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Fotografia: Chona Kassinger
Publicado a: 26/06/2026

Na última sexta-feira de cada mês, Miguel Santos escreve sobre artistas emergentes que têm tudo para tomar conta do mundo da música.

Abram alas para… Yonny

Fotografia: Chona Kassinger
Publicado a: 26/06/2026

Quando pensamos em música de Seattle, a primeira coisa que nos vem à cabeça é grunge. Foi uma das cidades-berço desse género musical que foi uma incontornável presença sonora nos anos 90. Mas hoje, apesar de irmos viajar até Seattle, o ponto de partida é o presente. E o género de hoje troca as guitarras e baterias por beats meticulosos e harmoniosos. O género de hoje substitui as melodias vocais aguerridas por barras sagazes e flows versáteis. O género de hoje é o hip hop multifacetado de Yonny. 

Mas antes de Seattle, esta história começa na Etiópia. A mãe do rapper nascido Yonatan Daniel emigrou deste país para os Estados Unidos em 1995. Em 2000 nasce Daniel, que cresceu em Lynnwood, um subúrbio de Seattle. A banda sonora que se ouvia em casa era de artistas como Michael Jackson, Ne-Yo e música etíope, com muita cantoria à mistura. Mas aos 11 anos de idade, Daniel descobriu um novo tipo de voz quando ouviu “Look at Me Now” de Chris Brown, tema abençoado por uma estrofe de Busta Rhymes ao estilo Fórmula 1. Desafio para muitos, atingível para o jovem rapaz: aprendeu o verso e tornou-se o rei do recreio.

Quer estivesse ciente disso ou não, a viagem musical de Yonny já tinha começado. A curiosidade levou-o a estudar os clássicos através da lente moderna do YouTube: Tupac, Notorious B.I.G., Wu-Tang Clan e especialmente Eminem. E estava plantada a semente, que permaneceu inerte até aos primeiros freestyles no carro de um amigo, mas ainda não estava pronta para desabrochar. Em 2019, acaba o secundário e, sem possibilidades de ir para a universidade, trabalha em lojas e restaurantes para pagar as contas até conhecer o produtor Evan George em 2021. Faz-se o clique e estabelecem uma relação frutuosa que culmina no lançamento do primeiro trabalho de Yonny em 2022, o EP Ghetto Sunset

A primeira coisa que salta à vista na música de Daniel é o seu tom convidativo e a facilidade com que o rapper o molda à sua vontade. Em “Paid”, a incessante busca do carcanhol é discutida de forma introspectiva e com profundidade acompanhada por uma leveza instrumental oposta. Yonny alterna eficazmente entre um refrão cantado de forma mais aberta e uma cadência cirúrgica nas estrofes. “Who Dey” é munida de uma batida que nos lembra algo saído de um projecto de Mick Jenkins cuspida com um tom que nos remete a um jovem Kendrick Lamar, e em “Nah” Daniel transforma um freestyle em algo mais com bons jogos de palavras que encheriam de orgulho o rapper de Compton. 

Era o começo de algo especial, e ainda que temas como “PRIDE” ou “Debut” não se afastem da zona de conforto do trap, Ghetto Sunset espelha um artista com uma voz própria, caneta afiada e algo a mostrar — que o diga a potente faixa-título. Mas Yonny sentiu que algo não estava bem. Não é fácil admitir que algo está errado e começar de novo, mas essa capacidade de reflexão é o que distingue Daniel de tantos outros artistas. Além de Evan George, recrutou o produtor Jake Crocker e este trio de cientistas voltou ao laboratório empenhado em engendrar a fórmula perfeita. E o primeiro sinal foi “City in Motion”.



Há uma aura de liberdade e tranquilidade a permear o tema que pôs Yonny no mapa. É uma ode à cidade que o viu crescer, dançável e fácil ao ouvido. E foi o incentivo certo para o lançamento do seu álbum de estreia, Everywhere, But Always. Lançado em 2024, o projecto é uma prova de que começar novo não é uma perda de tempo. Ouvimos alguém consideravelmente mais maduro, audível logo na primeira música: a faixa-título tem um instrumental muito mais orgânico e adaptado ao flow e barras engenhosas de Yonny, uma renovada introdução do artista ao mundo com um beat switch bem executado. A narrativa do álbum segue alguém que está a começar a conseguir dar os primeiros passos definitivos na música e a viver do seu trabalho. No entanto, o “Bad Credit” esconde-se ao virar da esquina, ainda que nunca a insegurança financeira tenha soado com tanta ginga. O álbum divide-se entre momentos mais introspectivos como a confessional “Blue Door” e momentos de celebração, de orgulho, como é “Rich in Melanin”. A constante são instrumentais ponderados, que bebem do jazz, neo soul e funk, guiados por um artista que encontrou a sua vocação.

Depois de lançar uma versão deluxe do álbum em 2025 — com duas músicas novas e um remix de “Blue Door” — Yonny voltou em 2026 com “New Ebonics”. É um tema que comprova que a festa continua, que a sintonia entre voz e a batida continua e que a caminhada musical de Daniel continua a bom ritmo. A música que brota hoje de Seattle é diferente de há 30 anos. É perfeitamente natural: era ingénuo esperar que algo tão humano como a música se mantivesse igual quando a sociedade não o fez. Mas a qualidade dessa música, a fervilhante e inventiva chama musical que arde em Seattle, essa nunca foi a lado nenhum.


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