Tierra Whack está a mudar o mundo da música, um minuto de cada vez

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Matt Allen

O fim do ano aproxima-se e, como sempre, chegam-nos as habituais listas de balanços musicais bem como as prestigiadas nomeações para a gala dos Grammys que promete agraciar os melhores artistas à escala planetária na sua 61ª entrega de galardões.

O espaço para as surpresas não é muito amplo, mas, por vezes, assistimos ao aparecimento de algumas caras novas entre os potenciais vencedores, que normalmente passam pelo “teste” de Melhor Novo Artista ou surgem em categorias dedicadas a géneros específicos antes de darem o “salto” para os potes generalistas em que normalmente coabitam as estrelas mais cintilantes da indústria musical.

Revelados no final da semana transacta, os nomeados para edição de 2019 da entrega de prémios mais emblemática do mundo da música trazem muito hip hop e géneros adjacentes à mistura, algo que tem sido recorrente nos últimos anos, símbolo de uma clara ascensão dessas linguagens debaixo dos holofotes do mainstream. Entre esses nomes há uma novata que poderá ter passado ao lado: o videoclipe de “Mumbo Jumbo”, de Tierra Whack, concorre com “Apeshit”, dos The Carters, “This Is America”, de Childish Gambino, “I’m Not Racist”, de Joyner Lucas, e “PYNK”, de Janelle Monáe.

 



Tierra Whack é do norte de Filadélfia e entrou no circuito do hip hop por intermédio da poesia. O “empurrão” veio por parte da mãe, que numa das visitas à avó convenceu a filha a entrar numa roda de freestyle da We Run The Streets, uma plataforma que faz a ponte entre o rap das ruas e os canais digitais. Os versos da MC, na altura com 14 anos e a assinar como Dizzle Dizz, surpreenderam quem os ouviu, o que a levou a uma ligação mais séria à We Run The Streets, responsável pela edição, divulgação e promoção dos seus primeiros trabalhos enquanto artista em nome próprio. No YouTube, vemo-la a deixar A$AP Rocky de boca aberta com outro dos seus versos em “estilo livre” ou a ser anunciada enquanto nova aquisição de Meek Mill para a sua DreamChasers, ligação que acabou por nunca gerar frutos.

Após dois anos a impressionar as ruas com o seu talento, Tierra desapareceu dos radares do hip hop e, durante esse tempo, mudou-se para Atlanta por um curto período. O objectivo? Focar-se numa batalha contra a depressão e terminar o ensino secundário. O regresso à cidade natal, em 2015, também significou um retorno ao caderno de rimas e à cabine de gravação, depois de uma reaproximação a Kenete Simms, um produtor e engenheiro de som local que conheceu durante a fase em que saltou de estúdio em estúdio para gravar os primeiros temas. Foi nas mãos de Kenete que começou a desenvolver uma nova linguagem musical, marcada também pelo abandono do nome Dizzle Dizz para passar a assinar com o nome que consta no seu documento de identificação. Entre 2015 e o início deste ano, Tierra Whack lançou oito canções soltas, todas elas a seguir a mesma linhagem sónica vanguardista e o visual bizarro e animado na ilustração das capas.

Apesar de “Mumbo Jumbo” ter feito parte das adições ao seu catálogo no SoundCloud durante 2017, o single seguiu uma linha conceptual que vai de encontro ao que Tierra Whack encarou como “produto final”, uma espécie de clímax artístico que juntou as principais vertentes sobre as quais a MC se debruça. Melodia, flow, entoação e experimentação vocal quase roçam aqui o mumble rap — poderá até ser um caso pioneiro de mumble r&b — ensaiado após uma visita ao dentista, que deixou Tierra com dificuldades na expressão mas não lhe retirou a vontade de terminar mais uma canção, mesmo que quase despida de letra. Afinal de contas estamos na era dos fraseados catchy, desprendidos de qualquer compromisso com o liricismo, e vence quem, acima de tudo, consegue soar bem sem estar obrigatoriamente a falar bem. Por se tratar de uma faixa tão bem conseguida dentro destes moldes, esta foi a oportunidade perfeita para se estrear nos videoclipes após o refresh na carreira, retratando uma versão grotesca desse episódio no consultório. E apesar do curto alcance em termos de audiência — as visualizações de “Mumbo Jumbo” não chegam nem perto dos milhões dos outros concorrentes —, a organização dos Grammys não deixou de reparar na criatividade com que Marco Prestini dirigiu a peça, indo ao encontro de todo o imaginário visual que Tierra Whack pretende para a sua persona musical, que caminha no limbo entre o doce e o amargo.

Curiosamente, a fasquia da artista até já subiu um pouco mais durante este ano: o seu álbum de estreia foi apresentado num ambicioso documento audiovisual. E, mesmo que Whack World não tenha sido o escolhido para entrar na luta proposta pelos Grammys, este pode muito bem ser um factor de desempate, até porque falamos de um projecto que deve ser encarado como um game changer: Tierra Whack pode gabar-se de ser a primeira artista de sempre a editar um disco no Instagram. Whack World é composto por 15 temas, todos eles com exactamente um minuto de duração, o máximo permitido para os vídeos publicados no feed da plataforma. O álbum conta com colaboradores habituais na produção, como Kenete Simms e J Melodic, mas também alberga alguns nomes mais recentes a pairar no universo da MC, como são os casos de Scott Styles, Nick Verruto e RicandThadeus, este último detentor da fórmula para parte do sucesso de “Mumbo Jumbo”. Para a componente visual, a escolha não poderia ter sido a mais acertada: Thibaut Duverneix é um realizador francês com créditos firmados na indústria, com trabalhos assinados para Elton John, Nine Inch Nails e Cirque du Soleil, e que em Whack World foi auxiliado por Mathieu Léger, um multifacetado artista canadiano.

Agora que o seu nome começa a estar nas bocas do mundo, Tierra Whack foi “apanhada” pela Billboard durante a última edição do Women in Music, numa curta conversa em que abriu o jogo sobre possíveis colaborações com Anderson .Paak e Meek Mill. No final do mês de Novembro, a rapper demonstrou à frente de Funkmaster Flex que a componente lírica que demonstrou enquanto Dizzle Dizz não ficou esquecida e protagonizou um dos mais “quentes” freestyles deste ano. Tierra Whack é também uma das artistas em destaque na edição do próximo ano do Primavera Sound, em Barcelona, e o Rimas e Batidas já cruzou os dedos para que possa fazer parte da comitiva de artistas que irá integrar a versão portuense do festival.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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