Vinil / CD / Digital

Vince Staples

Cry Baby

Section Eight Arthouse / 2026

Texto de Miguel Santos

Publicado a: 10/07/2026

Tags: Vince Staples

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O hip hop de Vince Staples já assumiu várias formas. Começou por perscrutar por uma porta de tela, fazendo justiça às suas cores com pragmatismo aliado a ameaças gélidas que disparava como balas de alto calibre. Seguiu-se uma aventura pelo universo da música electrónica, sem nunca descurar os seus flows frenéticos e metralhados e deixando espaço para melodias mais soturnas e arrastadas. Depois de um breve período na rádio, virou-se para dentro, afastando-se da sua entrega exasperada e de disparo rápido para abraçar uma forma mais discreta e recatada, mantendo sempre as rimas aguçadas. E em 2026, o hip hop de Vince Staples pega na guitarra, bateria e baixo e assume uma nova etapa na carreira do rapper norte-americano.

Cry Baby, o mais recente projecto do artista oriundo de Long Beach na Califórnia, é o primeiro como artista independente. E as expectativas de um artista independente não são as mesmas de um artista numa label de renome. Isso faz com que Staples possa arriscar mais, ter a liberdade e o controlo criativo para decidir a direcção que quer tomar sem ser fustigado por constrangimentos de homens de fato. E é também por isso que este álbum é um novo começo, sentimo-lo na voz do rapper, começando pelo single de apresentação, “Blackberry Marmalade”. A instrumentação viva torna o tom ameaçador da melodia ainda mais cortante, palco digno para as barras pesadas e acertadas de Staples, que abre o álbum com um murro no estômago com batida. E este é um dos momentos no projecto em que sentimos a frescura e vigor renovado na cadência do artista.

Mas não é preciso ouvi-lo de forma energética para reconhecer a sabedoria nas suas palavras. “Go! Go! Gorilla” assume-se modestamente como um dos destaques do álbum, com uma melodia reminiscente da música de Kevin Parker e uma bateria circunspecta, batida simples para um tema tão pesado como a brutalidade policial. No outro, ouvimos sons de selvajaria seguidos de arpejos contemplativos de guitarra, como se Staples oferecesse um momento de reflexão depois de declamar a sua poesia sentida. Este equilíbrio entre momentos não é caso único no projecto. Em “The Running Man”, uma batida a todo o gás é interrompida por um sentido solilóquio, antes de rapidamente voltar a “mais do mesmo”, metáfora sonora para a correria da vida. Em “TV Guide”, discursa sobre o défice de atenção colectivo de que sofremos, com um refrão clamado acompanhado por um riff sujo de guitarra e uma terceira estrofe mais sóbria e delatora. São temas que demonstram uma maturidade no trabalho de Staples. 

Há claramente uma tentativa de aproximar a voz da instrumentação mas isso nem sempre é claro. Algumas das batidas acabam por não contribuir especialmente para as palavras de Staples. Em “Only In America”, o instrumental estático tira alguma da força ao dedo na ferida que Staples mostra, e apesar de “Cotton” ter uma das prestações mais melodiosas do rapper neste projecto — tom convidativo e mais vulnerável — a esparsa e repetitiva batida não potencia esse destaque. São instrumentais que beneficiariam de mais trabalho e complexidade para rivalizarem mais fielmente as barras de Vince Staples.

O álbum termina com a desconfortável “7 In The Morning”, contada da perspectiva de alguém no meio de uma zona de guerra, com muitas perguntas e nenhuma resposta, desespero levemente instrumentado e com direito a assobio estival. É uma música que não destoaria de projectos anteriores de Staples — sentimo-la em sintonia com o que veio antes. E é curioso que a tenha escolhido para fechar o álbum quando a direcção musical parece ser outra. Decidiu olhar uma vez mais para trás antes de seguir definitivamente em frente. Porque a atitude de quem interpreta este tema é de alguém com noção do passado mas numa busca pelo próximo passo.

Ao oitavo álbum de originais, Staples apresenta-se como sempre o fez, em nome próprio em todos os sentidos da expressão. Mas soa aliviado e com um novo apreço pela arte musical. E prova (mais uma vez) que seja qual for a forma que o hip hop de Vince Staples assuma, a sua voz impera. E fá-lo de forma atenta, comedida mas nunca desprevenida, sagaz e singular.


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