Nem sempre escapamos aos planos que fazemos ou às previsões que traçamos. Nem sempre deixamos espaço ao acaso, à fuga dos enredos que imaginamos. Mas se o MED nos tem ensinado alguma coisa é que, durante estes quatro dias, em Loulé, é sempre o inesperado a mapear. Conduz-nos por ruas e vielas do centro histórico até às praças, largos e recantos onde o mundo se mostra colorido e desamarrado. E, depois de aceso, acende um horizonte promissor. Há sempre viagens por fazer, mundos por descobrir, e é preciso alguma disponibilidade — também física — para aceitar as promessas do desconhecido. Do Redondo a Essaouira, de Londres a Buenos Aires ou da Califórnia à Anatólia, o inesperado acabará por nos levar a um dos momentos da noite.
As ruas enchiam-se devagar. Copos na mão, programas dobrados no bolso e passos sem grande pressa cruzavam-se entre os palcos Castelo e a Matriz, a Cerca e Chafariz. Havia quem ainda procurasse o primeiro concerto da noite e quem já tivesse percebido que, no MED, muitas vezes é o caminho que escolhe por nós.
Eram 21h30 quando Vitorino subiu ao palco Cerca para substituir, como o próprio disse, um “amigo insubstituível”. Sérgio Godinho, devido a problemas de saúde, ligeiros mas impeditivos, adiou a estreia no festival. Com a generosidade que lhe conhecemos, o alentejano do Redondo homenageou poetas e amigos com a elegância e a precisão de quem semeia salsa ao reguinho há cinquenta anos. Há uma estirpe de artistas que obedece a uma ética e a um rigor que parecem inalcançáveis nos dias de hoje. Gente de outra loiça, como Fausto, José Mário Branco e, claro, Vitorino, que continua a revelar um aprumo raro nas escolhas e na voz. Foi o único concerto do dia que oferecia cadeiras ao público, quase como um convite a uma escuta atenta e a uma velocidade lenta, as únicas capazes de fazer justiça à obra e ao homem.
Quase em simultâneo, no palco Castelo, Lala Tamar despertava curiosidade e disputava atenções. Nascida em Israel, a viver atualmente em Essaouira, Marrocos, filha de mãe marroquina e pai brasileiro, a sua genealogia e geografia ajudam a compreender porque canta em árabe, amazigh e português. Cantora, compositora, poetisa, tocadora de guimbri, bailarina e viajante, funde rituais ancestrais do Norte de África com ritmos brasileiros. Em palco, a dança e a componente visual criaram um ambiente simultaneamente onírico e vibrante. Havia muito público interessado no palco Castelo. “Pão Com Manteiga”, tema gravado com Bia Ferreira no recente álbum BAB SBA3, lançado em maio, fez a multidão dançar e cantar o refrão em coro. Motivo para Lala prometer mais canções em português no próximo trabalho.
Os históricos Asian Dub Foundation eram um dos grandes destaques deste primeiro dia. No palco Matriz, diante de uma plateia numerosa, os britânicos apresentaram-se enérgicos e dispostos a celebrar o legado urbano e vanguardista que ajudou a fechar os anos noventa e a abrir o novo século em Londres. Dois MCs, guitarra elétrica, baixo e flauta sobre um pulsar de dub, jungle e drum’n’bass. Escutá-los permite perceber a importância de um grupo que abriu caminhos para inúmeros projetos que lhes sucederam. Permanecem visíveis as raízes e reconhecíveis os pontos de partida de uma investigação sonora que aproximou instrumentos acústicos da linguagem eletrónica. Os momentos de flauta rasgavam a noite e eram, talvez, aqueles que melhor resistiam ao tempo. Apesar disso, a música soava datada e os mensageiros sem mensagem.
Uma nova rua guiou-nos até ao palco Chafariz para o encontro com os Tangomotán e para um lugar na relva, de muralha às costas. À partida, talvez suspeitássemos de um recalcamento do caminho aberto pelos Gotan Project. O próprio nome parece brincar com essa possibilidade. Mas na verdade, apenas o ponto de partida coincide. As diferentes origens dos músicos — da Arménia à Córsega, da Argentina à Finlândia — fazem nascer um tango geograficamente disperso. Violino, contrabaixo, bandoneón e sintetizadores, operados por duas mulheres e dois homens vestidos de bleu du travail, evocam os operários das fábricas francesas do final do século XIX e início do XX. Desse emaranhado de influências sob melodias do tango surgem ligações à música clássica, ao pop-rock, à eletrónica e à música cigana. Fecharam o concerto com uma inesperada recriação de Billie Eilish.
Os relógios cruzavam a meia-noite quando regressámos ao palco Cerca para ouvir Lura cantar “Na Ri Na”. Pela terceira vez no MED, trouxe consigo o carnaval de São Vicente para celebrar trinta anos de carreira e a cultura cabo-verdiana. Morna, funaná e batuco despertaram nos corpos um desejo irresistível de movimento e deixaram sorrisos no rosto. Uma festa bonita.
Seguimos apressadamente para o palco Matriz, mais uma vez deambulando entre vielas e ultrapassando o passo lento das famílias, onde os californianos Groundation nos esperavam. E que encontro. Nove músicos distribuídos entre saxofone, trompete, baixo, duas guitarras, bateria, teclados e duas vozes, às quais se juntava Harrison Stafford. O reggae servia de chão para longos momentos de improvisação, solos jazzísticos e arranjos ricos que entusiasmaram a plateia e magnetizaram atenções. Musicalmente, mantiveram sempre a chama acesa. Os solos de saxofone e trompete tocaram céus místicos e criaram uma dimensão quase espiritual. Com o peso da América de Trump sobre as costas, os Groundation transformaram este concerto numa afirmação de liberdade e fraternidade: um só povo. Entre canções, multiplicaram mensagens de amor, paz e esperança num mundo melhor e sem fronteiras. Foi o momento da noite.
Ainda com esse êxtase a acompanhar-nos, descemos até ao palco Chafariz para descobrir os Lalalar e o particular eixo criativo entre Istambul e Berlim. Sabíamos que ali se escondia uma das propostas mais aventureiras do cartaz. Entre as ruínas da Anatólia e a eletrónica berlinense, o grupo construiu uma linguagem própria, alimentada por uma atitude punk e por mudanças constantes de direção que recusavam qualquer etiqueta. Mais um encontro feliz com esse mundo que o MED insiste em trazer até Loulé. Foi assim que terminou o primeiro dia: com a certeza, gravada a golpe de pedra, de que, por aqui, continua a ser o inesperado a desenhar o caminho.