Aproxima-se o final de Julho e o início de Agosto, com o Verão a entrar na fase mais virada para a época de férias e para um alheamento geral do mundo, o que naturalmente também coincide com uma descida progressiva no número de lançamentos musicais. Ainda assim, esta sexta-feira, 24 de Julho, contou com uma série de discos relevantes no universo sonoro das rimas e batidas.
Entre o rap que continua a reinventar-se nas margens do underground norte-americano, a soul psicadélica de um dos seus autores mais singulares, a electrónica desconstruída saída do Japão, o afro-pop global de uma das artistas mais influentes do presente e o rap feito em Portugal em crioulo cabo-verdiano, ao longo dos próximos parágrafos debruçamo-nos sobre algumas das principais edições dos últimos dias.
Porém, vários outros trabalhos foram revelados durante esta semana. Para os melómanos mais curiosos, atentem no que fizeram Cypress Hill (Dios Bendiga), WILLOW (The Thread), Apollo Brown (No Pressure, No Diamond.), Charli xcx (Music, Fashion, Film), Ian Sweet (Shiverstruck), Alex Cameron (Late To Set), Cakes Da Killa (NEW BITCH), BabyDrill (Still Dangerous), Corey King (Change the Wind) e BAE BAE (gauze).
[Nick Hakim] I Can See
Desde que se estreou em 2014, Nick Hakim tem construído uma das discografias mais interessantes da soul contemporânea, recusando sempre permanecer dentro das fronteiras mais convencionais. Em I Can See, o seu novo projecto, o músico norte-americano volta a cruzar soul, jazz, psicadelismo e electrónica ambiente, abrindo espaço para atmosferas etéreas, arranjos orgânicos e letras introspectivas. É um disco para sorver com paciência, que se revela lentamente e que confirma Hakim como um nome cada vez mais relevante a ter em conta.
[Real GUNS & Consciência] Negro
Tem sido um ano particularmente intenso para Real Guns e o novo passo nesta prolífica jornada (que já conta com meia-dúzia de discos editados desde Janeiro) é Negro, um disco produzido na íntegra por Consciência que revela um olhar mais introspectivo, onde reflecte sobre os caminhos que se escolhem e aqueles para os quais somos empurrados. Um disco com uma estética de recorte clássico, com muitas faixas a não atingirem os dois minutos de duração, em que as rimas duras de Real Guns desfilam pelos beats suaves e jazzy de Consciência, com diferentes samples vocais à mistura. LBC Soldjah assina a única participação.
[Rico Nasty] RX
Poucos nomes do rap contemporâneo, pelo menos a este nível, desafiam tanto as convenções como Rico Nasty. Em RX, a rapper norte-americana aprofunda a fusão entre hip hop, punk, rock alternativo e produção electrónica, sem olvidar a intensidade e irreverência que fizeram dela uma figura singular na última década. O novo trabalho volta a afirmar uma artista que sempre procurou enfrentar as tendências dominantes, entre momentos mais melódicos e explosões sónicas de energia.
[foodman] HIKARIGASASHIKOMU
Figura de culto da electrónica japonesa, foodman regressa à Hyperdub com mais uma demonstração da sua criatividade e imaginação sonora. HIKARIGASASHIKOMU cruza referências do footwork, IDM, música concreta e da tradição musical nipónica para construir um conjunto de composições imprevisíveis, com apontamentos de humor e de estranheza, com vários detalhes a que estar atento. É mais um disco que reforça o estatuto do produtor enquanto voz inventiva no mundo da electrónica contemporânea.
[Tyla] A*POP
Depois de contribuir para alavancar o amapiano enquanto fenómeno global, Tyla regressa com um segundo álbum que reforça a sua ambição internacional. A*POP continua a partir da linguagem rítmica sul-africana, mas expande-a definitivamente em direcção ao R&B e à pop contemporânea, privilegiando melodias orelhudas, uma produção sofisticada e canções que ora são sedutoras, confiantes ou vulneráveis, mantendo um registo equilibrado.
[zayALLCAPS] My Uncle Told Me Some Real Ass Sh*t on the Phone Yesterday
A nova vaga do rap underground norte-americano continua a optar por uma produção musical minimalista e versos sobretudo confessionais. É precisamente nesse território que também se move zayALLCAPS. O longo título do seu novo disco disco indicia um trabalho profundamente pessoal, onde há mais introspecção e vulnerabilidade do que exibicionismo e braggadocio.