hip hop, cumbia, ritmos andinos, música urbana e tradição popular num espetáculo onde quase todos os músicos alternavam entre diferentes instrumentos. O resultado é uma música festiva, urbana e mestiça, construída para derrubar fronteiras e manter o público em movimento. A flauta de pã, o charango, a guitarra e a percussão conviviam naturalmente com a eletrónica e o rap, enquanto a cantora e o vocalista percorriam o palco sem nunca deixarem cair a intensidade.

Depois da lendária Orchestra Baobab e dos históricos Los Van Van, a noite reservava outro encontro com uma lenda: Bonga. Quando Bonga entra em palco, entra também uma parte da história da música lusófona.  Aos 83 anos, a voz áspera, profunda, marcada por décadas de exílio, resistência e memória de Bonga conserva a capacidade de ocupar todo o espaço. À sua volta, a banda construía um tecido sonoro onde o baixo, a bateria, as congas e o acordeão dialogavam com naturalidade, enquanto o próprio Bonga alternava entre a harmónica e os timbales, acrescentando pequenos gestos que bastavam para orientar o concerto. Não havia artifício. Havia autoridade.

A sua música mantém-se como um dos retratos mais completos da identidade angolana. O semba — matriz de toda a sua obra e antecedente direto da kizomba e, como o próprio sublinhou, do samba brasileiro — convive com ecos da rebita, da kazukuta e de outras tradições populares de Angola. As canções, muitas delas interpretadas em kimbundu, mas também em kikongo e português, transportam uma memória coletiva que ultrapassa as palavras. O público respondeu como quem reconhece uma voz de família. Dançou, cantou e acompanhou cada refrão, transformando o concerto num ritual, alegre e nostálgico. Poucos artistas conseguem fazer da simplicidade uma forma tão poderosa de comunhão. Bonga deu um concerto demorado e terminou muito perto das 3h00 da madrugada. 

O fecho estava apontado para a Matriz e às mãos de Fidju Kitxora, um dos mais promissores projectos da nova música cabo-verdiana. A eletrónica, os ritmos urbanos e uma abordagem mais direta à composição afastam-no da simples continuidade da morna ou da coladeira. O resultado é um som novo, poderoso e surpreendentemente enérgico, servido por uma excelente qualidade sonora e por uma presença em palco que cresce à medida que o concerto avança. Mais do que fechar a noite, Fidju Kitxora deixou a sensação de que a música cabo-verdiana encontra neste presente novas formas de se reinventar sem perder a alma. A par dos Expresso Transatlântico trouxeram ao MED o som mais contemporâneo e desafiante da música portuguesa. Aboliram fronteiras e mostraram novos caminhos. Era já madrugada, mas o Atlântico continuava a conversar com o Mediterrâneo nos palcos de Loulé. 

Quando as luzes começaram finalmente a apagar-se e os últimos passos ecoavam nas ruas estreitas de Loulé, permanecia a sensação de que o MED não é apenas um festival. Durante quatro dias transforma a cidade num lugar onde continentes, línguas e séculos convivem sem esforço. Talvez Gauguin nunca tenha encontrado resposta para as perguntas que pintou. Em Loulé, por algumas noites, simplesmente deixa de ser preciso fazê-las. O Mediterrâneo já não era um mar, nem o Atlântico um oceano. Tinham-se tornado duas formas de imaginar o mundo.


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