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Fotografia: Herberto Smith

De "criança reservada" a novo fenómeno da música portuguesa.

Um ano chegou para mudar a vida de Nenny

Fotografia: Herberto Smith
Crua como sushi era como Neneh Cherry se apresentava há 30 anos: num fluxo de canto e rap, uma voz sem papas nem categorias na língua. “Buffalo Stance“, um pontapé ácido de sintetizadores e guitarras em disputa pela pista de dança, fez história no feminino. Percorreu o globo de fio a pavio com a celebração da sua Buffalo, elite perfilhada pelo estilista Ray Petri, e essa era apenas a sua primeira canção. Já em 2019, não no caldeirão cultural de Londres, mas na freguesia de Vialonga, alguém se anuncia fresca como sushi — sem a cereja no nome. Marlene Fernanda Cardoso Tavares, assim reza a sua certidão de nascimento, embora não seja esse o que vem nas páginas amarelas. Se estivermos a falar das revelações nacionais que marcam 2019, não precisamos de delimitar qualquer campo sonoro para encontrar Nenny bem no topo — ou não fosse a pequena grande protégé dos Wet Bed Gang. A breve delícia trap de “Sushi” saiu em Março; pouco tempo depois, era o prato do dia na rádio mainstream. Chegados ao final do ano, o single com produção da casa i.M. amealhou quatro milhões de reproduções; o vídeo estabilizou nos 11 milhões. Números tão legítimos quanto a estética que Nenny tem perseguido: “Sushi” fala na linguagem da paisagística urbana, cada cena um novo glamour shot, a intérprete e compositora de 17 anos sempre rodeada pela sua trupe, num campo de basquetebol ou à beira de prédios salpicados de cor. O seu segundo êxito reverte para um quadro árido e rural, ao passo que as letras sugerem o poder da introspecção: o bordão da moda é, agora, “então fuck a tua bússola”. São temas mais despidos, como “Dona Maria”, em que manifesta o prazer de se encontrar a si mesma e os seus, momentos em que ser precoce é um passaporte dourado para se ser maior.

Mas quem é Nenny, afinal? Embora o seu sucesso já tenha sido alvo de imitação na televisão generalista, com direito a blackface, a informação escasseia pelos lados da Internet. A sua biografia no Instagram — a sua rede mais activa e aquela que lhe potenciou a popularidade — reúne endereços de e-mail para negociações. Meses depois da sua estreia nos holofotes, a artista concedeu uma entrevista ao projecto Elefante de Papel, liderado pela apresentadora Rita Ferro Rodrigues. Rapidamente o secretismo se desbobina e já sabemos a sua primeira memória: uma brincadeira com os seus primos, em que desempenhavam papéis de ídolos; Marlene, que começa como uma “criança bué reservada”, é sempre a diva pop. A aptidão musical nasce, provavelmente, do gosto ecléctico dos seus pais: “era funaná, batuku, kizomba, hip hop… Sempre me identifiquei com [a música], desde pequenina”, entre a Disney e Beyoncé, diz na conversa com Ferro Rodrigues; entre França, primeiro destino da sua família enquanto emigrante, e Luxemburgo, onde reside agora com a mãe (que elogia copiosamente no diálogo). É num perfil de Instagram deliberadamente criado para ser “artístico” que publica uma versão de “Devia Ir” dos “filhos do Rossi”, isto é, quem nela viu uma labareda demasiado quente para deixar fugir: os Wet Bed Gang. Graças a este estímulo, Nenny tornou-se conhecida dos estúdios; previamente habituada à língua franca mundial, apaixonou-se pela riqueza que o português oferece à sua escrita — e, incrivelmente cândida sobre os seus episódios de ansiedade e depressão, promete atirar-se mais amiúde à saúde mental. E (praticamente) tudo isto numa primeira faixa. Com fresca crueza, a união que imortaliza o seu antigo bairro na Vialonga, e o sentido terapêutico da música — imaginem só as próximas.

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