Em julho, o castelo de Loulé é tomado pelo jazz – é assim há 30 edições. Antes de se tornar um dos palcos do MED durante o mês de junho, a alcaidaria do Castelo é o local original do Festival de Jazz de Loulé desde 1995. Trinta e um anos depois, o festival mantém uma programação curada por Mário Laginha desde 2011, sustentada, desde a primeira edição, pelo trabalho voluntário da Casa da Cultura de Loulé.
A propósito desta trigésima edição, alimentada pelo desejo de renovação e o olhar no futuro, promoveu, em parceria com a câmara municipal, o concurso nacional para renovar o Trio de Jazz de Loulé. Tradicionalmente, é o trio que abre o festival e era o mesmo há uma década.
Há menos de um mês, Luís Lelis, João Ribeiro e Francisco Melo foram apresentados como o novo trio, que não só abrirá o festival nos próximos cinco anos, como terá a oportunidade de gravar, crescer e criar numa residência artística para tocarem muitas vezes por ano, em salas e auditórios com condições e pessoas a ouvir.
Este passo importante para o jovem trio português, que já se conhecia e tocava com regularidade em espaços lisboetas, oficializou-se no concerto de sexta-feira. Abriram com “Yardbird Suite” de Charlie Parker, rearranjado especificamente para o concurso. Desde os primeiros compassos, piano, contrabaixo e bateria encontraram um equilíbrio elegante. Soava naturalmente coeso. Escutavam-se continuamente, ajustando dinâmicas e cruzando fraseados com uma naturalidade pouco comum numa estreia.
Ao Rimas e Batidas, revelaram que o “muito carinho pelos discos do Ahmad Jamal e do Oscar Peterson, misturado com temas originais, que vão numa corrente mais de jazz europeu, ou mesmo de jazz português” resumem parte da identidade estética do novo trio.
João Ribeiro assume uma abordagem minimalista à bateria, precisamente porque o obriga a ser mais criativo. O kit reduzido – bombo, tarola e pratos – serviu sobretudo para criar texturas e ambientes, mas além dessa, João Ribeiro tem outra particularidade: “Eu já canto há algum tempo. Na minha vida nem sempre foi, é uma coisa mais recente do que tocar. Os meus estudos foram todos na bateria, portanto, cantar é uma coisa que eu faço há menos tempo. Mas quando fomos a concurso, sabíamos que isso era uma coisa que podíamos explorar. É uma particularidade boa.”
No alinhamento, dois temas originais de Luís Lelis figuraram ao lado de peças de Jimmy Rowles, Elmo Hope e Tadd Dameron com naturalidade. O trio firmou-se pela contenção, elegância e preocupação sonora. Lelis, apesar de reconhecer o nervosismo singular de uma estreia, não se define como “o pianista mais musculado do mundo. Também não quero ser. É realmente uma decisão. Uma decisão, enfim, uma coisa que falámos e trabalhamos muito e fomos mudando.”
Na primeira vez que a voz de João Ribeiro se revelou, ouvimos uma versão jazzística do fado de Coimbra de Luiz Goes, “Homem Só, Meu Irmão” fundido com “Verdes Anos” de Carlos Paredes. Em pé, e apenas usando voz, Ribeiro entrelaçou as palavras com a melodia do piano e o ritmo do contrabaixo. A interseção não acontece propriamente do nada. João Ribeiro explicou que a convivência musical no Tejo Bar, em Alfama, acabou por aproximá-los naturalmente da canção portuguesa, transformando um repertório inicialmente centrado no cancioneiro americano. “Não é bem um fado e não diria que nos foi exigido, mas foi-nos proposto e acabou por acontecer naturalmente. É a onda do sítio. É o que o sítio pede.” Um longo aplauso selou a estreia do renovado Trio de Jazz de Loulé.
A segunda hora trouxe o trio experimentado de Andy Sheppard. Também clássico, nas várias acepções da palavra, apresentou um jazz onde a subtileza foi a linguagem. A elegância parece nascer da contenção e de uma certa recusa em exceder-se. Sheppard está distante da energia explosiva de muito jazz americano. Prefere relacionar-se com a música de câmara, aproxima-se pela atenção ao silêncio e ao detalhe, pelo equilíbrio entre os instrumentos e pela clareza do som. Cada nota pesava tanto quanto o silêncio. A composição assumia um papel central: a escrita detalhada servia de alicerce à interpretação, mas a sua solidez nunca impedia a flexibilidade. Como a pedra do castelo em redor, a escrita, nas mãos destes três músicos, tornou-se inesperadamente maleável.
O improviso parecia dissolver-se na própria composição. Ficava a sensação de haver menos improvisação do que realmente acontecia, porque nunca se afirmou como demonstração de virtuosismo. Em contraponto, irrompia a ideia de Keith Jarrett: improvisar não é apenas inventar notas novas, mas decidir, a cada momento, como tocar as notas escritas. O saxofone de Andy Sheppard raramente afirmava; preferia sugerir, desenhando frases incompletas, versos de uma poesia alheia ao clímax ou a qualquer necessidade de conclusão.
Rita Marcotulli ocupava um lugar singular nesta arquitetura sonora. O piano não se limitava a acompanhar; era o espaço que permitia o saxofone e o contrabaixo existirem. As teclas iluminavam a paisagem sonora e preenchiam o ar sem o saturar. O francês Michel Benita, por seu lado, fazia do contrabaixo uma voz melódica, alternando momentos de tensão quase impercetível com solos de grande calor expressivo e um recurso ao arco para apontamentos de textura e nuances tímbricas. Em certos temas, as melodias serpenteavam sobre o chão construído pelo piano e pelo contrabaixo; noutros, era o piano que iniciava o percurso, batendo e saltitando nas teclas antes de o trio encontrar um novo equilíbrio.
Ficaram ainda na memória alguns instantes de pura suspensão: o concerto que começou como água, os sopros no limiar do silêncio, a passagem para o saxofone soprano, o tenor a conversar com o vento e, sobretudo, a capacidade de Andy Sheppard sustentar longas notas através da respiração circular, não como exibição técnica, mas como um prolongamento natural que servia a música. Nesse contínuo sopro parecia caber a própria ideia do concerto: música onde o espaço entre as notas como o espaço entre as palavras de um poema, também significa. Um verdadeiro triálogo, feito de subtileza, leveza e escuta atenta, sob um céu estrelado que tornou ainda maior o prazer de partilhar aquela música.