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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 01/07/2026
Tags: Calcutá

A artista tem percorrido Portugal de Norte a Sul para apresentar ao vivo o seu primeiro LP.

Calcutá sobre Soon After Dawn: “Não sinto este álbum como um início. Sinto-o como uma afirmação”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 01/07/2026
Tags: Calcutá

Soon After Dawn é o amanhecer de Calcutá, quase dez anos após o lançamento do EP Over Night, em 2017. Pelo meio de concertos, estudos, colaborações, projetos paralelos de composição para teatro e instalações sonoras: eis o primeiro álbum. Não é o início. É uma afirmação artística que chegou em janeiro depois de atravessar uma mudança de cidade, um mestrado em som, leituras de filosofia e conceitos de Carl Jung. 

Calcutá “não é apenas um nome artístico: é um território sónico cuidadosamente habitado por Teresa Castro”, assinou Vitor Rua na crítica ao álbum para o Rimas e Batidas. Precisamente um espaço de longas respirações e uma alvorada depois de um mergulho demorado na “dark night of the soul” — essa sombra que cobre memórias, pensamentos e sentimentos reprimidos.  

Com vários concertos pela frente, atua na Primeira Box, do Coliseu do Porto, já a 6 de Julho, mas tem também passagens marcadas para festivais como o Extremo e o Bons Sons, depois de mais de uma dezena de datas ao vivo que já cumpriu ao longo de 2026. Este foi o pano de fundo da conversa entre Calcutá e o Rimas e Batidas, passando pelas raízes das composições, as escolhas que moldaram o álbum e a abertura para os Tinariwen na Casa da Música e no LAV em Abril passado.



A primeira vez que te vi ao vivo foi na Casa da Música na abertura dos Tinariwen em Abril. Toda a gente ficou surpreendida, ficaste com essa sensação? 

Pois, porque foi bem à última da hora que me convidaram para aquele concerto, e aquilo não foi anunciado, então ninguém sabia que ia haver uma primeira parte. Também me disseram: “Mas o quê?  Os Tinariwen não têm uma mulher na banda, o que se está a passar aqui?” Tive algumas pessoas que me disseram isso, mas adorei esse concerto. Aquela sala é muito especial.

Como é que isso aconteceu? 

O produtor destes concertos, tanto no Porto, na Casa da Música, como no do Lisboa ao Vivo (LAV), estava à procura de um opening act e contactou-me. Deve ter ouvido o meu álbum, não sei. Contactou-me, fiquei logo super entusiasmada com essa ideia e adorei. Esse concerto na Casa da Música foi o melhor concerto que eu já dei. Apesar de ter sido só meia hora, foi mesmo muito especial.

Isso ficou no ar. Inclusivamente pareceu-me que a tua actuação se ligou muito bem ao território deles. O que achas disso? Essa relação existe? 

Sim, de certa forma existe. A música deles também tem um movimento e é muito repetitiva. Às tantas parece que estás a ouvir a mesma música o concerto todo. Por outro lado, aquela linguagem de só uma nota, apesar de eles não usarem drones, as tonalidades deles estão sempre, praticamente em quase todas as músicas, numa nota que se vai mantendo ao longo dos acordes. Mas sim, eu vejo isso. Por acaso, o imaginário de Calcutá, no início, quando comecei, era muito mais do deserto. Eu tinha muitas dessas imagens do deserto, talvez mais de um deserto americano porque na altura lia Beat Generation e ouvia música americana. Ficava só a pensar naquelas paisagens e vivia muito esse imaginário. Agora não vivo tanto, acho que mudou um pouco, mas continuo, de certa forma, a encontrar alguma identidade aí também.

Falaste de um início e, na verdade, este primeiro álbum aparece ao fim de 10 anos de trabalhos teus. Encaras este álbum como um início, de facto, ou é o resultado de um processo que foste construindo e ao qual foste chegando neste percurso?

Essa pergunta é boa, eu não sinto este álbum como um início. Apesar de muita gente dizer — porque é realidade, é o meu primeiro álbum. Eu só lancei um EP e dois singles e fiz uma banda sonora de uma peça de teatro, mas era uma coisa curta. Ou seja, é verdade que é um início, que é um primeiro álbum, mas eu não sinto como um início, porque para mim esta ligação à música e ao projeto Calcutá já começou há muito tempo. Portanto, não sinto bem como um início, mas uma afirmação. Lancei o EP em 2017, há quase 10 anos. Obviamente que era uma pessoa completamente diferente daquela que sou agora e sinto que ao longo deste tempo também fui ganhando maturidade musical, emocional e tudo o resto. Sinto que este álbum é uma afirmação como música, como artista e compositora. Sinto que consegui fazer uma coisa que expressa exatamente aquilo que eu sou como música e compositora. Nesse sentido, acho que é um passo super importante, que já queria dar há algum tempo, mas nem sempre foi possível. Agora deu.

E as composições foram escritas ao longo destes 10 anos ou foi num período mais curto em que concentraste a produção e a criação?

Ora bem. Algumas delas, por exemplo, a “Run Come Rally” é uma versão de uma música do Dadawa, com o mesmo nome, que eu descobri em 2018. Nesse mesmo ano peguei na guitarra e pensei: “Tenho que fazer uma cover desta música.” É um reggae espiritual, não tem nada a ver. Estive horas na guitarra a tentar perceber como conseguir mecanicamente com a mão direita fazer o baixo no polegar e manter sempre um drone com os dedos de cima, para conseguir fazer aquela guitarra. Já desde 2018 que eu toco isso. Depois há outras, por exemplo, a “Wet Grass”, compus nessa altura, mas era uma música completamente diferente, que foi ficando e sendo alterada. Mais tarde, em 2023 ou 2024, quando me mudei para o Porto, comecei a trabalhar em algumas das músicas com o Luís Barros, que toca bateria e melódica no álbum, como a “Run Come Rally” e “O Eterno Retorno”. “O Eterno Retorno” é mais recente. Ou seja, vou apanhando umas que já vêm de mais atrás, tipo “Run Come Rally” e “Wet Grass”, depois “O Eterno Retorno”, “Mountain Valley”, “Fleeting Grace”. Todas essas músicas são recentes e contemporâneas, criadas quando comecei a trabalhar no álbum aqui no Porto. Por isso é uma mistura que sabe super bem: ter conseguido terminar e apresentar essas antigas e construir coisas novas para as juntar todas neste álbum.

Soon After Dawn parece sugerir o início de um ciclo que sucede a outro, um espaço muito particular entre a noite e a manhã. Como nasceu esta ideia de alvorada que atravessa o álbum? 

Ao longo deste processo de composição, fui-me apercebendo — aliás, não é só o processo de composição, é desde o início que faço música — que olho para a minha necessidade de fazer e criar como se fosse um abrigo. Para poder sentir coisas, para poder sentir-me tranquila, para poder estar mais presente. Nesse sentido, sinto que compor é quase como um gesto meditativo. Compor e tocar. A minha música também é repetitiva, tem muitos drones e texturas. Às vezes também penso no ritual, i.e. a ideia do ritual sonoro, e vou criando estas paisagens emocionais que me permitem estar de uma forma mais presente e mais verdadeira para mim. Quando comecei a trabalhar neste álbum, veio-me esta ideia de ele ser a primeira luz da manhã, ou seja, neste tempo todo sem lançar música. 

No fundo, uma alvorada desse longo processo.

Sim. Também estive a fazer outras coisas: estive a estudar, fiz um mestrado em som na ESMAE, foi por isso, aliás, que me mudei para o Porto. Mas depois apareceu a COVID-19. Foi um período em que a vida mudou para muita gente e para mim também mudou imenso. Deixei de poder dar concertos, etc. Sinto que houve um período de uma certa escuridão, na medida em que não dava concertos e que me desligou um bocadinho do projeto. Nesse sentido, senti este álbum como essa primeira luz da manhã. Soon After Dawn, o que vem depois dessa alvorada. Além disso, também me inspirei muito em alguns textos que gosto de ler, por exemplo, ligados à psicologia, à filosofia. Gosto de ler os conceitos do Carl Jung, o psiquiatra. Ele fala muito dessa ideia da sombra. A sombra como um lugar na nossa psique onde guardamos todas as coisas que reprimimos e que não gostamos sobre nós. Nós não as vemos mas elas estão lá. De repente acontece uma coisa na tua vida e tu tens uma reação que não estás à espera. Se calhar é qualquer coisa que vem desse lugar. Fala-se muito dessa ideia da “dark night of the soul”, que é como se para conseguirmos trazer ao conhecimento e à luz o que nós realmente somos, temos que mergulhar nessa sombra e nessa escuridão. Nesse lugar que não é acessível e que só dá para aceder momentaneamente. É uma luta mesmo. Outras vezes digo que o álbum é como se fosse o momento depois dessa noite em que lutas com incertezas, com demónios, monstros e coisas assim, depois nasce a luz do dia a seguir e vem a calma. É um pouco por aí.

Tens formação de guitarra clássica, mas o álbum tem uma instrumentação muito variada: harmónio, guitarra, bateria, sintetizadores. Como é que nascem as composições?

Eu não tenho uma fórmula. O que eu tenho é uma prática de estar atenta e disponível para quando aparecem as ideias. Ou seja, um dia pode ser uma melodia que me aparece na cabeça e gravo no telefone. Depois vou para casa e tento tocar na guitarra, mas se calhar essa melodia não é para tocar com a guitarra, se calhar é um sintetizador, e então vou para um sintetizador. Outro dia é só: “Olha, hoje apetece-me ligar a voz ao pedal dos loops e ver o que é que faz”. Um dia em que me sinta mais criativa desde o meu interior e sai isso. Mas, normalmente, é mais por uma melodia ou por um estado emocional que me faz criar. Depois, no estúdio, eu tinha o “Eterno Retorno”, a “Run Came Rally” e a “Background of Purpose”, que tinha estado a trabalhar com o Luís. Portanto, nessa altura já sabia que ia haver as guitarras com voz e com a bateria. Depois acrescentamos também a melódica, que o Luís toca e que eu gosto imenso, é super fixe. Em relação ao resto dos instrumentos é isso, trabalho muito por intuição. Adoro explorar quando estou a compor, no estúdio com o Cláudio Tavares, tivemos algumas sessões que era só eu e ele, e eu fui experimentando alguns sintetizadores, sintetizadores modulares, também o piano. Ou seja, havia muita coisa que já tinha na cabeça, porque quando começo a fazer, ouço a música na cabeça, mas não consigo bem dizer como é que ela é. Por isso vou à procura, experimento, tento encontrar os tons certos para poder ir buscar as outras melodias dos arranjos, etc. Colaborei também com a Catarina Marques. Antes de começar a gravar o álbum, a Catarina convidou-me para dar um concerto com ela em Vila Nova de Milfontes. Ela estava super entusiasmada porque tinha um instrumento novo. Ela toca viola de arco, mas tinha um instrumento novo, que se chama campânula. Tem um tamanho entre viola de arco e o violoncelo, mas depois tem cordas simpatéticas, ou seja, que vibram por simpatia, como se fosse uma cítara. Ela contou uma história que foi à Floresta Negra quando estava na Suíça ou na Alemanha, já não me recordo, e que conheceu lá este luthier que fazia estes instrumentos e ela adorou. Eu disse: “Uau, então deixa lá ouvir isso”. Quando ouvi adorei, parece que sou transportada para umas sonoridades mais antigas que é algo também que me fascina bastante. Então pensei em chamar a Catarina para gravar. Ela gravou na “Fleeting Grace” e na “Soon After Dawn”, que são as duas músicas em que eu uso harmónio também. Ás vezes sei que quero colaborar com pessoas para elas trazerem o seu instrumento e o seu input, mas depois há muita parte também que vem de mim e da minha vontade de dar voz às ideias que tenho e às sensações.

O álbum saiu em janeiro. Foi gravado no Porto em 2025?

Sim, comecei a gravar em novembro ou dezembro de 2024. Gravámos no estúdio aqui no Porto com o Cláudio Tavares. Adorei trabalhar com ele. Ele é o baterista dos Glockenwise, entre outros projetos que tem. Gostei imenso de trabalhar com ele. Ele tem um estúdio que eu visitei uma vez para gravar umas vozes de outro projeto e pensei: “Ah, que estúdio tão fixe, se calhar podia gravar aqui o meu álbum.” Fiquei logo inspirada. E gravámos com ele.

E quando chegaste ao estúdio, já estavam compostas as músicas?

Mais ou menos. Quando falei com o Cláudio, disse que íamos gravar já não sei quantas músicas, e pensei: “Ok, ainda tenho que acabar esta, esta e esta”. Mas eu atiro-me para frente e depois faço. É sempre bom ter uns deadlines, não é? Fui terminando algumas coisas, mas a maioria já estava. Por exemplo, a “Fleeting Grace” apareceu quase no final, é só com o harmônio e a campânula, é instrumental. Lembro-me também que a “Nocturne Snippet” surgiu mais no final também. Foi do género: “Olha, fiz esta cena na guitarra a semana passada.” E depois disse ao Luís: “Olha, toca aí o piano, bora ver o que é que sai”. Fizemos aquele take e ficou. Mas lá está, trabalhar com o Cláudio foi super fixe porque ele sempre nos pôs à vontade e tem lá instrumentos super fixes. Ele é despachado e pragmático. Vamos para a frente e fazemos e, ao mesmo tempo, também dá imenso espaço para criar e para estar à vontade. Foi uma experiência fixe.

Lembras-te de alguma composição que tenha mudado radicalmente desde o momento original em que a criaste e até ao resultado que está no disco? 

Por exemplo, a “Mountain Valley”, que eu faço com loops de voz. Tudo começou num projeto da ESMAE, quando estava a fazer o mestrado, que era para explorarmos uma performance ao vivo. Sempre gostei de cassetes e de quatro pistas de cassete. Como tenho um Tascam quatro pistas, o 424, fiz um loop com a cassete, cortei a fita, fiz o loop, pus-me a gravar umas linhas e comecei a fazer. A “Mountain Valley” nasceu num loop, a fazer um loop de cassete. E eu pensei: “Ok, agora quando eu tocar isto ao vivo, tenho que levar sempre o quatro pistas para o palco”. Mas era só a voz. Passado uns tempos, percebi que podia fazer isso num pedal de voz que eu uso, que é o Vocal Performer, o Boss D-40. Descobri que podia fazer os loops e comecei a fazer assim. Mas quando fui para o estúdio, gravámos aquilo, fizemos os loops só de voz, porque assim vou fazendo as camadas, depois canto. Mas entretanto pensei: “Falta aqui qualquer coisa”. Já tínhamos acabado as gravações todas, já estávamos quase nas misturas e disse ao Paulo: “Olha, ainda preciso de ir aí fazer umas coisas, porque esta música não está terminada, sinto que tenho que adicionar umas texturas”. Então fui para lá uma noite e estive a fazer algumas linhas no sintetizador. Lembro-me que usávamos o Prophet dele e o Moog M32, acho eu, o Mother. Estivemos a fazer umas texturas e ficou completamente diferente. Agora quando toco ao vivo, eu também trago essas texturas e fica um mundo completamente diferente. Adoro, é super fixe.

Mudaste de cidade por causa do mestrado na ESMAE, de alguma maneira essa mudança está no disco? 

Penso que vir para o Porto me trouxe também o espaço mental para poder finalmente fazer o álbum. Às vezes uma mudança pode ser aquele elemento que faltava. Decidi vir para o Porto para estudar e  também estive três anos a trabalhar numa empresa, a fazer vídeo e fotografia. Estava muito ocupada, mas aos poucos fui voltando a tocar e voltando a tocar ao vivo e pensei: “Tenho que fazer um álbum”. Já tinha aquelas músicas, fui juntando mais umas, mais a “Mountain Valley”, e chegámos às oito que estão no álbum. Por isso sim, acho que vir para aqui me trouxe esse lugar mental, essa abertura para fazer o álbum acontecer. 

Estás satisfeita com as etiquetas que vão colando à tua música? O folk, o drone, o ambient, a música experimental, achas que é isso?

Isso é sempre um bocadinho difícil. Pôr etiquetas nas coisas que fazemos. Neste caso, acho mesmo que têm que ser muitas, porque eu não consigo bem definir a minha música por etiquetas, mas por exemplo, folk. Ok, folk. Já não me identifico tanto com a folk, mas como foi uma coisa que eu agarrei muito no início do projeto Calcutá, e como ainda utilizo a guitarra, percebo e acho que faz sentido falar um bocadinho nisso. Mas, outro exemplo, rock. Acho que também existe algum rock, nomeadamente na “Run Came Rally”, naquela parte que fica a bateria e há um drone super forte, distorcido, que vai tendo um noise. Ambient. Sim, acho que há ambient ali, há muito espaço para estar mais calmo, mais introspectivo, mais meditativo. Acho que sim. Numa só palavra eu não conseguia, mas acho que com vários estilos faz mais sentido.

Qual o papel da voz no álbum? Parece aparecer mais como um instrumento do que ao serviço de uma narrativa ou de um poema. 

Quando eu comecei o projeto Calcutá, estava assim: “Eu não quero cantar, só quero tocar.” Porque eu sempre me considerei guitarrista e não cantora. Aliás, atualmente ainda me considero assim. Depois fui escrevendo algumas coisas. No início de Calcutá, tentava mais, não era bem contar uma história, mas ter uma pequena narrativa. Sinto que naquele EP eu tentei, mas neste já não tentei, porque não sinto necessidade disso. Não me sentei a escrever uma letra e depois fiz uma música. Não, nunca fiz isso neste álbum, de todo. Foram palavras que foram aparecendo da necessidade de usar a voz como instrumento. 

E como é que se faz isso?

A voz participa na composição harmónica daquilo que estou a tocar nos instrumentos, ou seja, ela também ocupa um lugar de uma nota longa, de uma nota que acrescenta um acorde ou que acrescenta mais qualquer coisa a um acorde que já está a acontecer e que vai criando dissonâncias, harmonias. Obviamente que uso palavras. Por exemplo, no “Eterno Retorno”, há uma letra, mas eu juro, aquela letra apareceu assim do nada quando eu estava a tocar. Sinto que fui muito à procura do som das palavras em si, e não tanto do significado delas. Só que depois, imagina, essa letra apareceu e eu cantei, claro que fui alterando algumas coisas, depois escrevi para ver o que é que podia melhorar. Mas depois quando venho e penso nelas, foi mesmo assim. Daí nasceu o título “Eterno Retorno”, as próprias palavras também são cíclicas, também são repetitivas, também falam de uma ideia do ir e do voltar. Ou seja, é tentar criar outros significados e uma certa ambiguidade. Não estou a tentar contar nada, estou a tentar que a voz se funda no espectro vertical daquilo que eu estou a fazer musicalmente.

Será mais uma procura fonética, pelo som, do que pelo significado da palavra.

Sim. Mas atenção, eu dou valor ao significado das palavras, mas aqui é quase como se fosse um jogo, é um puzzle: “O que é que me soa bem aqui?”

Curiosamente quase tudo em inglês, é intuitivo?

É intuitivo. Sempre foi assim, no EPs também é tudo em inglês. Costuma-me sair mais inglês, não sei porquê. Deve ser porque ouço muita música em inglês. Porque leio muito em inglês. Mas sim, depois também criei o “Eterno Retorno” em português. Até tenho vontade de cantar mais coisas em português no futuro, mas foi um desafio e sinto-me bem com isso também.

Quando escutamos o disco a primeira vez, se não estivermos atentos, podemos ficar com a sensação de que se trata de uma coisa muito minimalista. Mas a verdade é que a cada escuta, vão aparecendo mais detalhes, mais riqueza, mais micro movimentos, intensidade. Como é que tu conseguiste este equilíbrio entre a contenção e a densidade? Quer dizer, nem sei se concordas com isto. 

Sim, concordo. Acho que sou minimalista na composição, porque não estou à procura de grandes mudanças, de rapidez e de virtuosismo. Não estou à procura disso. E, como estava a dizer há pouco, sai-me este gesto repetitivo. Mesmo ao nível da composição, trabalho muito com drones, depois uso muito intervalos simples. Uso as quintas, mas depois uso as quartas e as segundas e as sétimas e vou criando ambientes que, de vez em quando, são mais harmónicos e que sabem bem, mas às vezes também crio algumas dissonâncias. E, nesse sentido, acho que sou super minimal. Mas no que diz respeito às texturas, elas se calhar não são tão minimais e, apesar de não serem muito complexas, julgo que são necessárias na medida em que trazem uma profundidade e essa intensidade àquilo que estou a tentar fazer musicalmente. Mas não é algo que pense muito racionalmente. Esse minimalismo que ao mesmo tempo é intenso, nunca tinha pensado nisso, realmente, até agora que me estás a perguntar isso. Do minimal que é intenso…

E que tem várias camadas.

Sim. Pois, e é interessante essa coisa que dizes de quando ouves parece que é uma coisa simples, mas depois se fores a ver, há muita textura e trabalho no próprio som. Isso é algo que me dá muito gozo fazer e que acho que é mesmo indispensável para mim. Ou seja, há a parte musical, mas depois também há muita procura por essas texturas, por essas coisas que nos trazem um som mais especial e uma sensação mais específica, que se assemelham mais àquilo que eu vejo, que sinto e que tento traduzir para a música.

Antes do álbum fizeste música a partir de um quadro da Vieira da Silva e do Arpad Szenes — o “Feu d’Artifice”. Ao fazer a pesquisa percebi que tens bastantes ligações com o teatro, o cinema, ou instalações sonoras com a do Mosteiro de Arouca. Queres falar um pouco sobre isso?

O “Feu d’Artifice” foi um projeto que gostei muito. O Bruno Humberto, não sei se ele ainda está a fazer isso ou não, mas na altura convidou-me para participar nesse ciclo, que era o concerto para um quadro, acho que se chamava assim. Para os quadros, lá na fundação. Ele disse-me: “Vais lá, vês a exposição, escolhes um quadro e depois fazes um concerto para aquele quadro”. E eu: “Ok, fixe”. Então eu fui lá e escolhi aquele.

Então foi um concerto…

Sim, essa peça nasceu de um concerto. Escolhi esse quadro, por acaso acho que é dos poucos quadros que são feitos pelos dois. É um quadro super especial, tem vários símbolos cósmicos, é místico, e aquilo chamou-me logo a atenção. “Tem que ser este”, pensei. Tem um díptico ao lado também da mesma série. Adorei. Eu já estava a trabalhar numas paisagens sonoras com alguns tons que tinha recolhido, de alguma coisa que também comecei a fazer na ESMAE. Tinha alguns que tinha recolhido em sítios super diferentes, desde cisternas até na rua, ou loops de voz meus. E fiz uma colagem, que veio a ser essa tal “Feu d’Artifice”, inspirada nesse quadro. Fiz um concerto para aí de 40 minutos, mas a peça principal era essa. Eu não estava a pensar fazer nada com o concerto, mas depois, como tinha feito aquilo no Live, no computador, gravei uma sessão completa com aquilo, mostrei a uma amiga e ela: “Tu devias lançar isto, isto está incrível”. E eu: “Achas? Está bem, então vou lançar”. Foi assim que surgiu. Como já não lançava nada há muito tempo, também achei engraçado lançar uma coisa bastante diferente daquilo que eu tinha feito no passado. Essa sim, é uma peça mais ambient, mais drone, experimental. Foi interessante partilhar essa peça antes do álbum, uma espécie prenúncio de qualquer coisa diferente que haveria de vir.

E em Arouca?

Esta última no Mosteiro de Arouca foi um projeto super interessante. Fiz uma residência em Arouca, com os grupos de canto polifónico de lá, que são bastantes e que têm uma herança incrível. São absolutamente extraordinárias todas aquelas senhoras que cantam. Estive com elas a gravá-las em vários sítios e fui visitar cada uma das aldeias que têm grupos corais. Cada uma tem o seu grupo e a sua forma de cantar e a forma de interpretar o cancioneiro. Também fiz bastantes gravações de campo em Arouca e portanto isto era uma instalação que ia estar presente na Feira das Colheitas, que é uma feira super importante lá. E pronto, fiz esta criação, foi uma instalação quadrifónica. Fiz uma performance no dia da estreia, em que era eu a lançar os sons da paisagem sonora, mas chamei as senhoras para virem cantar e foi super especial. Adorei esse projeto.

Para este álbum também fizeste recolha de som? 

Neste álbum foi tudo mais musical. Ou seja, não usei colagem sonora, não. Foi tudo instrumentos, voz, sintetizadores. Neste álbum não usei.

O disco contou com algumas contribuições e participações, como as do Luís Barros e da Catarina Marques, mas também do Rodrigo Vaiapraia. Como é que surgiram essas ideias?

Ora bem, do Luís já falámos um pouco, da parte da bateria. Ele já tinha tocado no meu EP e eu gosto de tocar com ele. É muito criativo, não só na bateria, mas também nas teclas, na melódica, no piano. E, por isso, chamei-o para vir tocar comigo. Já não tocava com ele há imenso tempo e foi super fixe. A Catarina, quando encontrei aquele instrumento, foi: “Não, tu tens que tocar aqui, especialmente nestas músicas do harmônio, porque acho que casa super bem.” São dois instrumentos que têm um som que me remete ao antigo. Não sei, uma Idade Média, um mosteiro, os monges a passar e os sons a ecoarem.  Em relação ao Rodrigo, quando chegámos à “Soon After Dawn”, eu pensei que queria ter uma voz super grave a cantar no final e pensei: “O Ró, claro. O Ró tem aquele vozeirão, vou-lhe pedir”. Ele agora mora em Londres, então gravou lá com uma amiga dele, a Sofia, e mandou-me. Ficou super fixe. Eu queria um coro, mas precisava de uma voz muito grave e o Ró era a pessoa perfeita.

E como é que se leva isto para um espetáculo ao vivo que tem uma natureza mais livre, mais aberta? Estarás acompanhada pelo o Luís Barros e com a Maria Amaro, não é? 

Sim, Luís e Maria Amaro. Temos tocado em trio, outras vezes toco a solo. A Maria toca contrabaixo, Casio, e também canta back vocals, e o Luís Barros toca a bateria e a melódica. Há sempre uma estrutura base, a maioria das músicas tem uma estrutura, mas dentro dessas estruturas, desses blocos, existe sempre algum espaço para experimentação. Por isso é que eu falo nessa forma livre, que às vezes é fluida, ou seja, nunca é sempre igual. Por vezes há coisas que são muito parecidas com o que está no disco, mas outras existe também espaço para experimentar coisas novas. Por exemplo, às vezes estou a cantar e se me sentir super bem, se me tiver a soar tudo incrível, eu mudo coisas. Quando me sinto à vontade, também me sinto à vontade para experimentar algo diferente ao vivo. Essa liberdade ao vivo, para mim, é super importante. Para mim não é fulcral tocar exatamente igual ao disco. É mais importante essa liberdade. Penso que o público também sente essa entrega, que não é exatamente tão fechada.

Nas primeiras duas faixas do álbum fica a sensação, e então lá na Casa Música ainda mais, de que o silêncio é importante para ti e cumpre um papel na tua música. Qual é ?

O silêncio é super importante para mim como pessoa, artista e tudo mais. Falando novamente desse gesto meditativo que procuro fazer na minha música, a meditação parte do silêncio. É a partir do silêncio que o som emerge, e que emergem os pensamentos, e que emerge muita coisa. É uma alusão a essa presença do silêncio de onde emergem os sons. Na minha música, penso que é importante haver espaço para o silêncio, precisamente para haver o contraste entre o haver som e o não haver som, para pensar neste jogo de opostos.

A capa do álbum do Miguel Almeida é forte e sugestiva. Sentes que se liga à tua música?

Sinto que se liga imenso. Quando comecei a trabalhar com o Miguel fizemos montes de outras versões e pensámos que se calhar o melhor era ter uma fotografia. E ao ver as capas que estão a sair hoje em dia, é tudo fotografia. Não tenho nada contra isso, acho super fixe. Mas depois pensámos: “E se fosse um desenho?” E o Miguel estava muito por dentro dos temas do disco e também desta ideia da luta. Aquela imagem é uma luta cósmica, é um astro que está triste a lutar com um astro que está contente lançando luzes. É como se fosse uma luta em que a luz está a tentar ganhar. Acho que tem imenso a ver com aquela ideia da noite escura e da luz aparecer. A capa é bastante divertida e contrasta um bocadinho com a minha música, que eu não lhe chamaria divertida. Também não é triste, mas procura uma catarse, uma transformação, e é meditativa e introspectiva. Não sei, a capa criou ali um balanço fixe com a música.

Há vários concertos no horizonte. Quais são os sítios que estás com muita vontade de ir tocar?

Tenho vários concertos, mas posso destacar, por exemplo, no dia 6 de julho, vou tocar no Coliseu do Porto, a convite do João Vieira. Tenho também em Marvão, o Festival do Benefício, que vai ser com curadoria feita pela minha editora, a Ovo Estrelado Records. Nunca toquei em Marvão e vai ser também super fixe. Vou tocar nos Bons Sons, dia 8 de agosto. Em setembro vou tocar na Bélgica, num festival super fixe que é o Meakusma, e estou a agendar outras datas em França, portanto vou ter esses concertos internacionais. Em outubro tenho o Impulso. E tenho ainda algumas coisas que não posso anunciar. Mas é verdade, estou com a agenda bastante cheia. Outra coisa super interessante que estou a fazer agora é a banda sonora para uma peça de teatro do Teatro Mosca, de Lisboa, que é feita com eles e com uma companhia de teatro francesa, que são os Les Bâtards Dorés. Estive agora uns dias em Bordéus, numa residência com eles, a trabalhar nos textos e a criar os sons. Portanto, isso também é um projeto que me entusiasma imenso. Adoro compor para teatro, cinema, acho que é das coisas que eu gosto mais de fazer. 

E ainda vais ao Extremo no dia 18 de julho. Qual é o significado para ti de tocar neste festival tão particular? 

É mesmo. Eu fui ao Extremo no ano passado. Não consegui chegar ao primeiro concerto de todos. Fui para assistir àquele cartaz absolutamente incrível, completamente a minha onda. O primeiro concerto que vimos foi o da Maria Horn, na capela, às 6h, o nascer do sol, e foi uau, incrível! Adorámos aquela experiência. Depois tem o trilho, as performances ao longo do trilho. Todos os concertos foram incríveis, toda a gente era super simpática e aquele sítio é mesmo muito especial. Aqueles concertos da noite: Ghosted, com a guitarra, o contrabaixo, a bateria. Adorei, nunca tinha visto. E para terminar, o William Basinski, que achei ousado, mas ao mesmo tempo achei incrível terminar um festival com um concerto de ambient. Porque as pessoas estão sempre à espera que a última banda é mais a abrir e essas coisas. Foi uma experiência completamente incrível. Lembro-me dele dizer às pessoas: “Sentem-se, que vai ser uma viagem”. Eu na altura não me sentei, mas depois sentei-me. E ainda bem que me sentei, não só por conseguir desfrutar melhor o concerto, mas porque os subs, quando estão em baixo, aquilo vem com uma força! E foi mesmo uma viagem, adorei. Adorei o festival, foi mesmo incrível. Este ano estou super entusiasmada, não só porque o Samuel e toda a gente que está na equipa tem sido super impecáveis comigo e porque gostei do festival e do sítio, mas este cartaz também está espetacular. O Alessandro Cortini, eu sou fã de Nine Inch Nails. Hoje em dia já não ouço muito, mas entre os meus 13 e os meus 20 anos, era das minhas bandas favoritas.


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