A imagem de Ti Manxe surgiu-me primeiro num sonho, em janeiro deste ano, antes mesmo de lhe escutar qualquer som. Uma imagem nítida de uma festa a entrar pela madrugada, uma rave no interior de Santiago: numa pista, a gaita de Bitori em loop; na outra, uma batida pulsante de Carl Cox. Na alquimia sonora, Fidju Kitxora dirigia a mesa de mistura, de rosto semicoberto, mantendo os corpos dançantes, vivos apesar do cansaço, enfrentando uma noite que se dissipava sob um novo dia nascente.
Dizem que só aprendemos verdadeiramente uma língua quando começamos a sonhar nela. Sinto que ainda não compreendo completamente a linguagem sonora de Fidju Kitxora, nem as muitas camadas e enredos que ela sintetiza; mas o facto desse som ter entrado no meu sonho foi quase premonitório para aquilo que encontrei neste novo álbum: já não apenas um reconhecimento das múltiplas camadas culturais, políticas e emocionais do projeto, mas também o seu absoluto potencial imaginativo. Talvez por isso, quando ouvi Ti Manxe pela primeira vez, três meses depois desse sonho, a escuta levou-me para um lugar mais imprevisível, menos centrado na dança — dimensão que o liga organicamente a Recodja (2024) — e mais a um sentido de viagem, e à forma como o som a acompanha, conferindo-lhe múltiplos significados.
Logo na abertura, em “Ti Manxe”, faixa homónima, a transposição entre as gravações de campo e o dramatismo do instrumental, alimentado pela potência rítmica e imaginativa do caxixi, do ganzá e da alfaia de Juninho Ibituruna, convocou-me imediatamente para o universo dessas longas viagens de carro, a pé ou na imaginação, acompanhadas por velhos rádios, tecnologias maravilhosas na sua imperfeição, onde a frequência não apenas acompanha o tempo da deslocação, mas muda à medida que se transforma o espaço percorrido.
Em alguns momentos, como acontece com essa faixa de abertura, só queremos seguir aquele som que nos acompanha, perseguindo-lhe o rasto impossível. Mas logo depois o som ganha ruído, a frequência perde as coordenadas, e surgem outros elementos sonoros que, como em “Egoismo”, se fixam como um pano de fundo para uma conversa que se faz emergir. Aí, as palavras e o ritmo das vozes tornam-se quase mais importantes que a semântica, enquanto o rádio continua a ecoar, mais baixo, algures no fundo da cena.
Os elementos misturam-se: meio som, meio ruído; meia forma, meia sombra. Uma polifonia esquizofónica que faz com que a nossa cabeça já esteja a partir para outro lugar, onde o dramatismo inicial talvez se tenha dissipado. Às vezes fazemos até o esforço de reencontrar aquela frequência perdida, mas ela já pertence a um tempo e a um espaço anteriores. A viagem seguiu. E desistimos inevitavelmente da procura porque uma outra imagem já se começou a formar.
No caso, “Pobreza”. A gaita inconfundível de Bitori, exatamente a mesma que apareceu no meu sonho, surge num loop que se transforma numa batida inflamável e irresistível, antes de ficar suspensa sob a voz quase xamânica de António Tavares, onde a força sonora das palavras basta para lhes intuirmos a intenção. Depois da voz, a batida insiste. E logo a seguir abranda. A viagem continua, o impulso deixa o seu rasto, mas é agora o horizonte que ganha amplitude.
Nessas longas viagens acompanhadas pelo som, por vezes conseguimos seguir uma frequência até ao fim, como acontece em “Pobreza”; noutras ficam sobretudo os espectros, os cortes, as interrupções, as dessincronias de sentido. Como em “Maguadu”, onde as gravações de campo no bairro de Ribera Bote surgem e se dissipam, enquanto os espectros de Belmiro e Jorge Neto se infiltram imediatamente na nossa coluna e na nossa anca, finalmente libertadas de alguma tensão inicial. Mas eis que, ainda a dança vai a meio, e já Danilo Lopes lhe reconfigura o balanço, num salto de fé entregue a um psicadelismo pulsante, fazendo-nos voar ainda mais longe, antes de um novo abrandamento e de uns últimos segundos dedicados ao silêncio.
O sol está agora a pôr-se nesta viagem. E nem uma discussão gravada algures em Ribera Bote consegue sobrepor-se à mais solar e, apesar de tudo, bem-humorada “Tud pa bô”, onde sorrimos acompanhados pelo espectro de Philip Monteiro. Apesar do atrito, nesta coisa do amor, talvez não haja mesmo tempo a perder.
A noite está finalmente a chegar. E chega mesmo cerrada, em “Ka ta uza”, uma prodigiosa carcaçada industrial e sombria; uma pulsão a lembrar Detroit, onde a experiência do trabalho fabril influenciou as formas de pensar o ritmo e as máquinas. Aqui, o som repetitivo da maquinaria, aliado aos elementos rítmicos das vozes gravadas na aldeia de Txon Bom, é o barro a partir do qual se molda uma batida vertiginosa, capaz de dar vida aos corpos sob a vertigem, o perigo, possivelmente a libertação.
Entre o dia e a noite deste périplo, há ideias que começam e não se concluem; outras que desaparecem de vez; outras ainda que se transfiguram. Um pouco como nos cadáveres esquisitos, onde a partir de um fragmento da imagem anterior se imagina a seguinte, e assim sucessivamente, até que, no final, ao contemplarmos o conjunto, já não conseguimos explicar racionalmente como aquela representação se foi compondo ao longo do caminho.
Em Ti Manxe, a viagem alimenta-se precisamente dessas frequências espiralares que rompem a linearidade do tempo e do espaço. Por vezes trazem fantasmas para a mesa; noutras fazem-nos dançar connosco. Em alguns momentos sugerem melancolia, noutros respiração; noutros, ainda, um transe de ideias que se sucedem à medida que a paisagem se transforma.
Lá no fim, talvez nada se conclua realmente e tudo se resuma a um horizonte de possibilidades. Como em “Morabeza”, a faixa derradeira do disco, nutrida por dois dos nossos melhores poetas acústicos, Henrique Silva e Tó Trips. Com Fidju Kitxora, construem uma imagem simultaneamente tensa e descompressiva, um reconhecimento emocional de que as viagens deixam sempre as suas cicatrizes, mas também ampliam a imaginação do futuro.
No final desta longa travessia, não sabemos exatamente o que encontramos, nem sequer quem somos quando lá chegamos. Mas isso pouco importa quando o mais decisivo é perceber que esse tempo e esses espaços nos transformaram, levando-nos para lugares novos que talvez só venhamos a descobrir mais tarde. Haja fé no caminho e música assim para o continuarmos a descobrir.