Os dias podem começar em qualquer lugar: numa ruela do centro ou nas bancas do peixe no mercado colorido, à sombra de uma alfarrobeira ou num areal junto ao mar — são inúmeras as hipóteses de partida para quem anda por Loulé nestes dias. Há sempre o sol no céu e o sal do mar a cozinhar-nos a pele. A brisa mistura o pinheiro, a maresia e o cheiro quente da terra. É este o abraço com que o sotavento nos agarra e integra no colo como um embalo para a noite.
Neste segundo dia do Festival MED, começámos pelo palco Chafariz quando o sol se acamava no oceano e salpicava de luz laranja o céu algarvio. Daniel Kemish surgiu na varanda de uma casa, ao lado do palco, com um chapéu de cowboy e uma guitarra elétrica na mão para o tema inicial que revelou a sua voz barítono. Em palco, a banda contava com nove músicos, amigos de Kemish, entre guitarras, teclados, bateria, baixo, harmónica, saxofone, trombone e acordeão. É a folk, a country e o blues do sul dos Estados Unidos filtrados pelo olhar de um músico inglês que escolheu Tavira para viver.
Sexta-feira trouxe ao recinto mais gente e sobretudo mais famílias e crianças. Enquanto nos dirigíamos até a um dos epicentros do festival, cruzámo-nos com as batucadeiras de Boa Esperança numa rua perto do mercado como quem cruza uma ilha atlântica sem contar.
A Cerca propõe três atuações por noite e, nesta edição, o primeiro concerto, às 21h30, aproxima o público de uma experiência em sala com o convite a sentar-se. Arooj Aftab era um dos nomes que suscitava mais curiosidade e expectativas para a noite. A artista paquistanesa recusa entrevistas. Revelar é em palco com a música. O inglês aproximou as consciências mas foi a música que as uniu. Aftab nasceu no Paquistão, cresceu entre a Arábia e os Estados Unidos e carrega essa rosa dos ventos com vários nortes. O jazz modal, espiritual e minimalista, a eletrónica ambiental, são algumas das etiquetas atiradas para o contributo desnecessário de a definir. Escutá-la é respirar-lhe a música. É parar para ouvir. Erguer silêncio em redor. Sem harpa, mas com o contrabaixo, guitarra, bateria e voz, o quarteto soava coeso e experimentado. No final, antes de terminar com um tema que escreveu na adolescência quando lhe partiram o coração pela primeira vez, serviu um shot de whisky à plateia para um brinde coletivo sobre as feridas.
Loulé é um ponto intermédio milenar entre o atlântico e o mediterrâneo e onde se encontram geografias e sonoridades distintas, dos Balcãs à África Ocidental, passando Médio Oriente e as ilhas atlânticas. Na Matriz, os húngaros Bohemian Betyars abriram a noite com uma descarga de energia. A formação, composta por violino, trompete, duas guitarras, baixo e bateria, fez da chamada música cigana dos Balcãs um uma celebração enérgica e explosiva. Entre ritmos acelerados e melodias de inspiração folk, o concerto rapidamente transformou o espaço num ambiente de festa.
Quase em simultâneo, no Palco Chafariz, os Expresso Transatlântico confirmaram a crescente afirmação de um dos projetos mais interessantes da nova música portuguesa. Antes de interpretarem “Azul Celeste”, o trio prestou homenagem a Carlos Paredes, recuperando e recriando “Movimento Perpétuo” para sublinhar a influência do mestre da guitarra portuguesa numa linguagem que cruza tradição fadista e modernidade eletrónica. A guitarra portuguesa encontra a eletrónica sem perder identidade. Nos Expresso Transatlântico, a tradição está em movimento perpétuo para diluir fronteiras.
As paredes caiadas das casas do centro histórico acendem as luzes dos becos e refletem as sombras de quem lá passa. Famílias inteiras, grupos de amigos, velhos e novos em passos rápidos ou lentos e em direções dispersas. Regressámos ao Cerca, ao encontro de Mário Lúcio & The Pan African Band. O ambiente é de celebração e rapidamente conquistou o público. Um lume brando ao som da música cabo-verdiana antecipava, entre o público, o jogo de Cabo Verde no Mundial .
No Castelo, Dima Libre – Labess Trio oferecia um registo mais intimista, de sonoridades do Magrebe e do Mediterrâneo. Ali encontramos um ponto de fuga. Um espaço para respirar e digerir.
Depois da meia-noite, a expectativa deslocava-se novamente para a Matriz, com a entrada em palco de Tiken Jah Fakoly. A presença de onze músicos e a entrada do mestre de cerimónias fazia prever um concerto de grande intensidade e um dos mais marcantes desta edição, mas essa promessa acabou por não se concretizar plenamente. Apesar da qualidade da banda e da experiência do músico marfinense, a atuação tornou-se progressivamente repetitiva, apoiando-se sobretudo no enorme carisma, na poesia libertária e na presença magnética de Fakoly. Os sopros dançavam mais do que acrescentavam novas camadas ao som e muitos dos arranjos pareciam subaproveitar os onze músicos em palco. Ainda assim a comunhão foi plena e, entre o público, uma bandeira da Jamaica lembrava as raízes do reggae. Na verdade, a imagem que nos ficou foi uma louletana à janela, mesmo por trás do palco e com vista privilegiada. O mundo passa-lhe à janela há vinte e dois anos.
Depois de Plus rien ne m’étonne tomamos a direção do Cerca, mas com um desvio pelo Chafariz, para uma das maiores surpresas da noite. Bendito desvio. Omar and the Eastern Power Band apresentaram um som intenso e desafiante, onde o Norte de África e o Médio Oriente se cruzam com uma pulsação rítmica e viciante. Os solos de djambé, o diálogo com os timbales e a bateria, as guitarras e o baixo, causaram grande impacto, com uma energia constante e uma linguagem musical pouco convencional mas absolutamente desafiante. Não causaria espanto apontá-los como a grande revelação da noite e um dos encontros mais estimulantes de toda a programação até agora.
Seduzidos a ficar até ao final, chegamos quinze minutos após o inicio de Seun Kuti & Egypt 80. Valeu a pena. Só mais tarde percebemos que os primeiros minutos tinham servido de apresentação da lendária Egypt 80. Kuti ainda não tinha aparecido, foi o último a ser chamado a palco. Herdeiro de Fela Kuti, o músico nigeriano liderou uma banda de oito elementos — com trompete, saxofone tenor, guitarra elétrica, baixo, bateria e uma cantora e bailarina — alternando entre os teclados e o saxofone e a voz. O concerto arrancou morno, mas foi crescendo em intensidade à medida que o afrobeat se impunha e a ligação com o público se reforçava. Já sem a túnica com que entrou em palco, Seun conduziu a reta final com maior entrega, enquanto, entre a assistência, uma bandeira da Palestina recordava as associações familiares entre música e a dimensão política e de intervenção. O festival continua muito depois da última nota. Prossegue nas ruas estreitas, nas conversas à porta dos bares, nas janelas abertas sobre os palcos e no caminho de regresso a casa. Em Loulé, as noites do MED acabam sempre mais tarde do que a música.