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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/06/2026

10 concertos a não perder na XXII edição do evento.

Festival MED’26: uma cartografia possível para o encontro com o Mundo

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 23/06/2026

São incontáveis os motivos para conhecermos o mundo — o povo, a geografia, o clima, a gastronomia, a cultura, a música — e o o que daí resulta é quase sempre um encontro com a beleza. A beleza do que é novo e estranho. A beleza do acaso, do outro e da arte. É esse encontro (ou reencontro) que nos propõe o MED. Um cruzamento com as vidas locais e as que chegam, as cores e os sabores, e claro, a música do mundo.

Do reggae ao dub, da eletrónica ao semba, da bossa nova ao jazz, passando pela clássica ou o funaná, são trinta nacionalidades em oito palcos diferentes ao longo de quatro dias. Mais de cinquenta concertos que desenham um mapa-múndi no centro de Loulé pronto a disputar toda a atenção. É o clássico: como planear o inesperado? Entre regressos e estreias absolutas, ancoramos dez concertos (e mais alguns) como pontos de encontro ora com o passado, ora com o futuro, para esta edição do MED.



Asian Dub Foundation (Reino Unido)

É um dos regressos mais esperados ao MED depois de um concerto marcante no palco Matriz em 2018. A banda que surgiu em 1993 nos bairros multiculturais do East London, continua a misturar punk, dub, drum’n’bass, hip hop e influências sul-asiáticas com uma energia que poucas bandas contemporâneas conseguem igualar. O guitarrista e fundador Steve “Chandrasonic” Savale revelou que uma das razões para a longevidade da banda foi nunca terem abandonado as suas raízes comunitárias. O álbum comemorativo, de 2024 — 94-Now: Collaborations  lançado para celebrar três décadas de atividade, reúne colaborações com nomes tão improváveis quanto Iggy Pop, Sinéad O’Connor, Chuck D dos Public Enemy, Primal Scream ou Nusrat Fateh Ali Khan. Ao vivo, a intensidade coletiva da banda auspicia um dos momentos potencialmente mais explosivos de todo o festival. É a escola dos 90. Dia 25 de Junho às 22H30, Palco Matriz 



Groundation (Estados Unidos)

É uma estreia no MED e para muitos fãs de reggae, os Groundation são a melhor banda do género em atividade. Liderado por Harrison Stafford e nascidos num ambiente académico de jazz da Califórnia, o grupo distingue-se pela riqueza dos arranjos, pelas longas secções instrumentais e por uma abordagem que aproxima o reggae da improvisação jazzística. Os californianos trazem na bagagem Candle Burning, o 11.º álbum de estúdio, lançado em 2025, e gravado integralmente em fita analógica nos históricos ICP Studios de Bruxelas, que confirma a obsessão da banda pelo som analógico. É precisamente em palco que atingem outra dimensão, levando muitos a considerar os discos apenas uma aproximação ao que acontece ao vivo. Dia 25 de Junho às 00H30, Palco Matriz



Lura (Portugal/Cabo Verde)

Há artistas cujos discos superam os concertos. Com Lura parece acontecer frequentemente o contrário. A cantora consegue fundir morna, coladeira, batuque e funaná de forma orgânica e ressoante e prepara um reencontro com o público do festival para celebrar trinta anos de carreira. É para dançar. Dia 25 de Junho às 23H30, Palco Cerca 



Lalalar (Turquia)

Psicadélicos frescos a partir do eixo Istambul-Berlim é a proposta dos Lalalar. O trio turco desperta alguma nostalgia pelo futuro recorrendo a amostras desenterradas dos legados da Anatólia. Depois do álbum de estreia em 2022 — Bi Cinnete Bakar — e o segundo álbum em 2023 — En Kötü Iyi Olur — os eletronic outlaws preparam um terceiro para 2026. No momento em que a cena psicadélica turca vive uma nova vaga de reconhecimento internacional, os Lalalar atravessam uma fase de criatividade borbulhante e são frequentemente apontados como um dos nomes mais relevantes desse território. Esta estreia no MED será um encontro com o novo. Dia 25 de Junho às 00H45, Palco Chafariz



Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim)

Estreia absoluta e uma vontade antiga da programação do festival MED. Fakoly é uma mestre de cerimónias e uma figura incontornável do reggae africano. Ao longo de trinta anos, construiu uma obra profundamente comprometida com questões como a democracia, a corrupção e a desigualdade social. Algumas das suas canções transformaram-se em hinos políticos entre os africanos da diáspora francesa. A presença magnética e o poder reflexivo da sua música indicia uma comunhão que ultrapassará os limites e a distância da linguagem. “Plus rien ne m’étonne” é o clássico de 2004 que continua a usufruir de uma assustadora actualidade e antevê-se como o ponto alto de um encontro com a história dos povos. Dia 26 de Junho às 00H30, Palco Matriz  



Arooj Aftab (Paquistão)

É provavelmente o nome mais aclamado pela crítica internacional em toda a programação do MED. Aftab foi a primeira artista paquistanesa a ganhar um Grammy e gosta de caracterizar a sua música como Global Soul. A cantora e compositora transforma tradições ligadas ao ghazal, à poesia urdu e ao sufismo numa linguagem contemporânea e boémia capaz de dialogar com o jazz, o folk e a música experimental. O mais recente álbum, Night Reign, consolidou a sua posição como uma das artistas mais fascinantes da atualidade. Etéreo, melancólico e poético, este concerto requer absoluto silêncio para um encontro místico com o futuro. Dia 26 de Junho às 21H30, Palco Cerca



Seun Kuti & Egypt 80 (Nigéria/França)

Mais do que o filho de Fela Kuti, Seun é desde os 14 anos o guardião de uma das bandas mais importantes da história da música africana. À frente da lendária Egypt 80, perpetua o legado do afrobeat com a mesma combinação de groove, consciência política e poder rítmico que tornou o pai uma figura incontornável. O álbum Heavier Yet (Lays The Crownless Head)de 2024, produzido por Lenny Kravitz, cruzou a fórmula viva e relevante do afrobeat com funk, soul, reggae e rock para animar canções de protesto dirigidas contra opressão económica, corrupção e injustiça social. Em palco, uma secção de sopros coesa, os múltiplos percussionistas e o carisma de Seun Kuti transformam energia em movimento irresistível para a plateia. Dificilmente outro convite seria mais apelativo para o encontro com o presente global africano. Dia 26 de Junho às 1H30, Palco Cerca 



Bonga (Angola)

Bonga é uma das figuras mais importantes da música lusófona das últimas cinco décadas e a voz  emblemática da independência angolana. Aos oitenta e quatro anos, o artista prepara-se para um regresso histórico e emocional ao MED. O novo single lançado em 2026 – “Saudade de Luanda” – mostra que não atravessa nenhuma crise criativa, nem lhe falta a vontade e o talento. O carisma e a habilidade para cantar vidas numa voz telúrica ao som do semba e das sonoridades atlânticas, garantem um dos mais autênticos, emocionais e memoráveis concertos desta edição. Dia 27 de Junho às 1H30, Palco Cerca



Orchestra Baobab (Senegal)

Poucos grupos personificam o espírito duradouro da música africana como a lendária Orchestra Baobab. Formada há mais de 50 anos em Dakar, a fusão intemporal de ritmos afro-cubanos, tradições griot wolof, mbalax, highlife e jazz continua a ressoar entre gerações e continentes. Apesar do falecimento de vários membros fundadores na última década, incluindo Rudy Gomis (2022), vocalista e percussionista de longa data, a orquestra evoluiu organicamente, com filhos, sobrinhos e colaboradores antigos, levando o legado adiante. É tempo de uma nova era para o grupo. A actual formação combina músicos veteranos com uma geração mais jovem moldada pela influência do Baobab. O vocalista Zacharia “Papino” Koité, o percussionista Moussa Cissokho, o baixista Malick Sy, o guitarrista René “Bolero” Sowatche, a vocalista Korka Dieng e o saxofonista/trombonista Wilfrid Zinzou alimentam a tradição da orquestra com calor, ritmo e talento. Antecipa-se um cruzamento da memória com o futuro. Dia 27 de Junho às 21H30, Palco Cerca



Arnaldo Antunes (Brasil)

Poeta, compositor e performer, Arnaldo Antunes ocupa um lugar singular na cultura brasileira. Não foram muitos os artistas que conseguiram ser simultaneamente influentes no rock, na pop, na poesia e na música experimental. O álbum de 2025 — Novo Mundo — confirmou uma fase particularmente criativa da sua carreira e contou com colaborações assinaláveis como David Byrne, Marisa Monte, VANDAL e Ana Frango Eléctrico. Este concerto é um espetáculo pensado como uma obra. Espera-nos a arte neste encontro. Dia 27 de Junho às 23H30, Palco Cerca


Paulo Silva: “O MED transformou completamente o centro histórico de Loulé”


Além destes dez concertos, é notável um cruzamento peculiar entre o passado, o presente e o futuro da música portuguesa na edição XXII do MED. É o caso de Sérgio Godinho, às 21h30 no Palco Cerca, no primeiro dia. No segundo, Tó Trips & Fake Latinos, apresentam Dissidente às 21h45 no Palco Castelo. E o futuro às mãos dos Expresso Transatlântico, às 22h45 no Palco Chafariz com o seu terceiro álbum Trópico Paranóia. Fidju Kitxora, projecto emergente e promissor da lusofonia que lançou em Abril — Ti Manxe — fecha a última madrugada do MED, às 2h30 no Palco Matriz

Estreias e regressos emparelham tradição e novidade numa cartografia possível para um roteiro que pertence inevitavelmente ao acaso e às possibilidades que o MED oferece ano após ano.

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