Tudo fica mais sereno quando os artistas pelos quais mais ansiamos por novidades nos colocam discos fresquinhos em cima da mesa. Foi isso mesmo que fizeram hoje três nomes a operar em diferentes coordenadas dentro do planeta hip hop, aos quais se somam mais um par de projetos por entre a mão-cheia deles aqui em destaque pelo Rimas e Batidas — um deles confirma o excelente momento de forma de um saxofonista ímpar do jazz contemporâneo, o outro apresenta ao mundo uma crew que tem tudo para dominar o rap alternativo nacional e, quem sabe, mais além.
Mas há muito mais para explorar para lá dos cinco álbuns sobre os quais nos debruçamos nos parágrafos que se seguem, pois esta semana foi também novidades para os lados de Monsta (MAL ME QUERES), Lau Ro (Lau), Gwen Bunn (The Interim Vol. 1), Jadasea (Holly Grove), Parallel Thought (The Third Allegory), Nduduzo Makhathini (The Myth We Choose), Maxo Kream (O.Y.N), Shakewell (SLUGEATER), Alewya (Zero), Amaria BB (Comes to Light), Cécile McLorin Savant (With Every Breath I Take), Naomi Sharon (No Sleep in Paradise), Pearl & The Oysters (Monkey Mind), Wyclef Jean (Clef Notes – Quantum Leap, Vol. 1), dgoHn (Tessares), Prof (Good Time Boy), E.Vax (Just Like Fire), Jody Fontaine (Thank You, Goodnight), sosocamo (homesick), Beth Orton (The Ground Above), Nectar Woode (Naturally), SML (Spontaneous Music Live), kwn (And All Pride Aside), ALIA (Where the Echoes Bloom), FearDorian (Tease, Vol. 1), Félicia Atkinson (Sans Visage), Minyo Crusaders (From Japan With Love), Downtown Boys (Public Luxury), Thando Zide (Ku Ngawe), 47SOUL (Dualism Pt. 2 EP), Brutalismus 3000 (Harmony), Capleton (Heights of Fire) e DJ Plead (Please).
[T-Rex] UM DIA VAIS PERCEBER
Se estranharam a espera de três anos para obter o sucessor para COR D’ÁGUA, depois habituados a ver T-Rex editar discos de forma constante, o rapper volta hoje a inscrever um novo capítulo na carreira explicando que UM DIA VAIS PERCEBER. A obra funciona como um espelho retrovisor que permite ao artista luso-angolano refletir sobre o percurso consolidado até aqui, mas sempre com o carro a andar numa velocidade que o projeta para o futuro imediato, procurando reiventar-se e manter a frescura a que nos habituou desde os primeiros lançamentos. Ricoworld, YeezYuri e Juzicy são alguns dos produtores recrutados para criar a banda sonora de um alinhamento quase todo a solo — à excepção de “CHANCE”, que conta com as participações de Goldie, Mkmike e RafromdaCo.
[T.I.] Kill The King
A carreira de um rei só pode terminar por decreto do próprio. Um dos símbolos máximos da realeza do rap do Sul dos Estados Unidos da América, T.I. faz do 12º álbum da carreira o último das suas contas, ordenando desde logo no título Kill The King. Após vários meses a farmar o momentum certo para este grande acontecimento — tendo até, pelo meio, medido forças com 50 Cent numa troca de faixas e galhardentes bastante acesa —, o veterano nascido Clifford Joseph Harris Jr. despede-se da alta-roda do hip hop com um trabalho ambicioso de quase uma hora de duração em 18 faixas. O disco equilibra a agressividade clássica do trap com uma introspeção madura, num ambiente sonoro que transita entre a nostalgia dos anos 2000 e a experimentação contemporânea. Na sua ficha técnica: uma autêntica constelação de colaboradores: de Anderson .Paak e Jeezy a Usher ou Pharrell Williams.
[Ibeyi] Offering
Offering surge como o quarto e mais emancipado registo das gémeas franco-cubanas Ibeyi, um profundo regresso à origens onde Lisa-Kaindé e Naomi Diaz se despojam das camadas de expectativas externas para oferecer uma versão mais crua e sem filtros de si mesmas. Este projeto, o primeiro editado no seu próprio selo após uma ligação à londrina XL Recordings, nasce de turbulências pessoais e da vontade de recuperar a energia e o espírito destemido da sua juventude. O LP percorre as mitologias iorubá e egípcia, ao mesmo tempo que abraça baladas comoventes, fundindo percussão afro-cubana com hip hop e R&B que é simultaneamente ancestral e inovadora.
[James Brandon Lewis Quartet] Omni
Omni é mais um testemunho da consistência de James Brandon Lewis, um dos mais reputados saxofonistas do jazz moderno, que aqui volta a liderar o seu quarteto um ano após Abstraction Is Deliverance. Novamente selado pela Intakt Records, o longa-duração privilegia a fluidez na comunicação entre os diferentes instrumentos — ouvimos também Brad Jones no contrabaixo, Chad Taylor na bateria e Aruán Ortiz ao piano — e estabelece uma ponte entre a margem mais cerebral e o lado mais espiritual do jazz.
[Isak, Zigarro & Armando Teles] Jon
Dos bairros do Porto para os ouvidos de Portugal inteiro, Isak, Zigarro e Armando Teles têm vindo a trilhar um percurso claramente ascendente no panorama do rap alternativo do nosso país, misturando humor negro, egotrip com perfume das ruas e uma série de referências culturais do seu quotidiano urbano. Juntos formam a SMORRA Records e esgotaram recentemente a principal sala de espetáculos do complexo da Casa Capitão, em Lisboa, bem na antecâmara do lançamento de Jon, o LP de estreia enquanto coletivo, depois de várias investidas em diferentes formados ao longo dos últimos anos. São 8 temas para assegurar que o Norte continua a dar cartas na nova escola do rap nacional, contando ainda com as ajudas de Joint One e Basílio Teles em dois momentos.