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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 26/06/2026

Sem qualquer correspondência com o sentimento insubmisso de outros tempos.

Asian Dub Foundation no Festival MED’26: entre a festa e a resistência

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 26/06/2026

Os Asian Dub Foundation sempre representaram a intersecção onde a festa se mescla com o protesto e um se torna, felizmente, indistinto do outro. Ontem (25 de Junho), no Festival MED em Loulé, foram os próprios que propuseram a pista de dança como espaço de resistência onde a única coisa militar é o dub.

Apesar da sua promessa, esta não é a mesma banda que gravou Rafi’s Revenge e Community Music. Não foram apenas as saídas do MC Deeder Zaman em 2000 e pela do baixista Dr Das 6 anos depois, que transformaram inevitável e irreversivelmente o som da banda, formada a partir de um workshop de música e com o principal objectivo de ser um veículo de consciencialização social. 

Toda a atitude em palco dos Asian Dub Foundation, cujo teor das letras é assumidamente político, se encontrou nos antípodas do que os Massive Attack fizeram no Primavera Sound e que gerou tantas críticas de quem parece ser mais fã da mercantilização do que da música. Nem Aktar Ahmed, nem Ghetto Priest ou Nathan Flutebox, as 3 vozes em palco, fizeram qualquer menção a questões basilares no universo da banda desde a fundação, fosse a económica extractiva, a imigração ou o racismo. Nas situações em que os membros da banda falaram, fizeram-no para pedir para o público saltar, privilegiando o aspecto festivo puro, sem qualquer correspondência com o sentimento insubmisso de outros tempos. 

Se os discursos politizados parecem incomodar uma parte de público dos concertos, que exige dos músicos serem réplicas exactas de prestadores de serviços, no caso dos Asian Dub Foundation, isso é parte não só do seu diferencial, mas mesmo da identidade da banda. É por isso difícil não sentir a ausência de enquadramento social para músicas com 20 anos, cujos temas continuam, infelizmente, pertinentes.

Esse aparente menorizar do carácter político da banda, encontra, em certa medida correspondência com a sua sonoridade actual, quase despida das nuances coloridas e das transições ricas que habitavam o interior das suas próprias canções, soando agora a um combo de jungle drum’n’bass com punk rock duma forma que nem sempre resulta. O afastamento, ou minimização do dub, do reggae, do reggaetton, linguagens mais alienígenas para o rock, obriga, também pelo seu imaginário, a fazer um paralelismo com Bob Vylan. Não por razões étnicas, mas musicais, dada a crescente presença do hiphop cruzado com rock nos Asian Dub Foundation da era Trump.

Ontem, os Asian Dub Foundation viajaram também por territórios próximos da new age como os Turnstile a vêem, com interlúdios onde a guitarra, pouco presente, poderia ser confundida com a de Santana dos anos 70, atirando e bem, a sonoridade da banda para outros universos, distantes tanto do rock como do rap, e conferindo a melodia necessária para contrastar com a dureza dos MCs. A urgência dos arranques jungle mais combativos deu lugar a baixos densos e pesados quase podendo emparelhar com os Prodigy de Music for the Jilted Generation, mas houve momentos em que a falta de densidade sonora era notória, deixando a batida sem outros sons com que dialogar.

Há uma diferença gritante entre esta banda e a que foi a Vilar de Mouros em 2001 e não se explica só pela passagem do tempo e pela nova formação. Embora nem o mundo, nem o público, nem a música sejam os mesmos, as próprias linguagens de fusão, agora tão mais disseminadas, carecem da autenticidade de quem nelas via uma expressão de revolta comunitária. Mas é a própria banda, pelo menos a julgar por “All Gods”, o tema inédito que apresentaram, que parece estar a tentar perceber quem é, aprisionada como está na encruzilhada entre o fantasma do seu início irrepetível e a procura de uma relevância num mercado que há muito cooptou todas as linguagens marginais. 

Não foi nem nos momentos hip hop em que praticamente rejeitam toda a sua linha estética anterior, nem a tocar os temas antigos, que a banda esteve no seu melhor. Foi quando atiraram tudo para cima do palco sem pensar demasiado no assunto, como no improviso com o guitarrista Steve Chandra Savale a fazer um solo com camadas de reverb, sobre um baixo tenso e primal e uma batida drum’n’bass que não envergonharia Goldie, criando as duas situações mais fluidas do concerto, juntamente com “Buzzin”, onde quase se aproximaram da urgência de outrora, agora ainda mais necessária do que quando a editaram, há 29 anos.


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