Ao quinto álbum editado nesta década (descontando colaborações recentes com Yung Lean, Ecco2k e Mechatok), Bladee entrega-se por completo aos submundos do oculto e da espiritualidade. Dez anos depois de Eversince (e doze da mixtape de estreia Gluee), o músico sueco deixa de parte o romantismo digital dos primórdios para abraçar um registo quase-messiânico.
A faixa titular de Sulfur Surfer é disso exemplo, abrindo caminho com uma declaração de intenções carregada de simbolismo: “Declaro, por este meio, guerra à estrela maligna”, proclama, numa formulação aberta a múltiplas leituras: a corrupção que mina o sistema moderno? As lógicas de hipervisibilidade que contaminam a sua relação com a fama? Enfim, é Bladee a investir contra o mundo e os seus dispositivos de controlo morais, tecnológicos e industriais, qual paladino do fim dos tempos, numa cruzada virtual em busca da redenção.
Mas aquilo que Sulfur Surfer acaba por expor é uma certa relutância em levar até às últimas consequências os impulsos mais aventureiros de Benjamin Reichwald, nome de baptismo do membro do colectivo Drain Gang. “Fox & Birch”, uma colaboração com David Tibet, ainda deixa entrever outros caminhos possíveis, mais permeáveis ao risco, à disrupção e ao desvio esotérico que a presença do fundador dos Current 93 convoca, mas a intenção esgota-se nesse gesto.
“Dolor”, ao aludir à entidade romana da dor e do sofrimento, também se dá a esses desígnios, mas carece do feitiço que se revela no desfecho de “Fox & Birch”, em que as cordas acomodam a poética mística de Tibet, sugerindo uma balada medieval. “Blondie”, o único single que antecipou Sulfur Surfer, reincide numa encenação de estatuto e bravado tão gasta quanto contraditória com o discurso de transcendência e destituição do ego que sustenta boa parte do álbum, cedendo às declinações de grandeza do trap moderno.
O que resta é um vulto abandonado às turras com a própria existência, deixando-se enredar em narrativas crípticas que apenas refletem a mente labiríntica do seu autor. Não é retrospectiva nem premonição, antes a continuação de uma mitologia que começa a dar os primeiros sinais de desgaste.
Com Whitearmor ao leme da produção, ainda reencontramos parte da alquimia que definiu os primeiros passos da dupla, com batidas trap rarefeitas, harmonias espectrais e sintetizadores planantes a moldar uma paisagem eletrónica tingida a vapor e melancolia. As ocasionais passagens de guitarra são igualmente bem-vindas e conferem textura à natureza pontilhista das composições, mas a sensação de que algo se está a perder pelo caminho é irremediável.
O resultado é uma obra contida e avessa ao risco que dificilmente irá converter novos fãs, embora conserve momentos suficientemente fortes para perdurarem no consciente dos mais fiéis.