Madrid tem a rara capacidade de fazer coexistir tempos diferentes. Na mesma cidade em que um visitante pode deixar o tempo correr lento enquanto entrega o olhar a um Van Gogh no Museu Thyssen-Bornemisza, procurando decifrar a forma como a luz recorta os corpos anónimos de The Stevedores in Arles, pode também perder-se, poucas horas depois, entre as bancas do El Rastro, atravessando uma multidão que parece repetir gestos com centenas de anos numa azáfama contagiante. Entre a grande arte preservada no âmbar dos museus e a vida popular que continua a pulsar nas ruas existe uma ponte invisível. No domingo passado, 21 de Junho, no Noches del Botánico, Yerai Cortés mostrou que a sua música habita precisamente esse território intermédio.
Para quem vive na raia portuguesa, Madrid é muito mais do que a capital do país vizinho. É um poderoso pólo cultural, uma cidade onde a oferta de museus, salas de espectáculo, livrarias, galerias e festivais justifica facilmente uma escapadela de fim-de-semana. Enquanto Lisboa e Porto olham frequentemente para o Atlântico, Madrid parece concentrar em si uma ideia particularmente intensa de vida cultural, capaz de cruzar tradição e contemporaneidade sem sentir necessidade de escolher entre uma e outra. Talvez por isso faça tanto sentido que um dos artistas mais fascinantes da nova geração do flamenco tenha encontrado ali um dos seus mais expressivos triunfos recentes.
O contexto ajuda a perceber a dimensão do momento. O Noches del Botánico não é um festival de nicho nem um espaço dedicado ao flamenco. Para a sua décima edição, que ocupa boa parte dos calendários dos meses de Junho e Julho, o ciclo madrileno volta a reunir algumas das mais importantes figuras da música internacional, de Van Morrison a Tom Jones, de Jean-Michel Jarre a Rubén Blades, de Nile Rodgers a Pat Metheny, passando ainda por Belle and Sebastian, Diana Krall, Snarky Puppy ou John Legend. Num cartaz desta dimensão, a presença de Yerai Cortés como cabeça de cartaz justifica-se porque a sua proposta artística conquistou um lugar natural ao lado de algumas das mais relevantes vozes da música contemporânea. A lotação esgotada no passado domingo confirma de forma plena essa ideia.
Há poucos anos, uma abordagem tão singular ao flamenco talvez parecesse demasiado arriscada para um contexto desta escala. Hoje, pelo contrário, parece responder a uma necessidade colectiva. No recinto — pleno de verde, com total conforto e sem filas para nada apesar de se encontrar cheio —, a adesão do público foi imediata, mas o mais impressionante foi a forma como uma proposta tão assente na vulnerabilidade, no silêncio — que aliás pontuou por diversas vezes a performance — e na atenção aos detalhes conseguiu impor o seu tempo próprio num ambiente habitualmente associado à lógica mais expansiva e maximal dos grandes festivais.
Quem o viu há poucos meses no Tremor açoriano — ou no Theatro Circo, em Braga, na Aula Magna, em Lisboa ou no Teatro Munipal da Lousã — percebeu também que Guitarra Coral continua a evoluir. Em Ponta Delgada, as cantantes surgiam vestidas de branco, reforçando a dimensão quase ritual da proposta. Em Madrid, pelo contrário, apresentaram-se integralmente de negro, acentuando os contrastes de um desenho de luz explorado agora de forma mais ambiciosa e cinematográfica. As silhuetas projectadas contra fundos cromáticos de grande intensidade ganharam uma nova densidade dramática, como se o espectáculo tivesse encontrado na maior escala do palco madrileno novas possibilidades narrativas.
O momento mais eloquente surgiu logo na abertura. Yerai apareceu iluminado apenas pela luz dos telemóveis empunhados pelas suas companheiras de palco. A imagem era simultaneamente ancestral — remetendo para a penumbra de Caravaggio — e profundamente contemporânea: uma figura quase mítica convocada pelos dispositivos que hoje moldam grande parte da nossa relação com o mundo. Em diversos momentos da actuação, o rigoroso desenho de luz transformou as cantantes em silhuetas recortadas contra fundos de cor intensa. Foi impossível não regressar mentalmente àquelas figuras observadas horas antes no Thyssen. Tal como nos estivadores pintados por Van Gogh, não interessava ali a individualidade de cada corpo, mas a sua inscrição num gesto colectivo. As intérpretes surgiam como uma comunidade, um organismo único que respirava ao ritmo da guitarra de Yerai, entrando e saindo da escuridão com uma elegância quase pictórica.
O que Yerai apresenta em palco continua, aliás, a desafiar classificações simples. A guitarra permanece no centro da narrativa, claro, mas já não como instrumento de afirmação virtuosa. O que verdadeiramente impressiona é a forma como ela funciona como elemento agregador de uma experiência mais vasta, coral e comunitária. As vozes femininas que o acompanham, as palmas, os movimentos cuidadosamente coreografados, os silêncios e até a própria disposição dos corpos em palco contribuem para uma linguagem que transcende largamente a ideia convencional de recital flamenco. E o mar de microfones, bem mais do que os necessários, assumia-se como recurso cénico, mas também se pode entender como metáfora: para lá das vozes das seis cantantes, aquela música ecoa vozes ancestrais, presentes apenas no plano espiritual.
Mas se a dimensão visual do espectáculo remete para o universo da grande arte, a sua energia emocional parece nascer noutro lugar. Nas ruas, certamente. Nos mercados. Nas tavernas. Nos encontros fortuitos entre pessoas comuns, como, aliás, o próprio Yerai já sublinhou em entrevistas que concedeu. O El Rastro de domingo de manhã, com a sua mistura de comércio, convívio (como na praça onde se reúnem centenas de pessoas de todas as idades a trocarem avidamente cromos de todos os géneros), memória e improvisação, oferece talvez uma outra metáfora inesperadamente precisa para compreender a arte de Yerai Cortés. Porque aquilo que a sua música procura não é a perfeição formal, antes uma verdade humana que só existe quando a experiência individual se transforma em património colectivo.
É uma ideia que atravessa igualmente POPULAR, o mais recente álbum do guitarrista. O próprio título joga com essa dupla condição: aquilo que é reconhecido pelo público e aquilo que nasce do povo. Em palco, essa ambiguidade ganha uma expressão particularmente feliz. Há um enorme refinamento na construção cénica, na dramaturgia musical e na forma como o espectáculo é desenhado. Mas há também uma recusa constante de qualquer artificialidade. Os silêncios permanecem silêncios. As fragilidades não são escondidas. As vozes preservam a sua textura humana. Nada parece excessivamente polido ou domesticado. E nem o clamor dos milhares de pessoas presentes consegue quebrar a rigorosa decisão de não interagir com o público — as únicas palavras que se escutaram foram as que habitam as canções.
O repertório percorreu os dois universos discográficos que até agora definem a sua obra. Houve espaço para temas como “Los Almendros” ou “Por Tu Silencio Lloro”, mas foi sobretudo o material recente de POPULAR — incluindo “Ni En Los Puertos Italianos”, “Ni En Los Cafés Parisinos”, “Piopioo” ou “Roto x Ti” — que ajudou a estruturar a narrativa emocional da noite. E foi também através dessas canções que se tornou mais evidente uma das transformações mais interessantes do artista alicantino. Conhecido inicialmente como um guitarrista de recursos técnicos quase sobrenaturais, Yerai aproximou-se por diversas vezes do microfone para interpretar versos num registo quase sussurrado, de uma fragilidade tocante. Há algo de profundamente desarmante nessa voz vulnerável que contrasta com a autoridade e o virtuosismo que exibe quando as mãos regressam às cordas. Como se procurasse equilibrar a precisão extraordinária do instrumentista com a humanidade exposta do homem por detrás da guitarra.
Talvez seja precisamente essa combinação que explique a forma como Yerai tem conseguido conquistar públicos cada vez mais amplos sem diluir a singularidade da sua proposta. Num tempo em que a palavra “popular” é frequentemente confundida com alcance, visibilidade ou algoritmo, o guitarrista alicantino parece insistir numa definição mais antiga e mais profunda. Popular como comunidade, como memória partilhada, como espaço de encontro.
Horas mais tarde, já no final da actuação, as cantantes aproximaram-se da assistência para registar selfies com o público. O gesto foi claramente performativo e parecia responder directamente à imagem inicial dos telemóveis que haviam iluminado a entrada de Yerai, fechando um subtil arco dramatúrgico. Sem qualquer tom acusatório, mas também sem ingenuidade, o espectáculo parecia reconhecer que a experiência colectiva da música ao vivo passa hoje inevitavelmente por esse diálogo permanente entre presença e representação, entre aquilo que vivemos e aquilo que sentimos necessidade de registar.
A dada altura tornou-se evidente que o verdadeiro feito de Yerai Cortés não reside apenas na renovação do flamenco. O que a sua arte propõe é uma ponte entre tradição e presente, entre intimidade e espectáculo. Ou talvez entre o museu e a rua. Entre a sofisticação formal que atravessa os séculos e a vida quotidiana que continua a reinventá-los todos os dias. Madrid, cidade onde essas duas dimensões coexistem com rara naturalidade, revelou-se o cenário perfeito para essa demonstração.
Porque, no fundo, foi isso que aconteceu no Noches del Botánico. Enquanto milhares de pessoas escutavam em silêncio uma música profundamente enraizada numa tradição específica, mas simultaneamente aberta ao mundo e ao presente, percebeu-se que Yerai Cortés encontrou uma forma singular de falar para todos sem deixar de falar a partir de um lugar e de uma experiência muito concretas. Como os grandes artistas, faz parecer simples aquilo que, na verdade, é extremamente difícil de alcançar: transformar a experiência pessoal em emoção colectiva e a cultura popular em arte maior.