A edição XXII do Festival MED foi apresentada no último sábado (23 de maio), no Cineteatro Louletano, à comunidade, ao país e ao mundo. A esse mundo que insiste em inventar um outro contra o qual se afirma. As novidades são inúmeras: a ampliação do recinto, a integração do mercado, os novos palcos e a renovação cénica dos antigos (a loja MED ou o espaço Lounge) são algumas delas. Depois de, nos últimos dois anos, o festival se ter debruçado sobre um país convidado (Marrocos e Cabo Verde), esta edição manifesta uma vontade de afirmação efectiva no campo da World Music, ampliando-se a latitudes mais diversificadas.
Na música, a proposta contempla trinta países e as últimas confirmações revelaram três regressos: os britânicos Asian Dub Foundation, a brasileira Tulipa Ruiz e a lendária Orquestra BaoBab do Senegal. Nomes que se emparelham aos anteriormente anunciados: Sérgio Godinho, Tiken Jah Fakoly ou Bonga — isto só para referir um por cada dia. Pois, na verdade, são trinta e quatro actuações, apenas nos palcos principais — podem ver toda a programação aqui. Uma vez mais em Loulé, território, património e comunidade procuram o encontro inesperado com o diverso e convidam o mundo a fazê-lo também. De 25 a 28 de junho, na cidade algarvia, o outro somos nós.
O coração de Loulé é um cruzamento onde se encontram quatro ruas, quatro bares e todas as pessoas de Loulé — um centro dentro do centro histórico. Uma rosa dos ventos que envia e recebe pessoas na direção dos pontos cardeais. É a partir daí que todo o sangue sai bombeado para as veias principais até às artérias mais periféricas, para alimentar os membros clássicos que, desde a antiguidade até hoje, constituem uma cidade: o mercado, o castelo, a matriz e o largo do convento. No inverno, o corpo retrai-se, confina-se, concentra-se, mas quando chega a primavera algarvia e regressam as flores às amendoeiras, o movimento inverte e expande-se. Alonga as noites. Perfuma os dias. Ilumina as fachadas. É imparável. O auge desse movimento, claro está, é o MED. Observar o microcosmos desse cruzamento ajuda-nos a compreender melhor o que é, e de que se faz, este festival. Um ponto onde tudo se cruza e conflui: a arte e a cultura, mulheres e homens de todos os cantos da Terra.
O MED é muito mais do que um festival que apresenta uma paleta de músicos imperdíveis durante quatro dias. É um evento que, como uma porta, vive de dois movimentos contrários, que se fazem da comunidade local para o mundo, e do mundo para a comunidade local. É hoje uma mancha colorida que envolve e se alastra, ano após ano, por toda a cidade. Trazer o mundo a Loulé e mostrar Loulé (e Portugal) ao mundo. Desde 2004 que o festival cresce em sentidos múltiplos, nos espaços e nas propostas. O sangue que corre nas ruas da cidade transporta a música, não há dúvidas. É esse o oxigénio que une e vitaliza uma comunidade que deseja receber e abraçar o mundo inteiro. A música é também o ponto a que tudo se agrega e alia: o povo aos povos, as tradições à história, o desconhecido ao conhecido.
Mas não se esgota na música, longe disso. Aliás, o festival ensina-nos a aceitar que, inevitavelmente, iremos perder uma parte do que ali acontece com as nossas escolhas. Não é assim a vida? Recorda-nos a ineptidão humana para a ubiquidade. Há o Cinema MED, que conta com a curadoria e programação de Rui Pedro Tendinha. As Conferências MED, reino da palavra, pretendem nesta edição extravasar as datas do festival e estender-se ao longo do ano. Há espaço para a gastronomia de vários continentes. Artistas de rua. Artesanato. Comércio local. E por entre a já múltipla, densa e eclética programação musical para os principais palcos — e como se isso não bastasse — ficam ainda por anunciar as participações nos palcos MED Classic (interior da igreja Matriz), MED Jazz (Claustro do Convento Espírito Santo ) e do novo MED Lounge.
Retomando a primeira imagem do cruzamento no centro histórico da cidade, o MED é exatamente o que ali se passa, a cada final de tarde, noite após noite: esse modo de vida local, aberto e curioso, extrapolado para uma dimensão mundial e universal, como Alexandre o quisera em tempos. Celebrar o que diverge e desejar o desconhecido é o espírito do MED. No fundo, uma concretização prática e contemporânea dessa ambição universal de Alexandre, às portas do mediterrâneo, para cá das colunas de Hércules e sobre as ruínas de civilizações anteriores à espreita por baixo do solo de Loulé.
Esse sonho alexandrino levado a sério por Joaquim Guerreiro (1967-2017), criador do MED e homenageado na apresentação, segue hoje nas mãos de Paulo Silva, director e programador do festival, distinguido nos Iberian Festival Awards deste ano nas categorias de Melhor Programa Cultural e Evento Seguro da Península Ibérica. Na sua intervenção, Telmo Pinto, presidente da autarquia, manifestou a determinação na candidatura a capital da cultura em 2028. A apresentação da edição XXII do Festival terminou com o concerto dos promissores Ão. Loulé vive por um desejo inabalável de se deixar atravessar pelo mundo.