Vinil / Digital

Alan & Jan

Take me, I'm yours

Faitiche / 2026

Texto de Hugo Pinto

Publicado a: 18/06/2026

Tags: Alan & Jan

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Alan Abrahams é um jovem produtor sul-africano radicado em Paris que assina como Portable e Bodycode. Em 2016 tem um dos discos do ano. Alan Abrahams, assinado por Portable na K7!, será especialmente apreciado por quem gostou do primeiro de James Blake. Jan Jelinek é um alemão que desde o final dos anos 90 navega com mestria e saber nas eletrónicas. Deu nas vistas assinando como Faber na Textstar, gravou na Scape dos Pole, fez techno minimal inteligente mas desde aí evoluiu para uma linguagem bastante própria. Algo mais abstracto e inconclusivo. Juntos, assinam como Alan & Jan.

Acabam de lançar o disco de estreia enquanto dupla, Take me, I’m yours. Primeiro ouve-se a rua, depois entra uma BPM simpática e parece que vai ser demasiado fácil, mas rapidamente fica inteligente. “Before (Nemesis)” tem um longo loop. Baseado na voz de Alan Abrahams, é tão longo que nem parece um loop. Há uma doçura que encanta. Uma coisa esperta. Ao terceiro tema, “Forever”, começa a ser claro: Alan Abrahams canta e compõe canções, Jan Jelinek corta e transforma isso em outra coisa. Serão ainda canções? Já se dançam pouco.

“87BPM”, além da explícita contagem de batidas, conta com a estranheza de quando a fronteira entre o acústico e a pós-produção digital se tornam indecifráveis. “Déjà Vu” podia ser um Burial, não fosse a vozinha doce de Abrahams, sem aquela escuridão suja do dubstep, ou a ausência do baixo poderoso. A pequena “Modul”, é do mais puro Jelinek do disco. Um ambient processado, levemente pontuado em ricos detalhes.

“All One”, um quase trip-hop, destaca-se pela surpresa de ver o produtor alemão nestas andanças, tão longe da abstração que o caracteriza. Há um jogo melómano em saber não só quem contribui para o quê mas, mais importante, o modo como esta colaboração modifica a linguagem de cada um. É certo que torna Jelinek mais cool e menos cerebral, mas nunca nos esqueçamos do cuidado que ele sempre coloca nos detalhes. 

Em “All One”, não sendo evidente ao ouvido mais desatento, há tanta coisa a acontecer, a entrar e sair, só aqui um clip, ali mais à frente outro. Tudo trabalhado meticulosamente. Já “Window (Elpis)” dá para reparar na ligação entre a duração da faixa e a preponderância de Jelinek — quando são temas curtos, é o alemão que domina. Mas rapidamente chega “Together” e a teoria não se confirma, porque quando há mais tempo, também é o alemão que domina. Uma análise mais cuidada permite, no entanto, notar que aquele ping-pong agudo, que evolui e se expande, como se respirasse, é mais Abrahams que Jelinek. E a voz fantasmagórica e imperceptível, totalmente fora, também é dele. Já no final, aquela urbanidade que soa a qualquer coisa familiar ouvida ao fundo, é definitivamente Jelinek.

Termina Take me, I’m yours com “Progress”. Algo desconstruído, algo repetitivo, sempre igual, sempre diferente, como uma ladainha. Estas colaborações raramente surpreendem e menos vezes ainda superam a soma do talento dos participantes. Aqui há, pelo contrário, uma simbiose eficaz. Sim, é Jelinek quem domina, mas conseguiria ele construir estes temas sem a matéria prima que Abrahams fornece? Duvidamos. O alemão é ainda cirúrgico nos pormenores dos beats e na estranheza dos arranjos, mas nunca foi tão doce como aqui. Já Abrahams só ganhou em confiar no processo. Mesmo que o título da obra fosse aquilo que Alan disse a Jan, ainda seria um acto criativo e não de submissão. Quem ficou mesmo a ganhar fomos nós, que podemos ouvir este IDM calmo e bem parido.


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