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El Niño Bola

Rusia-IDK / 2026

Texto de Gonçalo Oliveira

Publicado a: 04/06/2026

Tags: mori

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Em 2019, Martín Moreno Rivera lançou “q no” e tornou-se, quase da noite para o dia, o rosto mais promissor de uma geração de artistas madrilenos que então começava a reconfigurar a estética indie da pop espanhola a partir do ecossistema da Rusia-IDK. Contra todas as indicações que vêm escritas dos manuais da indústria, o que fez a seguir foi desaparecer. Não completamente, é certo. Existiram singles esparsos, colaborações pontuais e até um projeto de direção artística com TRISTÁN! chamado Fomotrauma. Mas o passo óbvio, o álbum de estreia que lhe poderia consolidar o hype, ficou por dar durante sete anos.

Com produção de Roy Borland, membro do coletivo El Royale, El Niño Bola é um disco que se recusou a chegar a tempo e assenta numa lógica de intimidade deliberadamente porosa: texturas lo-fi que soam a cassetes encontradas num sótão, vozes gravadas aos primeiros takes sem correção posterior, estruturas de canções que resistem à ideia de ir em busca do clímax fácil. Num momento em que os seus companheiros de coletivo — rusowsky e Ralphie Choo — dominaram a arte dos hooks imediatos e da viralidade calculada, mori faz o oposto com a mesma convicção. As referências que o próprio invoca — Arthur Russell, Suicide, Cody Chesnutt — são coordenadas precisas de uma estética que prefere a ferida a sarar ao ar livre do que estancá-la com auxílio do penso rápido. O resultado são quase 36 minutos divididos por 16 faixas que nunca se entregam completamente, mantendo sempre uma distância que soa mais a proteção do que a frieza.

O disco atinge a sua expressão mais conseguida nos momentos em que essa porosidade sónica se torna quase táctil. “Is It Forever?” é a faixa mais lindamente perturbadora do projeto: um dark wave sobre amor falhado que habita o mesmo espaço espectral que King Krule e Mk.gee, construída sobre uma massa sonora saturada que existe algures entre o sólido e o gasoso. “Big, Big Love” e “Tenderly, A Reassuring” representam o auge da exploração sónica do álbum — momentos em que a produção de Borland abandona qualquer pretensão de contenção e deixa as texturas expandirem-se para além dos seus contornos, criando uma sensação de imersão que os discos com ambições pop raramente alcançam.

Noutro registo, “Star” — com rusowsky e produção de Ralphie Choo — eleva a estética da nova pop espanhola a uma dimensão mais etérea do que é costume no universo Rusia-IDK. É o momento em que o LP abre uma janela para o coletivo, mas filtrado pela sensibilidade de mori: o imediatismo que apela ao consumo mainstream está lá, mas é como se fosse visto através de um vidro embaciado. E “I Feel Good”, com AMORE, é talvez a faixa mais próxima de um single convencional, só que carrega uma decadência interna que a arrasta para longe do otimismo fácil que o título prometeria — o gancho existe, mas apodrece de forma bonita ao longo dos seus quase quatro minutos de duração.

El Niño Bola é um trabalho que ressente o peso da sua própria fragmentação. 16 faixas em 36 minutos é um ritmo que nem sempre permite que as ideias respirem o suficiente antes de passarem ao seguinte capítulo. Nem toda a obra de estreia tem de ser esculpida para impressionar e esta soa ter sido feita apenas com o objetivo de soar verdadeira. Pode não ser um disco que facilmente se digere de uma ponta à outra, mas está apetrechado com umas quantas hidden gems daquelas que vamos querer manter perto dos ouvidos por algum tempo.


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