Em pleno pico de calor, parece que a indústria da música reagiu às altas temperaturas e meteu uma espécie de férias. A Sexta-feira farta de hoje é, na verdade, apenas “fartinha”, mas os poucos trabalhos que vieram parar à rede são tudo menos matéria a ignorar. Tratam-se de três projetos que incluem uma aguardada estreia de um rapper inglês, o regresso aos álbuns de um dos grandes artesãos da palavra do Brasil e um registo que comprova a delicadeza jazzística de um músico e compositor francês a residir no Reino Unido.
Se a sede for muita, podem ainda beber a outras fontes sonoras por aí: 870glizzy (BAMN.), Play Time (Magic Object), Ken Carson (xperiment), ella jane (Sparkwheel), Rylo Rodriguez (S.K.A.T.E.) e Vários Artistas (Never Say Die Legacy) são outros dos destaques deste final de semana.
[Kibo] Kwengletaria: Ragamyff
Os mais atentos certamente o conhecem das montras da Balamii ou da Victory Lap no YouTube. Não é da Tasmania, mas mostrou-se um verdadeiro demónio sempre que agarrou no microfone para tomar de assalto todo o tipo de batidas oriundas da cena underground britânica — do grime ao garage. Kibo é um dos nomes a reter por entre a mais recente vaga de MCs a abençoar o circuito UK e hoje é um dia bem especial para o jovem de Harrow com voz de veterano, já que acaba de lançar o seu primeiro álbum de sempre Kwengletaria: Ragamyff. São 16 faixas de revivalismo Y2K, com os devidos patches e updates da presente época, nas quais o rapper que tem tido um certo culto a gravitar em torno de si procura “encontrar um mito na mundaneidade” — sem overthinking, mas evitando qualquer tipo de desleixo.
[Rincon Sapiência] Um Corpo Preto
É um mimo procurar pelo novo álbum de Rincon Sapiência, apertar no play e escutar o arranque a todo o gás ao ritmo do drum and bass, com as rimas velozes do MC brasileiro a serem-nos servidas entrelaçadas com vocais de Dino D’Santiago. Assim é a “Diáspora”, faixa que abre Um Corpo Preto, um trabalho que nos oferece uma imersão profunda e complexa em questões sobre identidade racial e pertença, tecendo uma narrativa coesa que atravessa as suas 17 músicas. O projeto, sucessor de Mundo Manicongo: Drames, Danças e Afroreps (2019), apresenta-se como uma vibrante celebração da diáspora negra através de uma rica tapeçaria musical que transita com fluidez pelo rap, samba, reggae, dancehall, afrobeats e funk, reafirmando a versatilidade do artista de São Paulo.
[Akusmi] Terra Incognita
O conceito para o segundo LP de Akusmi nasce do termo dépaysement — a libertadora sensação de estranheza face a um ambiente totalmente novo, onde nada faz sentido e tudo precisa de ser aprendido do zero. Partindo do pressuposto de que, mesmo num mundo aparentemente já todo mapeado, há sempre mais por descobrir, o álbum afasta-se deliberadamente da precisão mecânica e dos padrões inscritos no aclamado antecessor Fleeting Future (2022) para abraçar uma sonoridade mais ligada à terra, inspirada na energia contagiante da música nigeriana — do highlife ao afrobeat — e no jazz mais espiritual. Sarathy Korwar, Dudù Kouate e Marysia Osu são alguns dos colaboradores que o compositor e instrumentista francês, nascido Pascal Bideau, recebe neste Terra Incognita.