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Fotografia: Tiago Canhoto & Vitor Seromenho
Publicado a: 27/07/2026

Simultaneamente sagrado e profano.

FMM 2026: o mar do mundo em Sines

Fotografia: Tiago Canhoto & Vitor Seromenho
Publicado a: 27/07/2026

Em Sines facilmente nos habituamos às gaivotas, ao azul do mar, à muralha e ao luar. As cidades, como os homens, reconhecem-se pelos passos – já dizia Musil. Sines transforma-se, ou talvez se reencontre, quando chega o FMM e os passos multiplicam-lhe as formas de vida no novelo de artérias que a une. A música espraia-se desde a avenida marginal, sobe as ruas e becos até ao castelo, ocupa praças, esquinas e átrios de igreja. Transforma transeuntes em público, públicos em músicos e músicos em transeuntes. À noite o movimento é inverso: parte do castelo e desce a cidade até adormecer perto das ondas. As pessoas formam pequenos rios entre as fachadas, o fluxo acompanha a música e reclama uma forma de vida que não é estranha à cidade. Há muito que o som do mundo ecoa no mar de Sines e a brisa vai contando velhas lendas de portos e baías de piratas. É um lugarsimultaneamente sagrado e profano”, como escreveu Carlos Seixas, diretor artístico e de produção do festival.

Nessa primeira noite (quarta-feira, 22 de Julho) no castelo, iniciaram-nos as paisagens naturais e etnográficas da sugestiva Tunísia, projectadas nos cinco ecrãs do cine-concerto de Khalil Epi. Samples de instrumentos acústicos e sonoridades tradicionais em contacto com a electrónica contemporânea criaram uma banda sonora dançável e apelativa. Mas o que verdadeiramente retivemos foi a irreverência da catalã Lia Kali, o reggae rastafari pop de Julian Marley e o som desafiante dos portugueses Yakuza. Em comum, a vontade de descobrir e somar territórios novos aos conhecidos. 

Lia Kali é mais um rebento da efervescente cena musical espanhola; inspirada pela interseção entre um país, aparentemente mais interessado em construir uma cultura integrativa do que uma separatista regional, com os ventos frescos e multidirecionais da contemporaneidade. Percussão, bateria, teclados, baixo e mesa de mistura ao serviço dessa que parece a essência da música criada atualmente nas cidades europeias: deixar-se atravessar por tudo. Soul, hip hop, drum’n’bass, rock, reggae, jazz, r&b, gipsy, flamenco, salsa, merengue, percussões latinas surgiam como cores, texturas e recortes desse tecido simultaneamente urbano, poético e femininista que veste a pop contemporânea. Na senda dos conterrâneos Rosalía, Guitarricadelafuente, Ralphie Choo, entre outros, Lia Kali costura a nova pop espanhola com os fios mestiços do presente como quem recria um mapa fiel de uma cidade cosmopolita a partir das histórias e vulnerabilidades pessoais. Premiada duas vezes este ano, a cantora que também se construiu entre as jam sessions de Barcelona revelou uma voz poderosa e controlada, mostrando saber como conduzir uma plateia pela intimidade entre a euforia e a catarse. 

Desengane-se quem procurava um concerto de reggae puro e clássico do início ao fim. Julian Marley é, talvez, dos filhos de Bob Marley, o que mais está ligado às raízes e causas do reggae. Trouxe o reggae do pai, pelo menos em três temas – “Jamming”, “Craven Choke Puppy”, “Exodus” – mas foi do encontro com outras linguagens que viveu a maior parte da actuação. Premiado com o Grammy de Melhor Álbum Reggae em 2024 – Colors of Royal, produzido em parceria com Antaeus – Julian Marley não nega nenhuma das possibilidades que o seu cruzamento genético lhe proporciona. Colors of Royal é o reggae jamaicano atravessado pela pop britânica. Essa aproximação à pop não se escutava apenas na música; revelava-se também na forma como Julian Marley ocupava o palco. A dança, os longos desenvolvimentos instrumentais, a abertura dos arranjos e uma abordagem vocal menos ortodoxa mostravam como a respiração londrina contamina o seu reggae. Acompanhado pelos The Uprising, destacaram-se longos solos de guitarra ancorados no talento do baterista e do teclista. Estavam mais de cinco mil pessoas a assistir ao concerto e, certamente, não saíram desiludidas do castelo.

A noite continuou no palco da praia com os portugueses Yakuza, que se apresentaram em quinteto com um convidado especial, o percussionista Juninho Ibituruna. Foi um concerto preparado especialmente para esta edição do FMM, onde a modernidade do jazz e a electrónica se entrelaçavam sobre a improvisação e o experimental. Sintetizadores, bateria sincopada, teclados luxuosos e grandes linhas de baixo coloridas pela percussão do convidado brasileiro transformaram a Avenida Vasco da Gama numa enorme jam session noite dentro.



[Da Nigéria a Nápoles]

A segunda noite abriu com a dupla de irmãos de Lagos: Kingsley Okorie, baixista, e Benjamin James, baterista e vocalista que formam os The Caveman. Entre o jazz e a percussão africana, o highlife de Cavy in the City, álbum de 2025, foi o ponto de partida deste concerto que encontrou um público com vontade de dançar e celebrar. É invulgar encontrar um baterista que assume também a voz principal. Mais invulgar ainda é que essa voz seja frágil, delicada e habitada por vulnerabilidades. A música é, na maior parte das vezes, instrumental, metálica e dançante, mas quando encontra a voz aguda de Benjamim James, adquire uma camada que a torna particularmente nova e divergente. 

Enquanto o fenómeno El Niño dita as leis no oceano Pacífico, a napolitana La Niña assumiu as características meteorológicas indomáveis que compõem um furacão ou uma tempestade para liderar um ritual no castelo de Sines. Com um pé em Pompeia e outro na urbana Nápoles, Carola Moccia ora nos transportava para uma cerimónia mediterrânea com coros, harmonias e percussões ancestrais, ora nos guiava por entre um quarteirão de Scampia, ou uma rua de Secondigliano recorrendo ao dialecto napolitano, às sonoridades urbanas e underground e aos ritmos desse sul italiano. 

Percorreu o mais recente álbum, Furèsta, de 2025, ladeada por quatro multi-instrumentistas que participavam em coro ou em harmonias nas vozes: Lydia Palumbo, no pandeiro e percussões acústicas, Denise Di Maria, na guitarra clássica e percussões, Matilde nas percussões electrónicas e Alfredo Maddaluno no bandolim e teclados. Misturando língua, melodias e ritmos napolitanos, árabes e franceses, La Niña proporcionou uma cerimónia que certamente prevalecerá entre as mais marcantes actuações desta edição do FMM. A partir do momento em que encontrou no italiano uma via mais próxima para a comunicação com o público, o concerto adquiriu uma dimensão de partilha que ainda não tinha alcançado com o inglês.

Era ao neto de Fela Kuti que cabia a responsabilidade de encerrar a segunda noite no Castelo de Sines. Madê Kuti revelou-se muito mais do que um herdeiro de um apelido incontornável da história do afrobeat. Multi-instrumentista, maestro e compositor, conduziu uma orquestra de nove músicos com uma autoridade discreta. Um naipe de sopros de enorme qualidade dialogava constantemente com teclados, guitarra, baixo e bateria, enquanto o próprio alternava entre o saxofone e o trompete, alimentando continuamente a arquitectura sonora da orquestra. A partir da matriz do afrobeat, a música expandia-se em direcções diversas – jazz, soul, r&b e funk – sempre sustentada por composições sofisticadas e uma escrita orquestral rica em contrapontos e dinâmicas. Mais do que um concerto de energia imediata, foi uma demonstração de grande capacidade musical, onde a complexidade dos arranjos nunca impediu que o ritmo encontrasse o corpo do público, fazendo das muralhas de Sines mais uma pista de dança. 

Se Madê Kuti encerrou a noite no castelo com a sofisticação dos arranjos, Calle Mambo escolheu a celebração colectiva para prolongar a festa até de madrugada junto à praia. A Avenida Vasco da Gama rapidamente se transformou num enorme salão de dança, onde milhares de pessoas responderam com entusiasmo à energia contagiante do colectivo. O grupo chileno fez confluir son cubano, cumbia, mambo e outras tradições populares latino-americanas numa celebração contínua sem nunca perder a identidade festiva que o caracteriza. O concerto manteve-se em permanente movimento, conduzido por músicos que alternavam entre instrumentos, vozes e coreografias com naturalidade. O resultado foi um dos momentos mais eufóricos desta edição do festival: uma celebração aberta, dançável e comunitária, onde se diluíram as linhas que permitiam distinguir palco e plateia. 

É sempre a realidade que desperta as possibilidades e que determina os passos que definem uma cidade. No fim de cada noite em Sines, já não são os passos de quem percorre a cidade para chegar à música, mas os de quem deixa a música transformar a cidade num lugar simultaneamente sagrado e profano.


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