Sete beats que fazem de Tommy Guerrero um herói esquecido

[FOTO] Benjamin Deberdt

 

Para se manter fiel a si próprio, Tommy Guerrero esteve várias vezes desalinhado de uma indústria musical que privilegia claramente os mais sintonizados com os seus timings e tendências. Além disso, Guerrero não foi especialmente feliz no momento em que dispôs da melhor oportunidade para ser realmente considerado como músico e não apenas um skater lendário que também toca guitarra. O ano de 2003 trouxe até nós o mais inspirado e conseguido disco do norte-americano (um Soul Food Taqueria repleto de calor, variedade e good vibes), mas esse foi um auge contrariado pelo arrefecimento da Mo’ Wax, o inestimável selo britânico, que teve nas mãos um dos seus mais preciosos álbuns apenas a pouco tempo de encerrar a sua actividade.

A implosão da Mo’ Wax, aliada à escassa promoção de Soul Food Taqueria, contribuíram bastante para que Tommy Guerrero – também ele algo avesso a entrevistas – não apanhasse o comboio para uma carreira talvez mais consolidada e apoiada por outra label que entendesse o valor da sua contratação. É inegável que, desde a saída forçada da Mo’ Wax, o percurso discográfico de Tommy Guerrero tem variado entre capítulos obscuros (por vezes somente lançados no Japão) e outros principalmente celebrados nas publicações que devem respeito ao skater que, em tempos, fez parte da magnífica crew Bones Brigade. Não há também como ocultar o facto de Tommy Guerrero ter alcançado o ponto alto da sua carreira num momento em que os ouvidos do mundo – cansados das enésimas réplicas de Portishead – fugiam a sete pés do trip hop (género sobejamente presente na Mo’ Wax e nos dois discos que Guerrero deixou nesse catálogo).

Contudo nenhum desses azares diminui o gozo enorme que há por descobrir em vários dos álbuns assinados pelo homem em foco. E desta vez o que nos interessa mais destacar é o Tommy Guerrero beatmaker, que, ao ser inserido na vaga downtempo/trip hop, nada deve a contemporâneos de maior estatuto como DJ Cam ou Dan Nakamura (mentor dos Lovage, Deltron 3030, etc.). A maior prova disso, tal como as anteriores linhas faziam prever, reside num Soul Food Taqueria que é uma fascinante lição em termos de como um beat, desde que bem esgalhado, pode atrair as mais diferentes companhias e dar-se bem com todas essas. Nesse mesmo conjunto de companhias o multi-instrumentista foi encontrando lugar para todo o tipo de sons de rua: desde canções de esquina aos ritmos vindos da América do Sul, sem deixar de parte a música mais lamentosa da mendigagem que abunda em São Francisco (a cidade que viu nascer Tommy Guerrero e, ao que parece, a sua principal inspiração na confecção deste álbum).

Podemos, é verdade, acusar A Little Bit of Somethin’ (primeiro disco na Mo’ Wax) de demasiado apego aos vícios downtempo e de várias faixas que não passam do esboço (embora essa fosse talvez a intenção), mas torna-se bem mais difícil acusar o sucessor Soul Food Taqueria dos mesmos defeitos. Tudo neste último é muito mais convidativo e eficiente, qual cerveja fresca a baixar a temperatura do corpo no dia mais quente do ano. Escutamos “Organism”, o tema definitivo de Tommy Guerrero e ponto de encontro com um dos seus mais excepcionais beats, e o que menos apetece é ficar em casa. Muito do que precisamos saber sobre o homem está nesta maravilhosa faixa.


 

 


Quem por acaso entender “Organism” como um golpe de sorte de um beatmaker acidental, pode eventualmente tirar as teimas com “Terra Unfirma” ou “Rusty Gears Lonely Years”, ambos chegados na mesma colheita. O primeiro tem um daqueles beats punchy, que serviria na perfeição aos Pharcyde ou aos Souls of Mischief dos dias mais gloriosos. O segundo tema – dominado por um beat bem mais orgânico – ficou de fora do álbum, mas era claramente merecedor da confiança da Mo’ Wax, que o colocou lado-a-lado com “Organism” numa das suas vistosas cópias promocionais. Para mais, o DJ que desejar ter a magia da fase Soul Food Taqueria na sua versão mais compacta e portátil precisa só mesmo de levar consigo o doze polegadas Junk Collector, que inclui os três temas destacados e outros dois.


 


Muitos anos depois, Living Dirt surge em 2010 com uma aura de álbum-mistério conduzido por um sentimento mais introspectivo e cinzento (quase desiludido) que o habitual. Não é um disco fácil de se arranjar, mas essa obscuridade assenta bem numa peça que representa claramente uma viragem no astral de Tommy Guerrero. Repara-se, por exemplo, no atrevimento e recusa que há na primeira faixa “The Sorrow of Tomorrow”: coboiada suspensa, durante nove minutos de absoluta contenção, que não deixa escapar muito mais que a guitarra e drones em diferentes direcções. Ninguém nos sujeitaria a tão prolongado deserto atmosférico se não tivesse depois como recompensar quem cortou a meta.

Living Dirt tem um início particularmente duro (para quem espera de Guerrero a boa vibe de Soul Food Taqueria), mas não demora muito tempo a devolver-nos o prodigioso beatmaker que tantas vezes nos deixou entusiasmados e boquiabertos. É indesmentível que Living Dirt inclui alguns dos mais fortes beats na galeria de Tommy Guerrero. Bastariam as pancadas certeiras de “Remain Fluid” e “L-o-v-e (Sometimes Not) U” para verificar que há por aqui um cientista reencontrado com a sua melhor forma. Com garantias rítmicas deste calibre, Living Dirt pode até dar-se ao luxo de ser, em geral, um disco estranhíssimo.

[Infelizmente, só se encontram online previews das duas faixas de Living Dirt.]


 


Lá atrás, “Keep on keepin on”, parte do disco de estreia Loose Grooves & Bastard Blues, invoca até si um dos recursos mais recorrentes numa hipotética primeira fase de Tommy Guerrero (1997-2003): o beat deliciosamente despreocupado de (e para) quem não tem horários para cumprir. Não há nada de muito espectacular em “Keep on keepin on”, contudo a faixa é da maior importância enquanto demonstração precoce da essência do Tommy Guerrero mais prático. Aqui o beat e a guitarra acústica unem-se numa mistura com o seu quê de lo-fi, que aponta naturalmente para a imagem do forasteiro que montou um modestíssimo set num bar pouco preparado para isso.


 


Em inúmeras ocasiões, Guerrero viria a reencontrar-se com essa mesma ideia do mariachi desperado acabado de chegar a uma vila cheia de pó e com um cão a mijar contra o poste. No Mans Land, editado no ano passado, representa um novo regresso em força por parte de Tommy Guerrero. Ele mesmo que, desta vez, aparenta dispor da maturidade e dos meios necessários para chegar à sua própria versão de uma banda-sonora spaghetti-western. Num extremo oposto à lo-fi de outros tempos, No Mans Land dá expressão a um renovado Tommy Guerrero mais próximo da ambição e do sentido narrativo de Ennio Morricone (perdoem-me o óbvio). E quem não desejaria escutar Morricone acompanhado pelos beats de um tipo com a escola da Mo’ Wax? “The Gunslinger” traz-nos o último beat no cardápio. Acreditem que é o encerramento perfeito.

 

 

Perpetual é o próximo disco de Tommy Guerrero. O lançamento é a 30 de Outubro e vem com carimbo da TooGood, label gerida pelo próprio músico.

Miguel Arsénio

Miguel Arsénio

Escreve, desde 2004, sobre música, filmes, actualidade no mundo e na sua querida Ericeira. Ocasionalmente também faz imitações de vozes célebres.
Miguel Arsénio