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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 15/04/2026

Um Saara em movimento contra o ar do tempo.

Tinariwen na Casa da Música: o que a língua separa, a música une

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 15/04/2026

Os lendários Tinariwem transformaram a Casa da Música num Saara em movimento. O concerto acendeu uma fogueira na noite solitária do deserto e terminou com uma tempestade de areia que levantou toda a gente das cadeiras. Revisitaram praticamente toda a discografia, num alinhamento que nos falou da guerra, da identidade e da comunidade tuaregue. Do seu sofrimento e reflexão e – sim – da esperança. O ritmo era o do passo do camelo, subindo e descendo as dunas de areia fina. 

Quem acendeu as primeiras chamas foi uma misteriosa mulher de vestido vermelho. Entrou, sentou-se de perfil e fez soar as primeiras notas de um harmonium. A voz era como se não fosse bem real. Uma espécie de ilusão que se ouve e move no deserto. “Ora lamento íntimo, ora sopro prolongado, ela não se impõe como narrativa, mas como orientação” disse Vitor Rua na sua crítica ao novo álbum para o Rimas e Batidas em fevereiro. Essa mulher era, afinal, Teresa Castro, mais conhecida como Calcutá, que surpreendeu toda a gente quando se apresentou em português. Explicou que ali estava para abrir o concerto dos Tinariwen com o seu recente trabalho. Tocou guitarra, revelou o encontro do som com o silêncio e fez-se notar. Serviu como um ajuste de frequências, um calibrar de ouvidos.

Os tuaregue do Mali abriram com “Alkhar Dessouf” do álbum Amassakoul de 2004, exactamente como um pêndulo que exerce o poder hipnótico sobre os corpos. Seguiu-se “Imidiwan Takyadam”, tema gravado com José González no último álbum lançado este ano e, a partir daí, começaram as palmas coordenadas que haviam de acompanhar quase todo o concerto. O ritmo hipnótico, as palmas, as guitarras, ora nos levavam ao passo do camelo, ora submetiam toda aquela gente a uma espécie de transe colectivo. O que a língua separa, a música une. 

O deserto tuaregue do Mali estava diante dos nossos olhos. Aos poucos, timidamente, alguns espectadores levantaram-se da cadeira e foram dançar para as escadas, respondendo ao groove cíclico da percussão e do baixo. A fogueira ia aumentando lentamente à custa dos riffs repetitivos das guitarras e do canto responsorial africano. O calor era cada vez mais intenso e, a cada final, mais pessoas se encaminhavam para as escadas formando uma bancada em movimento. Um concerto que havia começado com uma pequena chama de contemplação, estava a caminho de uma apoteose de estádio. Para isso muito contribuiu o clássico “Imidiwan Ma Tenam”, tema de 2011 que, traduzido, significa: “o que dizem, meus amigos?”. 

Um longo aplauso trouxe-os de volta para o encore. Ninguém mais se sentou. Nas escadas não havia um único degrau livre. O baixo e a guitarra de “Sastanàqqàm” – outro clássico da banda – convocavam as origens do rock e toda a plateia dançou o blues do Saara. Depois de percorrerem praticamente todos os discos ao longo das dezoito músicas do alinhamento, fecharam esta épica noite com “Chaghaybou” que levou ao rubro a multidão. 

O deserto é o silêncio total, absoluto, intangível. A terra ilude-te os passos. Aquela duna estava e já não está, era mas já não é. Tudo aparece e desaparece segundo a vontade dos ventos. Entregas-te ao céu estrelado e ao nascer da lua. Procuras a estrela polar. Nada resta. Tudo obriga a andar. Ali ninguém fica. Ninguém vive. Tudo passa. Quem fica morre, enlouquece, desidrata. No interior do silêncio do deserto há vozes insanas que provocam. Os tuaregues avisam: nunca respondas às vozes do deserto. Mas serão somente estes os seus tormentos?

Os sete nómadas do Mali, alguns com quase 70 anos, estão novamente exilados na Argélia. Os músicos tiveram que abandonar as suas casas devido à violência e à presença do Grupo Wagner a Norte. O deserto faz deles nómadas, a miséria moral dos homens torna-os gente sem casa, sem terra ou território.

O novo álbum, Hoggar,  é sobre resistência, memória e identidade. Denuncia os horrores de mais uma guerra à procura de razão. O regresso dos déspotas que apagam as pegadas de um curto percurso ao encontro do outro. É o nosso mundo — e este é o assombro que a música dos Tinariwen exorciza.



*Devido à ausência de fotos, a imagem de capa desta reportagem não retrata o concerto na Casa da Música.

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