Mais uma semana particularmente preenchida de música nova por estes lados. Entre o rap nu e cru que explora as vivências das ruas de Lisboa, o R&B emocional e minimalista feito em Los Angeles, o jungle confessional ou o trip hop tenso e introspectivo do Reino Unido, sem esquecer o mundo de possibilidades sonoras da batida de Lisboa, ao longo dos próximos parágrafos debruçamo-nos sobre os principais lançamentos desta semana de Julho.
Muitos outros trabalhos foram editados por estes dias. Para os melómanos mais curiosos, atentem no que fizeram Rony Fuego (mantra), Rome Streetz (Sock It 2 My Pocket), Adrian Younge (Afro-Disco Makossa), Larry June (Who Coppin), Steve Lacy (Oh yeah?), Leon Bridges (Happiness Anytime: Part 1), Ambré (PEYOTE), Lido Pimienta (Caribenya), Helado Tropical (Helado Tropical), Eartheater (Heavenly Body: If I’m The Bottle You’re The Message), Orquesta Akokán (AMÉRICA!), BackRoad Gee (Live In The Flesh), Cry (AD 140), Mama Terra (Inner Space), Brian Ennals & Blockhead (Boatshoes), Icewear Vezzo (Rich Off Pints 4), Rick Ross (Set in Stone), Buju Banton (Too Too Bad), The Architect (The Greatest Story Never Told), Nao Yoshioka (self), Judah Weston & IsoKeys (Why So Much Hate), Catherine Moan (CM Ultra), Fauzia (I Was Here for a Moment) e Joey Alexander (Celestial Keeper).
[Kroniko & Il-Brutto] 2000 & Qualquer Coisa
Colaboradores regulares ao longo dos últimos três anos, as rimas de rua de Kroniko encontraram nos beats obscuros de Il-Brutto a paisagem sonora ideal para servir de habitat. 2000 & Qualquer Coisa é o disco que oficializa a parceria e junta os dois hip hop heads de diferentes gerações ao longo de 11 faixas, num alinhamento que também integra featurings de Kosmo Da Gun, $TAG ONE, Tostaz, VATO e Relax.mfk. Rap marginal, nu e cru, a preto e branco, num imaginário que nos transporta directamente para as vielas e esquinas da cidade. É o primeiro trabalho de Kroniko desde o EP Moriro in Street (2024), que também contou com um par de instrumentais de Il-Brutto.
[Gangrene] Better Than McDonalds
Dois anos após Heads I Win, Tails You Lose, Oh No e The Alchemist voltam a reunir o projecto Gangrene em Better Than McDonalds, reafirmando uma das parcerias mais acarinhadas do hip hop underground norte-americano. O disco mantém intacta a identidade do duo: produção poeirenta, colagens psicadélicas, samples obscuros e uma predilecção assumida pelos groove difusos e imprevisíveis. Os dois produtores-rappers continuam a apresentar um rap denso, simultaneamente descontraído e repleto de referências, com uma estética crua na qual envolvem apontamentos de humor negro e um certo surrealismo. Desta vez, Ab-Soul, Rome Streetz, Armand Hammer, Meyhem Lauren, Boldy James, Wildchild e Estee Nack juntam-se à dupla.
[Masego] Fix Your Face
Três anos depois do homónimo Masego, o músico jamaicano-americano radicado no Brasil prolonga a sua obra entre o R&B e a soul contemporânea, as referências jazz e hip hop com Fix Your Face. O saxofone e a sua voz sedosa mantêm-se na linha da frente em mais uma abordagem de produção sofisticada que integra melodias de apelo pop, grooves suaves e texturas electrónicas. No que toca às temáticas, é um disco mais introspectivo e vulnerável, que retrata inquietudes e reflecte sobre perda e luto, disrupções amorosas ou o questionamento da fé e da identidade individual.
[NegoO] O Preço da Glória
É um dos nomes mais entusiasmantes da nova vaga em torno da chamada batida de Lisboa. Membro da Moonshine, criado na Linha de Sintra mas radicado em França, NegoO apresenta o sucessor do EP de estreia Ta Brinca, editado há um par de anos. Entre colaborações com Pierre Kwenders, B I L L Y G, ŸEND e Mariela, O Preço da Glória é uma compilação sobretudo festiva que expande as possibilidades sonoras do jovem produtor. O uso da voz na confiante e sedutora “Eu Te Quero”, a vulnerável “Dololo”, o funk brasileiro de “No Compasso do NegoO” ou a introspectiva ancestralidade africana de “KEMBO ( Dans Le Seigneur)”.
[Nia Archives] Emotional Junglist
Dois anos após o álbum de estreia Silence Is Loud, Nia Archives afirma-se num segundo longa-duração que aprofunda a sua visão muito particular da jungle enquanto meio para canções confessionais. Emotional Junglist continua a cruzar breakbeats frenéticos com melodias herdadas do R&B, do indie pop e da electrónica britânica, mas fá-lo com maior ambição narrativa, explorando temas em torno das relações amorosas, do desgosto e do amadurecimento. Sem abandonar as raízes rave, a cantora e produtora britânica expande o seu universo sonoro através de uma instrumentação mais orgânica onde a voz também ocupa um espaço cada vez mais central.
[Syd] Beard
É o terceiro disco de Syd a solo, ela que começou por se destacar enquanto vocalista dos The Internet. Quatro anos depois de Broken Hearts Club, apresenta-nos Beard, onde reforça a escrita íntima e a estética minimalista que a tornaram uma referência do R&B alternativo contemporâneo. São canções que privilegiam a voz e a abordagem emocional, assentando em batidas discretas, feitas de linhas de baixo subtis, sintetizadores etéreos e harmonias suaves que reservam espaço para a voz contida da artista norte-americana.
[Tricky] Different When It’s Silent
Primeiro álbum a solo de Tricky em seis anos, Different When It’s Silent representa um regresso ao universo sombrio, tenso e profundamente atmosférico que ajudou a definir desde Maxinquaye. Embora continue a privilegiar colaboradores vocais — entre os quais se destaca o novato Mitch Sanders, que canta em quase todas as faixas — o músico de Bristol constrói um disco onde o trip hop serve apenas como ponto de partida para uma série de cruzamentos com o rock alternativo, a electrónica mais experimental e demais paisagens industriais. Entre baixos cavernosos, guitarras abrasivas, ritmos fragmentados e vozes sussurradas, o resultado é uma obra densa, marcada por uma permanente dicotomia entre a tensão e a introspecção.