Depois de Whack World (2018) e WORLD WIDE WHACK (2024) — dois trabalhos definidos pelo rigor conceptual e pela ousadia visual — Tierra Whack decidiu dar um murro na mesa. No passado mês de Junho, pela Interscope Records, a MC de Filadélfia despiu-se de todos os artifícios que tornaram a sua imprevisibilidade reconhecível para meter em prática uma jogada ainda mais inesperada: numa altura em que praticamente toda a gente vende o seu produto à custa de gimmicks, Tierra Whack largou os seus e apostou em mostrar-se num estado mais puro e bruto ao serviço do hip hop.
Essa nudez tem nome e sonoridade próprios: o registo sombrio e cru do rap dos anos 90, o território que consagrou grupos como os Wu-Tang Clan ou os Mobb Deep. As batidas aqui são ásperas, quase cavernais, e a escrita segue-lhes o exemplo — é direta, afiada, sem a exuberância cromática dos discos anteriores. E não será por mero acaso que Tierra Whack optou por chamar a este trabalho de mixtape e não de álbum. A escolha do rótulo sugere um exercício de comprovação, um estágio intermédio antes de um “disco a sério” em que a sua veia conceptual regressa por inteiro, talvez para que o público perceba melhor de onde ela vem e para onde quer realmente ir com um registo mais original. WHACK’S MUSEUM é um passo para o lado antes de dar dois em frente.
Por trás desta viragem sonora está a necessidade de uma mulher conseguir provar o seu valor como MC num meio ainda dominado por homens. O universo temático de trabalhos anteriores, que tratava o quotidiano como matéria surreal — unhas de gel, insetos, crises existenciais, dietas, animais de estimação… — sempre lhe comprovou o talento raro para as rimas, mas possivelmente nunca foi aquilo que uma certa audiência masculina do rap costuma procurar nem valorizar. Ao adotar um registo que se aproxima mais da “virilidade” sonora que essa audiência tende a privilegiar, Tierra Whack expressa agora o mesmo talento que já lhe tínhamos reconhecido com um novo código, falando uma “língua” capaz de captar as atenções que antes lhe escapavam.
Isolado do resto do seu percurso, WHACK’S MUSEUM resiste bem à comparação com o que de mais interessante se faz hoje no rap de rua de pendor sombrio e poeirento — pense-se no universo da Griselda Records ou em nomes como Boldy James e Rome Streetz, por exemplo. É nesse território, de produção árida e lírica cirúrgica, que o disco se movimenta com maior à-vontade. As faixas mais fortes confirmam essa tese. O single inaugural WAX PAPER” — com produção de Conductor Williams, um dos nomes mais bem cotados do hip hop independente contemporâneo — funcionou logo como cartão de visita desta nova fase: a artista surgiu seca, confiante, sem espaço para adornos.
Ao longo do alinhamento, saltam à vista vários outros momentos. “WIGGIDY WHACK” reconhece que “The elevator was crowded, so my success delayed / No excuses, the stairs were much funner” num egotrip que não necessita de recorrer à habitual arrogância desmedida. Já “GODDA” toca num ponto muito interessante: o de que todo o artista em atividade precisa de dinheiro para viver e não deve ter vergonha de o assumir, principalmente quando a confissão não é só uma frase vazia para preencher um beat, apenas uma peça que encaixa num puzzle bem mais complexo no qual não faltam talento, técnica, compromisso, fome e dedicação. Mas é em “QUEENS CROWN” e “FLOWERS” que a mixtape revela a sua verdadeira ferida: ai, Tierra Whack fala de forma mais direta sobre o tal reconhecimento que sempre sentiu ter-lhe sido recusado; são faixas que acabam por funcionar como contraponto emocional a todo o exercício de força que o resto do disco encena, lágrimas de quem já merece há muito uma coroa e as devidas flores.
WHACK’S MUSEUM não era, de todo, o passo que se esperava depois de um primeiro par de discos tão conceptualmente arrojados. Mas é, sem dúvida, um passo importante, assumindo um tipo de risco capaz de convencer os mais puristas de que Tierra Whack sempre teve esta genica dentro de si. Resta agora esperar pelo momento em que a MC, com a sua legitimidade finalmente assegurada, decida voltar a abrir por completo o seu museu de ideias e sair da caixa uma vez mais, para dar continuidade à exploração de uma certa ruela do rap que tem sido só dela.