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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/06/2026

Acerca de uma voz que canta assim.

Arooj Aftab no Festival MED’26: diz-me dessoutro em canto

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/06/2026

Como em clarividência melhor escrevia aqui Marco António Vieira, qual esse outro António dirigindo-se aos peixes, a “esse mundo que insiste em inventar um outro contra o qual se afirma”: “No MED, o outro somos nós”. Nós daqui somos tantos como vós. Cantemos juntos, ou por outra — e bem melhor — que nos deixamos levar por cantos, como e quando por diante houver uma voz de absoluto encanto. Essoutra voz, que foi na noite intermédia (dia 26 de Junho) do MED, festival das músicas de outro mundo (dentro deste mesmo), que dá pelo nome — cada vez mais familiar entre nós — de Arooj Aftab. 

A paquistanesa Aftab subiu ao reino da noite, no palco Cerca, para nos acercar numa subtil e redentora actuação, de tão leve e eficaz, levando aos maravilhamentos desígnios do canto. É mais uma demonstração de como nem precisamos de entender a língua no imediato (urdu, neste caso) para melhor sermos tocados pela outra linguagem comum — a da emoção. E se “algumas canções só podem ser ouvidas à noite — letras lunares para ouvidos nocturnos. São as canções da noite que nos mantêm de pé durante o dia, com os olhos cheios do brilho das estrelas”, essas canções, como estas palavras de Lynnée Denise, quando se referia às que Arooj verteu cantando em Night Reign (Verve Records, 2024), álbum último da poetisa. 

Nove e meia, a sétima noite, entre as primeiras de um verão mais no barrocal algarvio, entre o louletano casario que se faz num grande souk, como um mercado cultural do mundo. Nos céus quase apenas e só um firmamento trazido pelo logotipo do festival em luminária — três camadas como núcleo, manto e crosta terrestre. No palco do encantamento um trio jazzistico de câmara, de guitarra semi-acústica, contrabaixo e bateria para uma só voz num quarteto.

A poesia de inspiração sufi que Aftab transporta vai beber à mestria clássica, mas na vez dos ímpetos que empresta por exemplo Abida Parveen surge conduzindo um sentido contemplativo, pairante, e arrastando-se em voos planares. O tema com que abre o concerto em Loulé, “Suroor”, é disso notório. Inscrito em Vulture Prince (New Amsterdam Records, 2021) fala-nos de um estado de embriaguez, vindo do olhar que lhe ensinou a beber pouco a pouco. A leitura entende-se metafórica, mas não será desconexo o copo de vinho tinto que se faz acompanhar em palco. “Desde que vi nos teus olhos / Há uma sensação suave e inebriante” termina o tema, numa tradução livre e envolvente. A forma cíclica do groove na guitarra de Gyan Riley (filho do Terry Riley) faz muito por esse hipnotismo que a voz convoca. O mesmo tema com que abriu o concerto gravado para a série Tiny Desk Concert mas onde nesse mini-concerto a instrumentação extensiva à harpa e violino é de veras arrebatadora. E se “Whiskey” surge alinhado três temas adiante, parece que se continua em torno da bebida e álcool, mas é muito mais sobre essoutra e boa intoxicação, amorosa, de uma pessoa a quem o ombro pode ser o tal abrigo da noite — “Your head gets heavy and rests on my shoulder / We’ll fade into the night”. Este álbum e de que a canção “Last Night” concentra em doses generosas o encanto do amor: em luz, em beleza, em brilho. A bateria de Engin Kaan Günaydın soube acelerar tudo isso, ao passo que o tricotar das cordas do contrabaixo de Zwelakhe Duma Bell Le Pere fez o restante para a poção. E depois pela voz foi um ofuscar sincero que conduziu como que rumo a um devoto silêncio, embora no final do tema em palco isso fosse quase impossível — sentiu-se um arrepio, impactante, como tal fosse. 

Arooj Aftab faz a sua estreia no sul de Portugal, mostra-se maravilhada e rendida aos encantos da praia e do mar algarvio. Talvez no mesmo sentido da calmaria e pacificação que a voz que traz transforma as angústias em quietudes. Uma voz de encanto e que em “Na Gul” assume como que a essência, quando melhor entendemos as suas palavras a sobrevoar o espaço: “Nem o desejo pelo paraíso nem o medo do inferno são uma ‘caridade’ / Para além da Verdade, não tenho quaisquer expectativas em relação a mais nada”. A sua poesia neo-sufi, pela vertente mística e muito enraizada no amor (seja ele divino ou no outro) apela ao poder de transformação interior do eu, mesmo que partindo dos destroços, haverá um eu a respeitar e engrandecer. Como melhor se mostra solene em “Saans Lo” quando precisamente, impele ao respirar entre um “reúne os pedaços dispersos do teu coração.” 

Um alinhamento a que não deveria faltar “Bolo Na”, talvez o tema mais impactante de todo Night Reign e invariavelmente da prestação de Arooj Aftab no palco do MED. Seria de todo improvável que Camae Ayewa (aka Moor Mother) se juntasse em palco para a parceria imbatível que em disco tem com a voz de Aftab a que acresce o vibrafonista Joel Ross. Mas houve lugar a um momento inesperado e na ressaca desse lá atrás “Whisky” surgia uma bandeja com shots dessa mesma bebida para uns e umas quantas nas primeiras filas da plateia (sentada) da Cerca — um brinde pois então à prestação inolvidável de Arooj Aftab e à sua poesia e voz. Neste tema de desfecho, que recorda o seu coração quebrado pelo amor enquanto jovem, mas marcante ao ponto de ainda hoje fazer impacto. Umas luzes de palco que o fazem ruboresceste, onde os músicos passam a silhuetas, para que as palavras produzam o seu efeito maior e de foco. “Diz-me então, diz-me… / Amas-me ou não? / Diz-me então”, porque Arooj apenas canta as suas palavras, desse sentir quando adolescente. As que a canção contem, num sentido reflectivo adulto e pela mão de Moor Mother ficam sem serem ditas ali — mas que se intuem: “Eu quero acreditar / no amor, no futuro”.


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