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Fotografia: Tomás Silva
Publicado a: 27/05/2026

Na antecipação da edição deste ano do festival algarvio.

Paulo Silva: “O MED transformou completamente o centro histórico de Loulé”

Fotografia: Tomás Silva
Publicado a: 27/05/2026

Vem-nos à memória uma frase batida: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” A verdade pessoana que, como quase sempre, se afigura irrebatível e insolente, oculta outra verdade que não é pequena. Quase sempre, permanece oculto o pensamento depois de sonhada a obra, esse trabalho que alimenta a expansão, ano após ano. Do momento original, em 2004, até ao presente, o Festival MED operou uma revolução no centro histórico de Loulé. A partir do sonho de Joaquim Guerreiro e às mãos de Paulo Silva, seduziu vizinhos para um sentido comunitário e cosmopolita que rareia entre as cidades periféricas (talvez entre as outras também). Vinte e dois anos depois, o MED é o orgulho dos louletanos. A força que iluminou e coloriu as vidas e o património da cidade algarvia e  restitui-lhe a memória para a oferecer ao mundo.

Parece demonstrar-se algum do papel da cultura e da música num futuro colectivo, eventualmente para os múltiplos presentes por esse Portugal adentro. Agregar espíritos, reunir vontades em torno de um sonho inicial, dar-lhe forma e experimentá-lo, parecem sugerir os louletanos nestes 22 anos. Quebrar inércias e reticências iniciais e afirmar o olhar no horizonte é o seu maior feito. O crescimento do MED em todas as direções, talvez se explique, com uma sede insaciável e uma certa incapacidade para se resignar diante o que alcançou.

Na apresentação da edição mais internacional de sempre, encontrámos Paulo Silva, actual director e programador, no sábado (23 maio), no Mercado de Loulé, para uma conversa que atravessou razões e percalços iniciais até às novidades e destaques desta 22ª edição. Os cartazes são visíveis. Os concertos também. Nem sempre vemos o pensamento que lhes dá forma, o trabalho que os sustenta, e o seu impacto na comunidade local.



O Paulo está ligado ao MED desde a primeira edição.

Sim, eu comecei na produção em 2004, ainda o MED não acontecia aqui no centro histórico, mas ali junto à estátua Eduardo Pacheco, num só palco. Inseria-se na programação do Euro 2004. E falhou tudo. [risos] O conceito estava lá, mas o enquadramento foi completamente errado. Durante o Euro existiam as chamadas fan zones nas cidades. E, claro, o pessoal ia ver o futebol, queria música festiva e comercial. Como essa oferta já existia na cidade Faro aqui ao lado, pensámos em fazer qualquer coisa diferente: trazer músicos dos países que participavam no europeu, com a esperança que as pessoas se identificassem mais depressa. Mas as pessoas não se identificaram. Houve noites em que havia mais pessoas em palco do que a assistir, infelizmente.

Quando perceberam que o festival tinha potencial para crescer? 

Apesar desse falhanço, nós sentimos que o conceito estava lá e fazia sentido. Só não estávamos com o enquadramento favorável e no local certo. Na altura, conversámos com o presidente da autarquia para o convencer a mudar o festival para o centro histórico, e conseguimos. Criámos dois palcos no centro histórico, numa edição mais tímida, e recebemos mil pessoas – foi engraçadinho. No segundo repetimos com um pouco mais de público. Ao terceiro ano a palavra começou a passar. No quarto ano o festival volta a crescer e a partir da quinta edição começámos a alcançar uma dimensão nacional. Aumentámos o número de palcos, duplicámos o recinto e, a partir daí até agora, foi sempre a crescer. 

Sempre no território da world music.

Esse sempre foi o ADN do festival. Nós éramos muito fãs do FMM em Sines que tinha começado cinco anos antes. Fomos às primeiras edições e gostámos imenso. Depois tivemos oportunidade de ir a Espanha ver alguns festivais dentro desse território musical e, como no Algarve não havia nenhum tipo de oferta dedicado à world music, pensámos em testar e experimentar. E funcionou! 

Resistiram à tentação, quase transversal aqui no Algarve, de levar o festival para junto da praia. 

Isso foi uma questão pensada logo desde o início. No Algarve há sempre essa tendência de irmos para a beira mar. É lá que está o turismo, que está o consumo de música, e queiramos ou não, é onde está o dinheiro. Mas o Algarve sempre foi muito conhecido pela cena electrónica, os DJs, o chill out, os sunsets, a música comercial, as festas do marisco, essas coisas todas. Nós queríamos uma proposta diferente para Loulé. Na altura, o Joaquim Guerreiro falou-nos deste conceito que começámos a explorar e implementámos aqui na cidade. No inicio foi difícil porque a aceitação popular não foi a melhor. Lá está, havia esse hábito das propostas incidirem sobre bandas conhecidas, artistas da moda, os DJs do momento, e nós vínhamos com uma ideia completamente diferente. Nada que ver com isso, nada comercial. Surgiam algumas reticências e os próprios moradores não concordavam muito. Mas agora é impossível tirar o MED daqui. Se eu tiro o MED daqui, meu deus! 

A ideia que fica das últimas edições é precisamente essa. Os moradores, a comunidade, o património estão completamente integrados no festival, é mesmo assim? 

Completamente. Sentem orgulho no MED. Inclusivamente, ao longo do ano, vão perguntando nas redes sociais pelo cartaz do festival. Há muita curiosidade e muita participação. Eu recordo-me que, nas primeiras edições, havia alguma resistência, por exemplo, para um restaurante abrir durante o MED, sentiam que era um caos, que não vinha ninguém, que as pessoas só vinham para ouvir música. Com o tempo começaram a perceber que o festival tem um ecossistema muito próprio. As pessoas vêm cá pela música mas também pelo ambiente que o rodeia. O MED não é só música, vamos desde o artesanato à poesia, passamos pelo cinema, pela gastronomia. Fomos desenvolvendo todas essas vertentes e as pessoas de Loulé começaram a sentir esse orgulho quando perceberam que vinha gente de todo o país ao festival. Ao ponto da zona histórica se ter transformando completamente. Para perceberem: aqui havia dois ou três restaurantes. Não havia bares. Poucas lojas. Tínhamos uma zona histórica muito degradada, muito estragada. Com o passar dos anos, foram abrindo bares, uma galeria de arte, lojas pop-up, outras ligadas ao artesanato. Tudo isso trouxe vida a esta zona da cidade e fez com que, quem tinha cá casas, acabasse por as renovar. Existe uma dinâmica hoje, aqui no centro histórico, que há vinte anos era impossível pensar que alcançaria a vida que tem agora. 

O MED tem um papel decisivo nessa revitalização? 

Sem dúvida alguma! Inclusivamente, muita gente de Loulé descobriu esta zona por causa do festival. O pessoal não conhecia, nunca vinha para cá porque não havia nada. Havia um série de casas velhas, dois restaurantes que recebiam alguns turistas porque estavam junto ao mercado municipal, mas não passavam daí. Quando olhavam além disso, viam paredes e casas degradadas e pensavam que não acontecia nada. E não acontecia de facto. Actualmente, não se compara. É um mundo completamente diferente. Quem conheceu esta zona há vinte anos e quem conhece agora, sabe que foi uma transformação como da água para o vinho. 

Podemos dizer que hoje é o principal evento de Loulé? 

Sim, podemos dizer isso mas também temos eventos de grande escala. A noite branca, por exemplo, junta, de dois em dois anos, cerca de 70 mil pessoas. É, contudo, um evento de outro cariz. Mais dedicado à música electrónica, ao lifestyle e com um conceito muito próprio. Toda a gente se veste de branco e a questão da luz é muito trabalhada — a ideia é vir a Loulé à noite e parecer que é dia. Tudo iluminado, tudo funcional, com o comércio local todo aberto. Depois há o carnaval que é enorme — é o mais antigo de Portugal com mais de cem anos. Mas se pedirem a alguém de Loulé para escolher um evento que marca mais a cidade, sem dúvida, que é o MED.

Todos percebemos que a autarquia tem um papel decisivo no MED. Qual é esse papel? 

Economicamente, a autarquia assume todo o festival. Temos muito parceiros, mas são parceiros de serviços. A equipa da câmara municipal que assegura o funcionamento do festival envolve cerca de 300 pessoas — a ação social, o ambiente, o trânsito, a eletricidade, a carpintaria, o gabinete de eventos, o turismo, a economia local — são imensos funcionários da autarquia. Recorremos a serviços externos, sobretudo, nas questões técnicas: o som, a luz, os palcos, a comunicação e a segurança. 

Ou seja, é um festival que dura quatro dias mas que se estende bem além disso ao longo do ano? Hoje, por exemplo, temos o concerto de apresentação com os Ão. 

O concerto de apresentação acontece um mês antes do festival e, há uns anos, que o fazemos no Cineteatro Louletano. Este ano a nossa a ideia é tornar o festival a cereja no topo do bolo caminhando na direção do conceito Cidade MED. Vamos tentar, ao longo do ano, manter estas dinâmicas, esta vibe do festival, através de actividades como workshops, DJ sets, exposições e conferências. Nas edições anteriores decorávamos a zona histórica só para o evento, desta vez antecipámos e ampliámos a decoração da cidade, porque percebemos e sentimos que esta energia do MED se extravasa muito além das datas do festival e do centro histórico. Começamos a olhar para toda a cidade, com decoração e ativações da marca em várias zonas, que irão acontecer a partir deste sábado (23 de maio). A maioria delas será revelada apenas na véspera para manter a coerência com a essência do MED que é a surpresa e a descoberta.  

O MED não tem para esta edição um país convidado como aconteceu nos últimos dois com Marrocos e Cabo Verde respetivamente. Qual é a razão para isso?

Foi uma opção. Começámos esse processo do país convidado há dois anos e a ideia é boa. Foi muito bom e correu muito bem. No entanto, consideramos que o foco, mesmo ao nível da comunicação, se desviou demasiado para a questão do país convidado. Houve algum afunilamento e a diversidade que tanto defendemos acabou por perder protagonismo. Penso que será uma abordagem que, futuramente, vai regressar, talvez noutros modos e pensada de outra forma, mas nesta edição e provavelmente na próxima, a ideia é recentrar o festival no seu ADN: a world music e a diversidade de sonoridades.  

Esse reposicionamento pretende abranger mais nacionalidades e latitudes mais diversificadas.

Sim, trazer países que nunca estiveram por cá. Ao longo deste percurso tivemos cerca de 76 nacionalidades, mas o mundo é grande e ainda temos outro tanto por explorar. Este ano teremos um país que nunca esteve cá que é a Bielorrússia representada por Yegor Zabelov. Na a próxima edição o objectivo é chegar a ali à zona da Austrália porque ainda não fomos para a Oceânia. Estamos cá há 22 anos e nunca conseguimos lá chegar. Fizemos várias tentativas, mas ainda não chegámos lá. O objectivo é tentar cobrir o mundo inteiro e trazer sonoridades que, se não for aqui, não haverá muitas oportunidades para que as pessoas vejam ao vivo esses concertos e artistas. Todos os anos tentamos trazer uma nacionalidade ou uma sonoridade nova. Este ano vamos ter a edição mais internacional de sempre — vão estar cá 30 nacionalidades. Para o ano, pela forma como já estamos a desenhar o cartaz, esperamos chegar às 35. 

Este trabalho é sempre de antecipação e de longo prazo. 

É, já estamos a trabalhar no próximo. Até porque, hoje em dia, as tours são desenhadas com antecedência e temos que nos preparar. Em Outubro, iremos ao WOMEX, que este ano será nas canárias. É lá e noutros certames que acontecem coisas muito interessantes e onde descobrimos algumas das coisas novas que trazemos para o cartaz do MED ano após ano. No início, quando comecei nesta área da programação eu procurava muito — e continuo a procurar muito — mas com o crescimento do festival, as coisas inverteram-se um pouco. As coisas começaram a vir ter connosco, a bater à porta e tive oportunidade de descobrir bandas que nunca me passaria pela cabeça ter oportunidade de ver e mostrar. Com plataformas — como o Spotify, o YouTube, etc. — que nos facilitam o acesso a tudo é interessante, por outra, ter tudo é demasiado. Muitas vezes os algoritmos levam-nos para os mesmos sítios, parece que estamos sempre em loop, e temos que estar constantemente a explorar além disso. Tentámos sempre trazer tudo o que possa ser diferente e, fruto dessa inversão, de serem as próprias bandas a contactarem-nos tem sido maravilhoso. Encontrámos bandas com sonoridades que não conhecia, não fazia a mínima ideia. Surgem até alguns países que eu não sei muito bem — não fosse o senhor Google — como localiza-los no mapa, essa parte é maravilhosa.  



É sempre um exercício complicado e, talvez injusto, mas quais os artistas desta edição que lhe provocam mais expectativa, mais entusiasmo e vontade para mostrar ao público do MED?

Ora bem, vamos tentar dividir isto por dias. Começando pelo primeiro dia destacaria, talvez, o Sérgio Godinho. É a primeira vez que vai estar no festival, ele ficou super empolgado em vir cá e é um nome incontornável da nossa música. Gostaria, por outro lado, de destacar a Lura que vai comemorar os trinta anos de carreira aqui no MED. O regresso dos Asian Dub Foundation que fizeram um dos melhores concertos aqui há uns anos no festival. Os Groundation, talvez uma das melhores bandas de reggae da atualidade. No segundo dia, sem dúvida, o Tiken Jah Fakoly. Era um nome que nós perseguíamos há vários anos, mas as datas dele estavam sempre preenchidas – o rapaz toca bastante. O Mário Lúcio é um grande nome de Cabo Verde. Temos o regresso dos Expresso Transatlântico, uma das bandas que mais gosto na actualidade, das melhores coisas que apareceu nos últimos anos. No último dia, a estreia dos Kosa Nostra, uma banda grega que faz um rock com instrumentos gregos e que, penso, irá surpreender toda a gente. Têm muita, muita energia. Los Van Van é uma banda mítica da música cubana e o regresso da Natacha Atlas. Há muito que desejávamos o regresso dela ao festival, este ano ela tem um projeto novo, sentimos que a sonoridade dela define muito do que é o MED.

Mantendo essa diversidade conseguem sempre equilibrar a participação de artistas emergentes com a de artistas mais consagrados. 

Sim, a ideia do festival é sempre fazer este balanço entre artistas e bandas consagradas e dar palco a projectos emergentes da área da world music, como o caso dos Lalalar. Parece-me que será uma das grandes surpresas por causa da atitude punk muito forte deles. Ou, por outra, os Bohemian Betyars que são fantásticos ao vivo, são máquinas de som. Essa aposta tem sido constante, temos conseguido ao longo dos anos fazer esse balanço entre o consagrado e o emergente, entre o internacional e o nacional. O MED funciona como uma montra: daqui para o mundo, mas simultaneamente, do mundo para aqui. Para quem nos visita é, também, importante perceber o que está a ser feito por cá. Queiramos ou não, há sempre essa ideia de que Portugal é fado. Vou a muitas feiras internacionais e quando falamos de Portugal acabamos sempre no fado. Portugal tem muito mais. 

Num universo de centenas de propostas, o que distingue um artista capaz de integrar o cartaz do MED?  

Nós recebemos imensas propostas. Não consigo ouvir todas porque são centenas e centenas de delas, mas tentamos sempre ter em conta uma diferenciação de sonoridades. Tentamos não ter estilos musicais repetidos no mesmo ano para conseguirmos diversificar ao máximo. A ideia é dar a conhecer às pessoas sonoridades novas e mostrar bandas que não se encontram nem têm espaço noutros festivais.   

Sabemos que haverá várias alterações na logística desta edição. Alargamento do recinto, novos palcos, integração do mercado, novas entradas e mesmo essa diversificação de latitudes na programação. De alguma maneira, desejam atrair mais pessoas e isto resulta de uma insatisfação com os números?

De maneira nenhuma. Os números são bons demais. A lotação dentro da zona histórica é de 15 mil pessoas por noite — além dos moradores — e fomos notando, especialmente, no pós-pandemia, que o recinto estava demasiado cheio. Nesses momentos, e como temos os palcos bem distribuídos pelo recinto, às vezes, pode tornar-se muito complicado chegar a cada um deles. Portanto, a ideia é alargar o recinto, mantendo a lotação nos 15 mil, para permitir melhor fluidez e mais conforto. Além disso, vamos ter novos espaços, acessos a novas ruas, novas artérias que permitem distribuir melhor as pessoas e abrir vários caminhos para chegar a um palco. Muitas vezes acaba um concerto, está a começar outro num palco diferente, pensamos que estamos lá em cinco minutos, mas afinal demoramos quinze e perdemos o início. Foi a pensar nisso que fizemos este alargamento. No MED, muitos dos concertos acontecem em simultâneo e algumas pessoas queixam-se disso, gostavam de ver tudo o que acontece. Mas trata-se de uma necessidade, o palco com maior lotação é o matriz (5 mil), significa que os restantes dez mil não vão conseguir ver, por isso temos que lhes proporcionar uma oferta diferenciada, noutros locais. Não colocamos dois palcos em simultâneo com o mesmo estilo, para podermos distribuir os públicos pelo recinto e permitir que toda a gente tenha oportunidade de fazer um circuito e ver o que lhe interessa. Embora saibamos que há nomes mais consensuais, por exemplo, este ano os Asian Dub Fundation toda a gente vai querer ver. Tivemos que arranjar duas ou três alternativas para aqueles que não o consigam. 

Em relação aos palcos, mantêm os principais, mas há novidades?

Sim, mantemos os cinco principais — o Matriz, o Cerca, o Castelo, o Chafariz e o Hamman — mas haverá surpresas. Até agora eram, digamos, palcos normais. Este ano quisemos dar-lhes uma identidade própria e desenhámos cinco novos visuais para cada um, mas não iremos revelar, será uma surpresa. Depois, começa logo pela integração total do mercado no recinto transformado num novo palco com programação. Temos uma nova zona, pensada para a descompressão, que é o MED lounge cuja curadoria será feita por DJ local ligado à world music eletrónica, mas numa versão ambient, mais calma, para recuperar energias.

O MED é um festival familiar, há sempre imensas famílias e crianças no recinto e a ver os concertos. Essa é uma característica que desejam manter e continuar a fomentar? 

Sim, sem dúvida. O MED Kids é uma área que queremos manter e este ano passa para o espaço junto à cerca do convento, onde era a zona do país convidado nas últimas edições. Nas próximas edições, pensamos em começar o festival mais cedo, até para reforçar esse carácter familiar. O próprio cartaz é desenhado em crescendo. Não temos fado às duas da manhã, nem DJs às sete da tarde. É pensado para as famílias que estão no recinto até as onze horas, meia-noite, e a partir daí, é desenhado para outro tipo de público. Reforçamos esse carácter também ao tornar as exposições interactivas. Por exemplo, vamos ter a exposição de instrumentos do mediterrâneo, na galeria de arte, onde as crianças vão ter workshops e ainda a oportunidade de os experimentar. No domingo, no dia aberto, poderão assistir ao concerto com esses instrumentos. 

Na alimentação também haverá novidades, não é? 

A área de restauração vai duplicar no tamanho e na oferta. Teremos gastronomia da América do Sul, asiática, norte-americana. Será muito mais diversificado do que nas edições anteriores. Aliás, um dos objectivos para os próximos anos é conjugar os países que estão presentes a nível musical com a oferta gastronómica. É um pouco mais complexo, nós sabemos, mas o objectivo é fazer a ligação entre os palcos e a gastronomia. 

Sobra ainda espaço para os artistas de rua?  

Claro. Também duplicámos a oferta para esta edição. Teremos quatro grupos de artes de rua por noite. Desde a música, ao teatro, à poesia, ao novo circo, batalhas de hip hop, rancho folclórico, cante alentejano, fanfarras, batucadeiras, bem, são imensas coisas. A oferta, este ano, é muito extensa e diversificada e a ideia foi reforça-la para quem vagueia pelas ruas da cidade velha. 

Enquanto assistimos ao aumento gradual e progressivo dos valores de entradas, um pouco por todos os festivais, o MED tem resistido. Há alguma novidade em relação à bilhetes? 

Vamos manter o valor dos últimos quatro anos. As políticas culturais do município olham para o MED como um grande investimento. Ao nível da economia local o MED tem um impacto enorme na restauração, na hotelaria e no comercio local. É uma opção pensada e consciente manter o preço. Nunca procuramos patrocinadores para o festival para podermos seguir esta linha sem compromissos que nos limitem ou nos levem abdicar de algumas coisas que são importantes para nós. O que vamos fazer é simplificar as entradas. Nas últimas edições o bilhete dava acesso a uma pulseira, o que causava duas filas, nesta as pessoas vão usar apenas o bilhete para entrar e sair do recinto.

Actualmente a preocupação ambiental deve estar no centro das decisões da organização de qualquer festival. O que têm feito nesse sentido?

A primeira vez que nos centrámos nessa questão foi quando criámos o copo ecológico. Fomos dos primeiros festivais a fazê-lo. Isso fez com que reduzíssemos o lixo produzido no recinto em cerca de uma tonelada por dia. O nosso copo é gratuito é, de facto, reutilizável e pode ser usado ao longo dos vários dias. Além disso, as pessoas podem entrar com o seu copo desde que seja de plástico reutilizável, mesmo os de outros festivais. Temos também várias iniciativas ecológicas e de preocupação ambiental, como por exemplo, recuperámos e reciclámos todo o merchandising das edições anteriores para a criação de arte plástica, espalhámos depósitos para pastilhas elásticas, criámos e distribuímos cinzeiros. 

Alguma mensagem particular para o público desta edição do MED?

O público do MED é um público que procura descobertas, procura alternativas à oferta mainstream. Sabemos que temos um público muito fiel. Há pouco tempo fizemos um estudo sobre o público do festival e percebemos que 80 por cento das pessoas que vieram a uma edição voltam no ano seguinte. É um público muito heterogéneo que nos chega das mais diversas origens. Muita gente de Inglaterra e Espanha, mas também da Alemanha, França e, surpreendentemente, também do Norte de África. Por isso, o que posso dizer é venham ao MED, com calma, com paciência e  vontade de descobrir e ver algo diferente.


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