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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 24/04/2026

Na última sexta-feira de cada mês, Miguel Santos escreve sobre artistas emergentes que têm tudo para tomar conta do mundo da música.

Abram alas para… mori

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 24/04/2026

Martín Moreno Rivera declarou numa entrevista que o plano para a sua estreia musical “q no” era apagá-la passados uns anos quando tivesse lançado melhores canções. A música conta com milhões de streams e é considerada um sucesso inesperado pelo seu autor, o artista que assina como mori. No entanto, após a ouvirmos é fácil perceber o seu alcance. É um tema de coração partido, chorado em inglês e espanhol e agradavelmente repetitivo. A acompanhar a voz de mori ouvimos um piano, percussão que é uma sucessão de disparos abafados e a sua própria voz em longas notas encharcadas em reverb. As dores da paixão são um tema universal a tantos que já passaram pelo mesmo, mas é na estética caseira que reside o encanto desta canção, aproximando o público ao artista. Passados sete anos, mori continua a apostar num bedroom pop sarapintado por outros géneros e específico a si mesmo.

Rivera sempre teve um gosto pela arte musical. Nascido em Ceuta mas actualmente a viver em Madrid, em casa era exposto pelos pais a uma ecléctica mistura sonora que ia de trip hop a Sonic Youth. Aos oito anos começou a estudar piano no conservatório e aos 14 acabou por desistir. Seis anos depois, influenciado por artistas como Clairo ou Bakar (já abordado por cá nesta mesma rubrica), começou a aprender o ofício, experimentar com sons e melodias. Depois de se mudar para Madrid, junta-se ao colectivo madrilense RUSIA IDK — do qual fazem parte rusowsky e Ralphie Choo (também com direito a tempo de antena por aqui) — e é sob essa alçada que sai o seu popular primeiro single. Depois do sucesso de “q no”, mori lançou “olas”, um tema familiar partilhado com rusowsky, e “untitled2”, algo menos convidativo mas mais interessante de um ponto de vista de exploração, e um sinal claro de que o trabalho de mori não ia ficar por ali.

Nos anos seguintes, colabora com artistas como $kyhook, Natalia Lacunza ou os seus companheiros da RUSIA IDK. Os anos passam e os singles escassam, mas mori manteve-se ocupado. Formou o duo criativo Fomotrauma com o artista TRISTÁN! — com quem colaborou também em músicas — e juntos chegam a assinar trabalhos para artistas como Judeline (sim, também passou por cá), AMORE e os já referidos rusowsky e Ralphie Choo. A música passou para segundo plano até ao final de 2025, altura em que mori volta à carga com um single duplo composto pelos temas “Lovers to Strangers” e “DANCE”. O primeiro leva-nos de volta a outros tempos de forma aconchegada e gradualmente mais abrasiva, espelhando na sua progressão o seu título. O segundo é um tema feito no quarto e para dançar nele, folk lo-fi com uma agradável melodia de sopros e uma percussão distante e rústica. Foram ambos produzidos por Roy Borland, um amigo próximo de mori, e marcam o início de uma colaboração que foi muito além de dois temas. Mas mais do que um regresso à música, estas canções foram como um renascer para o seu autor. Rivera revelou que é a primeira vez que consegue defender a sua música com orgulho e sem reservas.



Chegamos a 2026 e ao álbum de estreia de mori, El Niño Bola, produzido por Roy Borland. Neste projecto, Rivera decidiu colocar a emoção acima de tudo o resto. Não é por acaso que muitas das linhas vocais foram gravadas num só take. Não lhe interessava a perfeição nem músicas extremamente trabalhadas, mas sim que fosse real e sentido. Isso traduz-se em alguns temas mais curtos, como “The Sound” e a sua guitarra lânguida, “Lifestyle Clues” com o seu groove rudimentar, ou “Surrender”, de instrumental embriagado cantado por alguém intoxicado pelo cupido. Mas também se traduz em temas profundos como “Is it Forever”, um dos destaques do projecto. É um tema maduro e altivo, com bonita poesia entoada ao estilo de King Krule e com acordes que não destoavam de uma música de Mk.gee. É (mais) um exemplo da capacidade ímpar que mori tem em capturar sonicamente a melancolia, evidente também em “TODAY” ou em “I Feel Good”, um tema agridoce em que divide os deveres vocais com AMORE.

Mas há outra vertente de Rivera neste álbum. “Big, Big Love” tem umas estranhas teclas graves e uma percussão incessante que contrasta com a voz arrastada, uma pacata celebração de um grande amor. Já “Tenderly, A Reassuring” soa como algo totalmente novo para mori. Ouvimos teclados semelhantes a vozes assombradas que desabrocham numa bonita peça instrumental pontuada por glitches vocais metálicos. São a prova de que continua a existir espaço para a experimentação na música do artesão espanhol.

El Niño Bola é um álbum que funciona melhor como um todo e essa é também a melhor maneira de o apreciar. As músicas escorregam umas para as outras e a sua cadência encoraja a uma audição ininterrupta. As canções rejeitam compactuar com a polidez e clareza de tantas outras músicas, uma escolha propositada do seu autor, que opta por uma estética mais humana, menos fabricada e mais presente. É uma escolha arriscada, tendo em conta o panorama musical, mas o mais importante é que o artista se sinta satisfeito com a sua arte. E apesar de terem sido precisos alguns anos para mori encontrar o seu caminho, felizmente que hoje já não sente vontade de apagar as suas músicas. Ganhámos todos.


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