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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/06/2026

Num dos trios mais coesos da cena jazz nacional.

André Rosinha antes do concerto no CCB: “Raiz surge de uma necessidade de explorar a música tradicional portuguesa e o fado”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/06/2026

Há muito que André Rosinha vem construindo um percurso discreto, mas de uma consistência invulgar, afirmando-se não apenas como um dos mais sólidos contrabaixistas portugueses da sua geração, mas também como compositor atento às possibilidades de encontro entre linguagens. Depois de Árvore (2019) e Triskel (2022), ambos distinguidos pela crítica e gravados com o mesmo trio completado pelo pianista João Paulo Esteves da Silva e pelo baterista Marcos Cavaleiro, chegou em 2025 Raiz, um novo capítulo que aprofunda uma inquietação antiga: a procura de um ponto de contacto entre a tradição musical portuguesa, o jazz e a liberdade do improviso.

Longe de qualquer gesto revivalista, Raiz procura antes compreender como essas diferentes heranças podem coexistir numa linguagem contemporânea. O concerto marcado para 3 de Julho no Centro Cultural de Belém representa uma nova possibilidade de constatar ao vivo o sucesso do desafio artístico que Rosinha, Esteves da Silva e Cavaleiro traduziram nesse registo e assinala também a consolidação de uma das formações mais coesas do jazz português actual, um trio cuja cumplicidade foi sendo construída ao longo de quase uma década de trabalho comum. Nesta entrevista, André Rosinha fala dessa “telepatia musical”, da singularidade de João Paulo Esteves da Silva e Marcos Cavaleiro, da arquitectura intemporal do trio com piano, das raízes que continuam a alimentar a sua música e ainda desvenda um pouco do que lhe poderá reservar o futuro mais imediato.



Que significado assume a palavra Raiz no contexto deste trabalho? Estamos a falar de raízes musicais, culturais, identitárias ou de uma ideia mais ampla de pertença?

O título Raiz surge de uma procura e de uma necessidade minha de explorar a música portuguesa, em especial o fado e a música tradicional. Sentia que já tinha algumas dessas sonoridades em mim, mas queria levá-las mais além. É nesse sentido que este disco me permitiu explorar a raiz desses universos musicais e escrever novo repertório para o trio.

Neste disco procuras aproximar, como declaras no texto de apresentação, o jazz, a música tradicional portuguesa e o improviso. Como foi o processo de encontrar um equilíbrio entre estes universos sem que nenhum deles se tornasse apenas uma referência secundária?

Na realidade, acabou por ser um processo bastante natural. Eu mergulhei durante vários meses na música tradicional e, principalmente, frequentei casas de fado para ouvir esta linguagem em primeira mão. A dado momento, começaram a surgir melodias na minha cabeça e, vindo eu do jazz, estes dois mundos encontraram formas de encaixar. Julgo que o tema “Oração” é um bom exemplo desse equilíbrio, tanto no take instrumental, como na versão que conta com a interpretação exímia do cantor João Neves, com a bonita letra da minha amiga Rita Dias.

O trio com piano é uma das formações mais clássicas da história do jazz. O que te atrai particularmente nesta arquitetura instrumental e que possibilidades ela oferece que talvez não encontrasses noutras formações?

Desde que comecei a ouvir e a tocar jazz que as formações de trio foram as minhas preferidas, especialmente a de piano. Sinto que nesta formação podemos ter o melhor de dois mundos: a força e intensidade de uma banda maior, mas também a fragilidade e delicadeza de um grupo pequeno; e, para mim, o mais importante neste contexto é o espaço, não só no sentido de se conseguir fazer música menos densa, mas também por se dar palco e voz aos três intervenientes.

Sendo tu o contrabaixista e também o compositor do projeto, como pensas a distribuição de papéis dentro do trio? Escreves já a imaginar a forma como João Paulo Esteves da Silva e Marcos Cavaleiro irão habitar e transformar o material?

Sim, atualmente, quando escrevo música nova para o trio, faço-o já a pensar em como irá soar com eles. Sou um grande admirador das qualidades musicais do João Paulo e do Marcos e creio que musicalmente nos entendemos muito bem. Vemos a música de forma muito similar, tanto que quando experimentamos temas novos, não tenho de explicar muita coisa porque há uma espécie de telepatia musical. Entre nós, a música simplesmente acontece.

João Paulo Esteves da Silva tem uma linguagem muito singular, construída tanto a partir do jazz como de outras tradições musicais. O que é que a sua presença acrescenta a este universo que imaginaste para Raiz?

A presença do João Paulo traz a este disco a identidade portuguesa que eu procurava. Na verdade, é o pianista perfeito para este disco, porque sinto que a música composta por ele também se revê nestes três pontos fulcrais: a ideia de juntar música tradicional portuguesa, o jazz e a improvisação livre. 

Marcos Cavaleiro é frequentemente destacado pela sua capacidade de escuta e de intervenção precisa. De que forma o seu contributo influencia a dinâmica do trio e a maneira como a música respira em palco?

O Marcos é um músico que está totalmente presente no momento e que está em constante em procura. Vai para palco sem nenhum limite traçado, o que permite que a música vá para diferentes sítios. Para além disso, fora do palco, o Marcos dá bastante input à música que andamos a tocar e contribui com ideias a experimentar, o que é muito enriquecedor.

Este é já o terceiro álbum consecutivo com esta formação. Que mudanças sentes na relação musical entre os três desde Árvore e Triskel até chegar a Raiz?

Ao longo destes 7/8 anos, o crescimento do trio foi enorme. A cumplicidade foi crescendo de uma forma muito natural e já quase que existe uma espécie de telepatia musical. Temos vindo a evoluir juntos e a explorar mundos e sonoridades cada vez mais próximos.

A ideia de “regresso às raízes” surge no texto de apresentação como uma resposta a um mundo marcado pela velocidade e pelo consumo imediato. De que forma essa reflexão se traduz musicalmente no álbum?

Muito daquilo que consumimos hoje é facilmente descartável. Andamos constantemente à procura da próxima novidade. E também isso acontece na música. Qual o próximo hit que vai bater? Na verdade, o jazz já é um estilo que em princípio, para ser realmente usufruído, obriga a outra postura na escuta. Para além disso, o regresso às origens exige uma disponibilidade e abertura para olhar para o que já foi feito e aprendermos com isso. É nessa medida que este álbum surge dessa reflexão. O Raiz, apesar de ser um disco de jazz, é também um disco de canções, com muitas melodias características da identidade do nosso país (como é o caso do tema “Ladainha”, em que procurei escrever uma melodia que soasse à tradição portuguesa, ainda que convivendo com o espaço e a liberdade do jazz).

Quão importante é o palco para ti e como distingues esses momentos em que tens por diante uma plateia atenta daqueles em que estás com os teus companheiros em estúdio e o público é ainda e apenas uma entidade abstracta?

São, para mim, dois momentos muito distintos. Em estúdio, em princípio, os temas ainda estão menos rodados e explorados, o que faz com que ainda não estejamos 100% relaxados. Há a pressão de criar momentos que ficarão gravados para a posteridade. Depois existe o ambiente de palco, em que a base já está bem definida e sólida e em que nos permitimos curtir sem medos. Uma das muitas magias do jazz é que não há dois momentos iguais. Somos livres de explorar caminhos ainda por desbravar. É aí que me sinto realmente feliz. E o público também tem um papel importante. Acaba por ser o quarto elemento da banda. O entusiasmo deles (ou a falta de) é inevitavelmente contagiante. Na pandemia, fiz alguns concertos em live stream e foram muito solitários e desconfortáveis para mim. Nem que seja pelo vazio que paira quando terminamos a apresentação. 

Planos para o futuro mais imediato? Mais apresentações? Colaborações? Novos projectos em nome próprio?

O trio tem já um novo disco preparado que, provavelmente, sairá já no próximo ano. Antes disso, teremos concerto do Raiz no CCB a 3 de Julho e outras apresentações depois do Verão. Para além desta formação, comecei também a explorar o contrabaixo solo, do qual nasceu o novo álbum Ermo, lançado no passado mês de Abril. Um enorme desafio, mas estou muito feliz com o resultado final. Além destes dois importantes projetos, talvez esteja também a iniciar um novo duo com o meu amigo e excelente guitarrista Bruno Chaveiro (guitarra portuguesa). Veremos o que nasce destas novas ideias!


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