Vinil / CD / Digital

JPEGMAFIA

EXPERIMENTAL RAP

AWAL Recordings / 2026

Texto de Gonçalo Oliveira

Publicado a: 25/06/2026

Tags: Jpegmafia

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Nem é preciso chegar a meio da audição de EXPERIMENTAL RAP para perceber que tudo encaixa exactamente onde já esteve antes. A batida quebra, o sample aparece, o flow assume aquela cadência acelerada e dentada que é marca registada de JPEGMAFIA para nos dar uma sucessão de rimas aguerridas. Mas há qualquer coisa demasiado familiar nesta sensação. É uma zona de conforto facilmente reconhecível. E num álbum que se intitula EXPERIMENTAL RAP, o reconhecimento imediato ofusca em grande parte o conceito pretendido.

O sexto LP do artista nascido Barrington Hendricks foi precedido por uma campanha de declarações polémicas, com o rapper e produtor a puxar para si a coroa de rei do rap experimental enquanto aponta o dedo aos colegas — como quando, numa entrevista à Billboard, disse que Earl Sweatshirt e The Alchemist “fazem a mesma canção há vinte anos”, sugerindo que só ele está verdadeiramente a arriscar nos campos do hip hop. O seu novo disco devia ser a prova de que a tal coroa lhe assenta bem. São vinte e cinco faixas com produção e mistura inteiramente suas e quase sem convidados ao seu lado — controlo criativo total, portanto. Não havia desculpas externas disponíveis. Mas feitas as contas, EXPERIMENTAL RAP cheira demasiado à repetição de fórmulas já usadas.

Isso não significa que a audição do disco seja desaconselhada. “babygirl”, o single de abertura, é JPEGMAFIA no seu melhor: uma construção que desequilibra pelo excesso de samples vocais de Saul Williams, com uma energia combativa e um egotrip que justifica a atenção que o artista reclama para si. “The Ghost of Emmett Till” é outro momento em que a música e a intenção se alinham — mais sombria e densa, arrisca numa cadência de breakbeat e adopta uma postura diabólica que o disco raramente sustenta por tempo suficiente. Ambas são faixas que nos lembram do lado mais ousado e inventivo do artista.

Mas são ilhas num arquipélago que nem sempre comunica. “Burning Hammer” desperdiça o seu próprio título. É uma faixa que até arranca bem, mas falha em manter o calor e o impacto. “$ (Money)” soa a brostep ressuscitado, como se o Skrillex de há quinze anos tivesse deixado um template aberto no computador para JPEGMAFIA o encontrar. “Meet the Dealers” navega a bass music que fez furor no SoundCloud mas que, em 2026, já não representa qualquer surpresa. E “Lights” é talvez o exemplo mais revelador, já que vai buscar uma referência sónica directa, quase em jeito de cover ou remix, a uma das criações mais comerciais da carreira de Kanye West — o que, vindo de alguém que reclama o trono do experimentalismo, parece representar um tiro no próprio pé.

O problema não é que estas faixas sejam más no sentido absoluto. É mais a estranheza que se sente quando, num disco de vinte e cinco temas intitulado de EXPERIMENTAL RAP, a maioria deles percorre território já explorado — seja por si próprio ou por outros artistas. Os samples agressivos, as batidas estridentes, o ruído como ornamento… São tudo já imagens de marca do seu criador e sente-se uma ausência de surpresa genuína a acumular peso. A isso soma-se um flow estranhamente monocórdico de JPEGMAFIA ao longo deste álbum. Em grande medida, é um artista a fazer o que sempre fez, mas a dar ao título do projeto uma declaração de intenção que a música não cumpre.


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