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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 26/06/2026

O crowdfunding está a decorrer até 3 de Agosto.

Margarida Valença sobre Zona Proibida: “Queremos dar um contributo para mudar as coisas”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 26/06/2026

Chama-se Zona Proibida e trata-se de um futuro documentário que pretende retratar a gentrificação de Lisboa e a maneira como o fenómeno tem despido a cidade dos seus espaços e associações culturais, enfraquecendo as ligações comunitárias e o ecossistema artístico.

É um projecto que junta Margarida Valença (colaboradora do Rimas e Batidas), Rhuana Pimentel, Beatriz Dinis e Inês Dust. Neste momento, e até pelo menos a 3 de Agosto, decorre uma campanha digital para angariar fundos para a concretização do filme. Paralelamente, o movimento em torno da Zona Proibida pretende promover eventos, rodas de conversa e criar conteúdos direccionados para as redes sociais que toquem nestes temas. 

Em entrevista, Margarida Valença — jornalista lisboeta criada no centro, que hoje mora nos subúrbios — detalha o que está por trás do projecto e partilha a sua visão da cidade a que chama casa.



Li que ias à Zona Franca no dia em que a associação fechou ou que souberam de que iriam ser despejados. Mas surgiu de imediato a ideia para um documentário? Ou seja, de que aquilo era uma história ou que fazia parte de uma história maior que merecia ser contada?

Sim, ou seja, aquilo foi super espontâneo. Naquele dia, aquilo fechou e por acaso até foi a namorada do meu amigo que fazia anos — eles costumavam ir à Zona Franca — que disse: olhem, por que não reunir as pessoas ali na Praça das Novas Nações? E foi através daquele encontro e daquelas conversas… O que aconteceu naquele caso estava tudo certo dentro da lei. Só que depois há aqui uma tensão de valores, em que claramente há uma coisa que se está a perder na cidade e naquele bairro. Há um valor social que está em conflito com um valor, se quisermos, legal e de um planeamento e uma visão mais ampla da cidade. Nesse dia até tinha a minha câmara e gravei uma coisa ou outra, confesso que nunca cheguei a ver aquilo, também não devia estar lá grande coisa, mas deu-me logo assim uma vontade de querer documentar. Mas nem tinha noção daquilo em que estava a pensar, foi algo super espontâneo, as coisas ganharam vida e foram ganhando forma. No dia seguinte, começava o MIL, e eu fiz parte dessa edição da revista, e foi logo o que me motivou a querer escrever aquele artigo que depois também foi publicado na Mensagem de Lisboa. E depois já tinha algo aqui acumulado de querer fazer coisas para audiovisual, então comecei a gravar aquelas entrevistas em vídeo, na altura ainda era assim uma coisa muito… não é que não tivesse um rumo, mas estava muito a experimentar. Obviamente não tinha o alcance nem o pensamento que as coisas têm neste momento. 

Nem as pessoas que tens à tua volta no projecto, imagino.

Exacto. A Rhuana Pimentel estava a tirar fotos no MIL e foi uma coisa que inclusive até falámos durante o próprio festival, sobre as ideias que eu tinha, e trocámos algumas referências. Até ficámos numa de “olha, ‘bora fazer”. Eu venho do contexto do jornalismo, nunca fiz um documentário; ela tem um contexto de captação de fotos, imagens, mas nunca fez uma coisa muito documental, então estávamos numa de “‘bora fazer assim uma cena amadora”. Mas depois também temos outras coisas de trabalho, e percebemos que se não houvesse ali uma outra força, e mesmo a parte do dinheiro para isto também ser algo que a longo prazo sustente o projecto, o bem-estar e a nossa capacidade de realmente estarmos melhor nele e com mais tempo para ele… Eu também já tinha falado com a Beatriz Dinis, trabalhámos juntas há uns anos, disse-lhe que tinha uns vídeos, ela ofereceu-se muito informalmente para os ver comigo, a mesma coisa com a Inês Dust, também lhe perguntei como é que a coisa poderia funcionar a nível de financiamento e depois houve um momento, a partir de Janeiro, em que quis perceber que fundos existiam, como é que nos podíamos candidatar, tive uma sessão com a Dínamo que foi importante para perceber a relevância de teres parcerias e todo um conjunto de coisas que foram super úteis e práticas. O MIL é um parceiro, a Mensagem de Lisboa também e a comunidade Equid’Artes nas rodas de conversa que estamos a fazer. 

Então, neste momento têm várias entrevistas feitas e estão a ir filmando ou neste momento estão a procurar obter financiamento para avançarem com melhores condições para essas gravações? 

Sim, estamos um bocado nas duas coisas. Realmente, no início do ano tivemos muito mais disponibilidade para nos dedicarmos às entrevistas. Depois, lá está, como o projecto tem outra vertente de divulgação de informação sobre os temas que estão incluídos… Por exemplo, recentemente fomos gravar uma conversa na Associação Regador que foi com a Junta de Freguesia de São Vicente, a da Penha de França, a de Arroios, o movimento Parar o Hotel no Quartel da Graça, a Sirigaita e a Vida Justa, e é uma coisa que, não sendo para o documentário, também estamos a fazer para as redes sociais. Claro que depois todos nós temos outras coisas para fazer e às vezes é difícil conciliar tudo, isso também dificulta que consigamos manter um ritmo super regular, temos feito entrevistas mas não da mesma maneira, até porque temos o crowdfunding, também estamos a organizar um evento e ocupa muito tempo e energia.

Lá está, é um projecto que já ultrapassa o documentário porque inclui eventos, conteúdos exclusivos para as redes… Também li que a conversa que tiveram no MIL Cultura e Política estará disponível para quem apoiar o projecto.

Sim, isto por acaso era uma coisa que devia estar melhor comunicada: nós temos uma modalidade que é 30€, em que as pessoas vão ter acesso a todas as entrevistas na íntegra e também a essas conversas. Mas sim, vamos sempre pondo alguns conteúdos nas redes sociais e, no fim de tudo, queremos divulgar tudo na íntegra. E isto tem a ver com a forma como entendemos o que é a Zona Proibida enquanto projecto, entidade, movimento, o que queiras chamar. Nós nunca quisemos fazer só um documentário e acho que parte um bocado também desta ideia de, enquanto jornalista, enquanto pessoa que está a contar a história, enquanto pessoa que está a entrar neste mundo, também estás a ter um impacto naquilo que estás a fazer e nós também queremos que isto seja, de alguma maneira, uma plataforma cívica de encontro, de perspectivas, de troca e queremos criar momentos ao longo deste projecto que também mostrem aquilo que estamos a tentar procurar valorizar e proteger. Estamos a pensar fazer cinco eventos e a nossa ideia é ter conversas com momentos culturais — a primeira ser mais ligada à música, a seguinte ao cinema, depois talvez uma performance. Ainda não temos tudo delineado mas acaba por ser o reflexo de um projecto que se estende além do documentário em si. O próprio título da bio do Instagram pode parecer uma coisa muito pequena, mas acho que tem muito sentido: “a documentar o impacto da gentrificação nos espaços culturais em Lisboa”. A segunda frase pede “uma cidade com mais convívio, comunidade e cultura” e é também afirmativa dos nossos valores e daquilo que nós queremos promover. Às vezes pode parecer difícil definir tudo aquilo que estamos a fazer mas diria que temos o documentário, que é o output final do projecto, mas durante todo esse tempo também queremos que haja um engajamento, a possibilidade de abrir uma conversa, a possibilidade de se criarem sinergias e encontros. O documentário também tem uma vida muito própria e nós definimos coisas no início e ao longo do tempo há outras coisas que podem surgir na história que depois é que vamos ver como vamos fazer. Embora, claro, por mais que o documentário tenha capacidade de aprofundar, nós não conseguimos chegar a todo o lado. Aquele mapa que fizemos dos vários espaços que fecharam e esta vontade de trazermos a memória, uma coisa que queremos fazer nas redes sociais que é mostrar espaços, associações culturais e não só que estejam abertos e que tenham valor para a cidade e outros que fecharam, isto é conteúdo que até estamos a pensar primordialmente para as redes sociais. A história para nós ainda está a ser contada e irá depender daquilo que recebermos, do que fizer sentido e a própria forma como a cidade se está a movimentar está a fazer-nos reflectir sobre como podemos mostrar coisas que estão a acontecer agora, como a situação da Sirigaita ou do movimento Parar o Hotel no Quartel da Graça. São coisas que nos interessam ver porque são do agora. Ou como a Casa Independente, que vai fechar. O nosso foco está também muito nisso porque até ao momento em que acabarmos o documentário há coisas que vão acontecer, que vão ter um término e é uma coisa muito imprevisível.

E esse processo também vai ser desafiante mas irá ajudar-vos a enriquecerem aquilo que de facto vão querer contar quando estiverem a editar e a perceber o resultado final. Ou seja, todas as conversas que forem tendo, todos os sítios que forem conhecendo, todas as perspectivas que forem absorvendo ao longo deste tempo vão influenciar o resultado final.

Sim, acho que é um bocado a ideia também daquilo que estava a falar há bocado, esta abertura do projecto noutras vertentes. Nenhum de nós é expert sobre este tema, somos pessoas que acreditam que há um valor em falar sobre isto, acreditamos que é um problema haver imensos espaços culturais em Lisboa que estão a fechar, mas acreditamos que perdemos muito mais… Há imensos espaços que fecharam que eu nunca sequer lá pus os pés, e acho que esta permissão de uma certa provocação até externa, de podermos ouvir estes testemunhos, podermos ter estas rodas de conversa, podermos estar abertos até por exemplo a críticas que nos chegam nas redes sociais, também são coisas que nos fazem questionar-nos a nós próprios sobre aquilo que estamos a fazer, é essa questão de tentar abrir as portas para ser uma perspectiva que não é só a das nossas cabeças. Obviamente somos nós que fazemos o documentário mas parte desta perspectiva de que é uma coisa mais ampla do que nós.

Também é interessante que a Zona Franca dos Anjos estivesse na Rua de Moçambique, onde viveste os teus primeiros anos de vida, e depois moraste ali perto. É uma zona na cidade que de facto tinha muitos espaços e associações culturais, e também por isso muitos dos sítios que desapareceram nos últimos anos ficavam nessa parte da cidade. Conhecendo bem o contexto daquela zona, sentes que eram de facto sítios vitais para a vida comunitária, que eram locais agregadores e que estabeleciam pontes entre as pessoas?

Sim, acho que disseste tudo. A cidade é um lugar de muita coisa mas é também um lugar de afecto e aquilo foi uma coisa que mexeu muito comigo. Lembro-me de assistir, por exemplo, à transformação do espaço do Miradouro do Monte Agudo. Obviamente que há uma componente de mutação que é normal, a permanência das coisas para sempre também não é uma coisa na qual eu acredite e às vezes nós vivemos muito uma nostalgia que também pode não ser saudável. Mas há realmente uma sensação de andar num sítio e ser quase uma cidade fantasma, é uma coisa que dói e há uma sensação de um certo luto que tens de fazer pela cidade na qual tu já não moras, na qual tu já não podes usufruir e por mais que a mutação faça parte das nossas vidas e mesmo eu que fiz um certo luto por deixar de viver em Lisboa até sinto que estou bastante feliz no sítio em que estou. Mas há qualquer coisa de profundo e que também tem um valor sentimental e afectivo que estes espaços trazem para a cidade para além de tudo aquilo que fazem a nível de construção daquilo que é um bairro. Mas parece que essa pergunta não está respondida no debate público, porque se isso fosse uma coisa que fosse realmente valorizada se calhar este ecossistema não estaria a ser tão desmantelado, de uma forma tão rápida. Ou seja, acho que as pessoas que vivenciam estes espaços sabem o quão são importantes para elas, mas eu sinto que há duas reacções um bocado opostas: pessoas que estão de certa maneira dentro da bolha e que por estarem na cultura percebem a importância e urgência disto, mas há muitas pessoas para as quais parece que é um não tema. A cultura é o parente pobre de todas as outras coisas que são a nossa preocupação e realmente acho que há uma perspectiva também muito pobre no debate sobre a importância da comunidade, de como é que ela se constrói… Uma outra coisa que também inspirou este documentário e sobre o qual escrevi para outro artigo na revista do MIL falava da relação entre cultura e comunidade e há este dado super interessante dos incêndios de Chicago dos anos 70. Havia um conjunto de bairros que, mesmo sendo mais pobres e com infraestruturas sociais e mesmo a nível habitacional mais precárias, na verdade tiveram uma sobrevivência maior porque como havia mais bibliotecas, mais espaços partilhados de bairro, as pessoas conheciam-se, partilhavam-se ares-condicionados, iam bater à porta dos vizinhos para saber como é que os outros estavam… Ou seja, este tema acaba por abarcar muitos temas e no mundo em que estamos a viver, cada vez mais polarizado, de uma crise de saúde mental, sobretudo das pessoas da minha geração, com ansiedade e depressão, uma crise de solidão muito grande, a importância de perceber e responder à pergunta “porque é que estes espaços são importantes” é uma coisa que precisa de ser feita para desencadear muitos outros processos sociais que também precisam de acontecer e que muitas vezes começam nestes espaços físicos, porque nós não pensamos sozinhos, nós não somos sozinhos. Nós somos mamíferos, somos seres sociais, precisamos dos outros para pensar, para ser, para estar.

Também imagino que estejas a par de boas práticas que estejam a acontecer noutros países relativamente a estas questões e pergunto-te se tens bons exemplos para enumerar e que achas que também poderiam ser aplicados em Lisboa ou noutras cidades portuguesas.

Se podem ser aplicadas ou não, sinto que é um bocado difícil para mim estar a dizer, mas realmente foi uma coisa em que aprendi imenso com o artigo que escrevi para o MIL e que foi publicado na Mensagem de Lisboa. Uma delas é a existência desta figura que pode ter várias formas de aplicação mas cujo conceito começou como Night Mayor, que surgiu em 2012 em Amesterdão e que no fundo pode ser uma pessoa que faz parte do governo, de uma comissão ou de um comité, mas que de alguma forma seja uma estrutura organizada, preferencialmente remunerada, e que faça esta ponte entre os políticos, a política local e o sector cultural. O Lutz Leichsenring, que também entrevistámos para o documentário e que foi Club Commissioner de Berlim, dizia esta coisa que me ficou um bocado na cabeça: “É preciso, em primeiro lugar, encontrar soluções e dar aos políticos exemplos daquilo que eles fizeram.” No início, faziam muitas raves de protesto, só que às tantas aquilo chamava muita atenção mas não chegava a lado nenhum porque não estavam, por exemplo, a chamar políticos para irem ao backstage de um clube noturno ver tudo aquilo que implica fazer, todo o trabalho. E outra coisa que eles também desenvolveram através do Vibe Lab foi fazer o creative footprint, ou seja, haver um mapeamento rigoroso dos espaços culturais da cidade. Claro que há um factor económico, mas não é a única coisa que importa quando falamos de muitos destes sítios. Há espaços que são muito pouco lucrativos mas que criam fenómenos super interessantes e que se calhar a longo prazo até podem ser bastante lucrativos. Muitas das coisas que nascem e que se tornam grandes fenómenos começaram no underground. Há espaços que, se os matares, vais acabar com uma cena musical na cidade. E há sítios que têm um património emocional, que foram importante para várias gerações. Existe uma metodologia com três dimensões. A primeira é o espaço, a antiguidade do local, o tipo de uso, se é um espaço que é multidisciplinar, se trabalha com a comunidade, se acolhe coletivos locais, se pratica preços acessíveis… Depois, há a questão dos espaços a nível de licenciamento, de horários, a parte mais burocrática. A terceira dimensão é aquilo que estava a mencionar, que é o que acontece nos espaços: quantos eventos realizam, o equilíbrio entre os artistas locais e internacionais, entre propostas experimentais e mainstream. Isto também foi interessante aprender, na altura entrevistei a Night Mayor de Barcelona, que foi a primeira a existir em Espanha. Há várias coisas que eles estão a fazer, uma delas é fazer com que seja mais fácil criar processos de licenciamento para espaços culturais, porque muitas vezes é complicado até de perceber a própria burocracia e há espaços como, por exemplo, o Outra Cena, que neste momento estão a sofrer imenso por causa dessa questão de procura constante de licenciamentos. Em Barcelona estão a fazer isto, que é garantir e apoiar o espaço nessa procura por um licenciamento. E isto parte, em primeiro lugar, de uma valorização daqueles espaços. Por mais que até estejam num limbo e num cinzento a nível legal, se for reconhecido um valor simbólico na proposta que estão a fazer, então ‘bora lá tentar garantir a sustentabilidade deste projecto. 

E falta essa consciencialização e vontade política em Lisboa. 

Eu acredito que sim. Não é como se não houvesse nada, mas acho que falta uma visão mais ampla. E não é só de Lisboa, é do próprio país. Para outro artigo do MIL, entrevistei o Rui Matoso, que é investigador e professor na ESAD, e ele tinha-me dado este número que apenas 15% dos municípios na zona centro do país têm uma estratégia cultural para o município. E depois há a questão, que também é muito comum em Portugal, que é confundir uma estratégia cultural com uma agenda de eventos. Acho que falta um bocado essa visão. Aquele artigo que fiz enumera todas essas questões, a forma como usas o orçamento municipal, as borlas fiscais que dás ou não a certos eventos, que são sempre opções políticas. Ou mesmo, por exemplo, o uso de espaços devolutos. Nós temos muitos espaços, edifícios devolutos, que realmente podiam ser usados para habitação, mas há muitos outros, como o Quartel da Graça, que não têm um uso facilmente convertido para habitação, e que poderiam ter um uso diferente. Como, por exemplo, o edifício do Banco de Portugal, ali na Almirante Reis. São espaços enormes que, se houvesse essa vontade, poderiam dar um contributo enorme para a cidade. Acho que começa sempre pela valorização da cultura. É uma coisa que eu tenho trabalhado noutros aspectos, mas que tocam muito neste tema do documentário, porque também acho que falta quase uma capacidade de nos olharmos ao espelho enquanto cidade, enquanto aquilo que é o nosso potencial e a nossa identidade. Por exemplo, uns Buraka Som Sistema, para mim, reflectem aquilo que é o ADN de uma identidade lisboeta e tiveram um conjunto de multiplicações na forma como se fizeram sentir no ecossistema musical português, nas linguagens artísticas que se criaram e que têm enorme potencial, que as pessoas ouvem e de que gostam. Reconhecer a importância disso implica que haja a criação de uma infraestrutura que permita com que essas linguagens artísticas floresçam. E, por exemplo, a Casa Independente, que foi o sítio onde nasceram os Fogo Fogo… Se calhar, os Fogo Fogo não teriam nascido se não fosse naquele espaço e não teriam tido a vida que tiveram se não fosse a residência que lá tiveram. Então, acho que a capacidade de olhar para aquilo que é o nosso potencial, que é uma cidade super vibrante, que tem uma multiculturalidade super interessante, de poder ser conhecida e promovida… Ou seja, ela já acontece, esses criadores existem e estão a fazer coisas incríveis, mas muitas vezes não têm essas condições. Acho que é também essa capacidade de autovalorização e de realmente olharmos ao espelho, olharmos para o quão fixe, se quisermos até usar este termo, Lisboa é a nível de potencial artístico. Infelizmente, a precariedade é uma coisa que assola esta área e tenho pena que assim seja. Isto faz parte da identidade da cidade, portanto haver condições para desenvolver a cultura local também valoriza a cidade. 

E mesmo aos olhos de quem está focado no lado económico, também é essa cultura local que diferencia uma cidade. Se não, lá está, somos uma cópia de outra cidade, outra capital europeia, quando se perde essa identidade. 

Exacto. E há coisas que me fazem super confusão. Quando fui gravar aquela conversa com as juntas de freguesia e as associações, já era um bocado tarde, queria almoçar e não consegui encontrar nada sem serem sítios de brunch que ofereciam quase todos a mesma coisa e com tostas a mais de 10 euros. Ou seja, além da questão do preço, que é importante, quando estás a criar uma cidade que é homogénea e em que não há uma diversidade de programação, de linguagens, do tipo de coisas que existem, também estamos a perder aquilo que nos faz ser uma cidade.

Para terminar, acho que também é interessante falarmos da ideia de Grande Lisboa, porque tu saíste do centro da cidade e hoje estás entre São Domingos de Rana e Odivelas. Os subúrbios têm dinâmicas distintas, mas muitas vezes encaixam na lógica de cidade-dormitório. Embora muitos tenham desenvolvido um comércio próprio, também tradicional, culturalmente são lugares com muito menos oferta. Mesmo que sejam sítios de onde vêm imensos criadores e artistas, normalmente os palcos, os sítios onde as pessoas se juntam para consumir essa cultura, são no centro da cidade. Tendo em conta estas mudanças, que em muitos casos parecem estruturais e isto também se liga à crise da habitação, porque havia muita gente que morava em zonas mais centrais e agora está noutros lugares da área metropolitana, mais periféricos… Mesmo que seja por motivos infelizes, nalguns casos inevitáveis, esta realidade também vai fazer com que os subúrbios possam ser mais espaços de cultura? Porque, como as pessoas não têm tanta hipótese de a fazer no centro da cidade, sentes que isso poderá transitar mais para as zonas suburbanas?

Ainda bem que falaste nisso. Acho que é interessante a premissa de que, idealmente, numa cidade e numa área metropolitana ideal, haveria uma pujança cultural em Lisboa, em Odivelas, em São Domingos de Rana e em todo o lado, e uma possibilidade de transportes que permita com que haja mobilidade para ir a esses sítios. Por exemplo, aqui em Odivelas, onde estou agora, é perto e tens o metro. Mas não é comum as pessoas virem de Lisboa para Odivelas fazerem um conjunto de planos culturais. Também estou a viver um bocado essa dor na pele de haver esta dependência da vida social e cultural na capital, e de não haver às vezes esta vontade, que é mesmo uma dinâmica interpessoal de as pessoas se quererem mover para o outro lado, porque há meio que um hábito de haver muita coisa a acontecer em Lisboa. E acho que há uma infraestrutura que ainda é muito precária, sobretudo se nos compararmos com outras cidades, na forma como a mobilidade também permite com que isso aconteça. Mas totalmente, isso já está a acontecer, essa descentralização já está a acontecer, de alguma maneira. Há pessoas que já não estão a viver nos sítios onde estavam a viver e onde criavam em Lisboa. Só que, ao mesmo tempo, por mais que seja um fluxo natural das coisas, acho que é fixe ambicionarmos as duas coisas. Apesar de ter que haver uma maior descentralização, acho que devemos ambicionar em igual medida que Lisboa, tal como todas as cidades, não devem perder os seus criadores e a sua capacidade de criação. Mas sim, eu gostava de frequentar mais a Linha de Sintra ou a Margem Sul, onde há imensos criadores, e gostava que houvesse mais o hábito de as pessoas irem de Lisboa para Cacilhas, ou para Odivelas, e que não houvesse tanto essa cultura de Lisboa ser o centro de tudo. Mas sim, também me parece que é uma coisa um bocado inevitável e que é importante que aconteça, obviamente.

Claro, mesmo pelo que venha a acontecer pelos motivos errados.

Sim, é meio foleiro, mas eu gosto muito da palavra “esperança”, é uma palavra que sinto que muitas vezes não tem o seu significado aprofundado. E o Paulo Freire tem esta frase, este termo do “esperançar”. É preciso ter esperança, mas do verbo esperançar, porque há pessoas que têm esperança, mas do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é uma espera. Portanto, existe esta noção da esperança como uma acção e como uma coisa que se pratica e que é um verbo. Eu sinto que este projecto vem muito disto. Apesar de tudo aquilo que vemos na prática, que nos mostra que o caminho que a cidade está a tomar não é que estes espaços possam ser mais valorizados, a coisa que hoje em dia é cada vez mais necessária e subversiva é ter esperança. E, pronto, é tudo o que temos feito neste projecto. Quero dar esse contributo de mudar as coisas, é preciso abrir conversa, é preciso mudar a narrativa, é preciso ouvir pessoas e nós acreditamos que é possível fazer alguma coisa relativamente a isso.


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