Haja alguém neste país capaz de agarrar o touro pelos cornos e colocar alguma cor na pop portuguesa. E ainda bem que o faz com um dos discos mais interessantes de 2026. Se em 2020 Nenny revelou-se um prodígio em movimento com (o subvalorizado) Aura, em 2026 a artista natural da Vialonga volta a dar um passo certeiro com o seu segundo longa-duração: ID.
A pop portuguesa não vive dias famosos. As baladas continuam a predominar e são sonolentas como tudo. Pior que isso, a portugalidade é bafienta, e se o hip hop se revelou como o novo género capaz de mover as massas ao longo da década passada, os projetos mais recentes de alguns dos grandes nomes que cresceram na tuga nesse período possuem o mesmo nível de entusiasmo que assistir a 90 minutos de haram ball. À exceção de T-Rex (e para quando um momento Nenny feat. T-Rex?), onde está o juice? Podem alcançar os números que eles e as editoras tanto almejam, mas a realidade é esta: ao nível da música, deixam muito a desejar.
Sobre WONDER, assinámos o diagnóstico nestas páginas da Internet: “um álbum desapontante”. O LSD de ProfJam apresenta um outro som digno do talento de Mário Cotrim, mas muitos temas soam sofridos devido às mais genéricas produções de Ariel e Migz — dois dos grandes culpados do estado desagradável da nação pop portuguesa. E quanto menos falarmos de FIM DO NADA, melhor. Chega de trap sui generis mimético e opulente que ainda tem Travis Scott como seu rei e senhor. Nesse campo, pelo menos LON3R JOHNY tentou delinear alguns caminhos diferenciados em 94, mas a opulência exposta no mais recente álbum do ex-Think Music está mais próxima dos desejos da “manosfera” do que da criação de alguma comunidade real. Ainda bem que habemus xtinto e EU.CLIDES.
Portanto, o quanto agradecemos a Nenny por, pelo menos, tentar algo de diferente. O resultado dessa tentativa acabar por ser um bom disco é melhor ainda. Aliás: um bastante bom disco, sublinhamos. ID é tudo aquilo que desejamos de um disco pop. Faz-nos querer dançar e, ocasionalmente, até chorar. É próprio para o Verão quente que se vai fazer sentir. Há “malhões” de todo o tamanho, e há momentos onde Nenny se agarra a uma vulnerabilidade que antes ainda não tínhamos escutado na discografia da artista. Esta “Manneny” que se apresenta em ID não é a Marlene que lançou “Sushi” aos 16 anos, mas uma capaz de revelar todas as suas vitórias e derrotas. Como cresceu, como sofreu, como sonhou. Esta filha da Internet, sobrinha de uns pais donos de um gosto “eclético” (“funaná, batuku, kizomba, hip hop…”), como revelou a Rita Ferro Rodrigues numa entrevista concedida em 2019, criada entre França, Luxemburgo e Portugal.
Quem escutou Nenny em Aura, ou descobriu-a com aquela fenomenal performance no Tiny Desk, ficaria a achar – corretamente – que a artista era capaz de lançar um álbum como ID. A sua história provavelmente ainda não termina aqui, mas ID é um grande cartão de apresentação. A abrir, a electropop dançável da faixa homónima coloca-nos logo em sentido. É uma das grandes canções do ano, e não restam dúvidas de que Nenny encontrou pólvora com a ajuda dos seus principais colaboradores neste disco, quase todos eles ligados ao universo da pop alternativa da AVALANCHE. A presença em estúdio de nomes como Luar, LEFT. ou YANAGUI, ajudaram a tornar a fome de Nenny em canções que merecem ser hits.
Mesmo quando o disco se distancia do universo variado da pop alternativa, como é o caso de “Tiki Taka” (Fumaxa na produção) ou “Não Me Fales” (com os Wet Bed Gang), está presente a ideia de que as múltiplas facetas de Nenny podem coexistir num mesmo disco sem se destoarem. A primeira choca o bossa nova com o dancehall, e a segunda é a canção do disco mais próxima do trap. É uma canção bem conseguida, mas que talvez funcionasse melhor como uma faixa dos Wet Bed Gang com feature de Nenny, e não o contrário.
Apesar disso, “Não Me Fales” é uma representação fidedigna da história que liga as quinze faixas do álbum: o percurso e sonhos de Marlene que, entretanto, se corporizaram na génese artística de Nenny. Em “THAT GIRL”, R&B perfeito servido à moda dos anos 2000, cristaliza a relação entre as suas duas personalidades. “Quando eu passo everybody knows / E se algum dia alguém duvidou / I was always a star / Não há nada a provar”.
Porém, Nenny continua a querer muito provar que é that girl. Desde que apareceu em 2019, ano em que Pedro João Santos declarou no Rimas e Batidas que Nenny estava no “topo” das revelações nacionais desse ano, tudo aquilo que Nenny tem feito possui o objetivo de cumprir a sua visão criativa e, acima de tudo, dar-se a perceber ao mundo. É por isso que em “ID” revela: “Eu não quero que te identifiques / Eu só quero que percebas a minha identidade”. Nesse sentido, ID é um primo distante de sortaminha, de JÜRA, outro disco pop variado na sonoridade cujas peças formam um puzzle análogo. Um puzzle que deambula entre amores perdidos e conquistados, sonhos do passado que se tornaram conquistas do presente, e uma catrefada de estilos musicais que mostram o range de influências da artista. Curiosamente, sortaminha tem créditos de vários nomes ligados ao universo da AVALANCHE. As semelhanças no ethos não são bug – são feature.
E tal como sortaminha, ID está recheado de bangers. “Onde Eu Cresci”, com Lura e um surpreendente Bluay, é uma ode potente aos antepassados cabo-verdianos de Nenny; “Eu Quero Um Preto” é um hit viral óbvio (e com capacidade para irritar uns quantos “reaças” conservadores pelo caminho); “Fácil” é uma canção orelhudíssima de Nenny servida à moda dos Pimenta Caseira; “Dá Me O Toque”, com a ajuda de um excelente uso de Carla Prata como convidada, é um dos highlights de ID, um último suspiro orelhudo antes da secção introspetiva que encerra o LP.
“Deja Vu”, com Bispo e primeiro single do álbum, é o tema mais fraco de ID, mas as três canções seguintes voltam a elevar o disco à qualidade que nos habituou no resto do seu tempo de duração. “Prioridade” aquece-nos o coração; “Hero” é a melhor balada que Nenny já escreveu e cantou ao admitir que irá “Seguir o meu caminho, eu vou / Porque no final eu sei que / I can be my own damn hero”; “Sarar” funciona como uma carta de Nenny para a Marlene (ou da Marlene para a Nenny?) que também é uma maravilhosa canção. É uma forma fantástica de encerrar o álbum, e de concluir aquilo que pretendia com este disco: reconectar-se consigo mesma e tentar pintar uma imagem de quem é a verdadeira Nenny. “Positiva, Confiante, Fashionista, Musicholic”. E apesar de ser assim que Marlene Tavares se apresenta na capa de ID, existem muitas outras faces suas que ainda não conhecemos. Essa é a parte mais interessantes disto tudo. Pré-ID, conhecíamos uma Nenny a brotar tipo flor. Agora e daqui para a frente, conhecemos uma Nenny sem medos, assente num estado de quase total esplendor: uma pop star para o futuro, que também já é do presente. Ela, sim. A predestinada.