Voltam a ser estimulantes as propostas para os últimos meses do ano na versátil sala bracarense. O gnration acaba de divulgar os nomes que ocuparão os seus espaços e no que à música diz respeito há razões para antever um outono bem recheado.
Falar do regresso de Kalia Vandever a Braga (18 de Setembro) implica recordar o seu trombone, nessa oratória soprada à vara, no concerto inaugural do Semibreve, na Basílica do Bom Jesus do Monte, em 2024. Era altura de We Fell In Turn (2023). Sempre prolífica, fez a cada ano seguinte surgir um novo capítulo da sua recente mas já ampla discografia. Mana (International Anthem, 2026) marca a sua entrada numa das editoras que mais caminhos estimulantes tem apresentado neste presente, e arriscamos prever que servirá de base à sua prestação outonal no gnration.
Com um pé na música e outro na dança haverá mais um avanço no ciclo Zona Franca já a 26 de Setembro. Desta feita foram convidados para um trabalho inédito Fábio Krayze e DJ Poco, que juntos apresentarão Batida. Krayze, em 2023, criou o projecto coreográfico Musseque e Poco é também produtor musical: no seu repertório encontram-se trabalhos com KellyVeiga, Scró Que Cuia, Nerú Americano, Yudi Fox ou DJ Lycox. “Como imigrantes ou filhos de imigrantes, pretendemos enaltecer o sítio que nos viu nascer e o sítio que nos deu a oportunidade de sermos quem somos”, dizem-nos no manifesto para este espectáculo.
Já da nipónica Midori Hirano, radicada na multicultural Berlim, espera-se um longínquo lugar, que se revelará mais perto de 9 de Outubro. Antes disso, a escuta de OTONOMA (Thrill Jockey, 2026) apresenta-se fundamental, como princípio de quem se deve preparar para um concerto, sendo uma porta de entrada possível para a electrónica de recorte ambient de Hirano.
O novo espectáculo de Joana Sá terá estreia no gnration a 17 de Outubro. A pianista inscreveu duas notáveis obras, entre o piano e a escuta, com o disco a body as listening (Clean Feed, 2022) e o livro a body as listening – resonant cartography of music (im)materialities (Sistema Solar/ Teatro Praga, 2023), duas partes de um todo que se ligaram aos palcos, na Culturgest, no gnration e no TAGV, em Coimbra. Um piano que quer deixar de o ser como o foi até aqui; o que lhe segue só poderá ser algo de bom.
O gnration traz as estreias dos próximos discos de Ana Lua Caiano e Travo. A 6 de Novembro, Ana Lua Caiano lançará o seu segundo disco, Devagar Que a Vida é Curta, pela editora alemã Glitterbeat, e fá-lo em concerto na sala bracarense. Do álbum até agora conhecemos o single “Uma Vida A Menos”. Aguarda-se o que mais aí vem depois do muito bem sucedido Vou Ficar Neste Quadrado (2024) nos trilhos e encruzilhadas musicais portuguesas.
Antes disso ficaremos a par de Burial (Fuzz Club), terceiro capítulo dos bracarenses Travo, e que será apresentado e lançado em casa, no gnration, a 30 de Outubro. Entre o psicadelismo e o industrial, espera-se um som coeso e denso, e que tem em “Wasteland” um primeiro avanço, tema com base no poema “The Waste Land”, de T.S. Eliot.
Anunciar Ex-Easter Island Head torna-se mais fácil simplesmente como EEIH. Com palco marcado no gnration a 1 de Novembro, trata-se de um quarteto de música de ritmo experimental, surgido em Liverpool já em 2009. Têm por hábito subir a um palco com quatro guitarras eléctricas deitadas e que servem de base percussiva, tocadas com técnicas em muito estendidas. Um concerto que de pronto se deve converter num intrigante espaço visual-sonoro. Depois da trilogia de Mallet Guitars, e de outros dois registos bem sucedidos, surgem em 2024 com Norther e nisto apontar-lhes um caminho pós-kraftwerkiano não parece de todo displicente.
Outro nome imperdível é o da activista, poeta e cantora Angel Bat Dawid, em concerto a 14 de Novembro. Embateu-nos no Tremor de 2023, e em antevisão respondia, insubmissa, em entrevista a Rui Miguel Abreu, num “Estou aqui para vos destruir”. Corria o ano de lançamento do seu combate de longa-duração com Requiem for Jazz (Intergalactic Mantra/ International Anthem, 2023). A multi-ofícios Dawid, que vai de compositora a clarinetista, pianista, vocalista, produtora, educadora e DJ, fez aparecer, em colaboração com Naima Nefertari, Journey to Nabta Playa (Spiritmuse, 2025). Mas em cada ida ao palco, faz da ocasião uma oportunidade de intervenção — imprevisível no modo e no desfecho.
A música de Park Jiha é apresentada como paciente e imersiva. Vem-lhe da tradição coreana, num cruzamento dos instrumentos milenares com a sonoridade contemporânea. Cyclic Illusion (2026) deverá ser a âncora em palco para a prestação que se antevê soporífera e feita de um exotismo que acolhe muito mais do que espanta. “Uma ilusão das estações que parecem repetir-se, mas que nunca regressam ao mesmo momento”, como se lê em disco. Tudo para sorver a 21 de Novembro.
O voltar a Braga da compositora Félicia Atkinson (28 de Novembro) faz reverberar novamente na memória a passagem pelo Semibreve de 2022, junto da flauta de Violeta Azevedo. Mas, depois dessa emanação sonora e em nome próprio, a francesa Atkinson fez constar na sua discografia o fascinante e retemperador Space As An Instrument (2024), onde faz “explorar as paisagens fantasmagóricas criadas nesses encontros transformadores, quando a mente está aberta e receptiva ao ambiente que a rodeia. É como ser absorvido pela imensidão do céu noturno”. Ou depois propondo uma experiência sinestésica com Promenades (2025). Estímulos certeiros abundam e convidam a imergir no cosmos de Atkison.
Por fim, o gnration será o lugar do encontro inédito entre o trio MÁQUINA. e Scúru Fitchádu. Tudo surgido de uma ideia da promotora portuense Machamba e, pelo gnration, uma residência artística e o elemento híbrido passa a existir. Dos abrasivos-dançantes MÁQUINA. espantámos a alma com Dirty Tracks for Clubbing (2023) e seguimos-lhes o rasto sonoro com PRATA (2024), que entretanto acaba de ter seguimento com BODY TRANSMISSION. Marcus Veiga (aka Scúru Fitchádu), afirmou Nez txada skúru dentu skina na braku fundu (2023), relembrando os movimentos revolucionários de libertação africana, e Griots i Riots (2025). Há todo um fundamento em curso. Do encontro a quatro virá o inesperado, mas o necessário, certamente. Para testemunhar a 12 de Dezembro.