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Fotografia: Ben Do Rosário
Publicado a: 06/07/2026

Quando nem a excelência musical salva o gesto do tributo.

José James no Teatro Tivoli: soul de pouca dura

Fotografia: Ben Do Rosário
Publicado a: 06/07/2026

Na passada sexta-feira, 3 de Julho, no Teatro Tivoli em Lisboa, José James, os seus músicos e a sua convidada especial, China Moses, fizeram o mais difícil: interpretar um dos grandes clássicos da discografia da soul sem a devida alma.

O gesto, à partida, estava ganho. A admiração e o culto que o cantor californiano tem ao legado de Marvin Gaye e Leon Ware está muito bem documentada e até fez recentemente eco por cá, no Rimas e Batidas, quando José James concedeu uma entrevista a Rui Miguel Abreu para antecipar este mesmo espetáculo. Os temas que iríamos escutar em palco eram, por isso, recriações vindas de um verdadeiro fã — que, “por acaso”, é só um dos maiores tecnicistas vocais que a soul e o jazz contemporâneos têm. Depois, I Want You “é só” uma das obras mais estelares da imensa carreira de Marvin Gaye. Um trabalho que marcou uma ruptura com a sonoridade a la Motown e o catapultou para um território mais ousado e cinematográfico, servindo de base para o que, mais tarde, viriam a fazer os grandes mestres da soul e R&B modernas — do saudoso D’Angelo a Erykah Badu.

Os ingredientes estavam lá todos, mas algumas das lâminas da trituradora responsável por fazer tudo se misturar em palco pareciam estar cegas. As vozes de José James e China Moses tiveram dificuldade em envolver-se a cem por cento no luxuoso cocktail sonoro preparado pela enormíssima banda que os acompanhou. Mesmo tratando-se, provavelmente, da “primeira vez na história em que I Want You é tocado ao vivo na íntegra”, conforme lembrou James, os responsáveis não conseguiram fazer total justiça à obra que celebra 50 anos de vida em 2026. Faltava tempero para que, chegados ao final, lambêssemos as pontas dos dedos como que a suplicar por mais.

Ainda assim, a prestação de cerca de hora e meia ficou bem longe de ser um desastre. Na primeira parte do espetáculo, inteiramente dedicada ao repertório de I Want You, os músicos na retaguarda asseguraram que pelo menos a parte instrumental estava completamente oleada. Jharis Yokley (bateria), Parker McAllister (baixo elétrico), Masayuki Hirano (teclas) e Marcus Machado (guitarra) foram sublimes no manuseio das respetivas ferramentas de trabalho. Não só são músicos dotados de uma incrível técnica, como tinham toda a lição muito bem estudada. Conseguiram recriar na perfeição o tal lado cinematográfico impresso no disco de Marvin Gaye, ao ponto de dar até a sensação que estávamos a assistir a uma jam session em pleno palco do Tivoli: o quarteto não só dava as bases para os dois vocalistas, como adornava cada momento com pózinhos mágicos de virtuosismo, evitando a repetição pura e dura e abordando cada pattern musical como se de um organismo vivo se tratasse, pulvilhando de groove toda a sala e a fazer querer levantar o rabo da cadeira para dançar. Já perto do final da celebração de I Want You, Machado centrou em si todas as tenções quando os dois cantores sairam de cena para o permitir brilhar num solo aprumado que elevou aquela soul aos mesmos níveis de psicadelismo que Jimi Hendrix um dia alcançou.

Findada a parte da setlist dedicada ao clássico de Gaye (que ainda teve o enormíssimo “What’s Going On” como complemento), tivemos via aberta para um fecho de concerto em grande estilo, já num território em que José James e China Moses se sentiam como peixes dentro de água. A cantora agradeceu o convite ao colega cabeça-de-cartaz e apresentou um par de músicas suas que certamente lhe fizeram ganhar novos fãs naquela noite. “Silence”, especialmente, é uma daquelas canções urgentes de soul aguerrida que procura intervir diretamente nos problemas que assolam a sociedade, algo que começa a soar raro na música que escutamos hoje em dia.

O grande final estava reservado para José James — e até talvez mais para Masayuki Hirano, mas já lá vamos. O crooner de Minneapolis trouxe para o palco os seus dois maiores êxitos que ficaram eternizados no belíssimo No Beginning No End (2012), que à data funcionou como registo de estreia pela prestigiada Blue Note Records. A primeira, “Come To My Door”, quase levou toda a gente a dar as mãos pelos versos doces e ternurentos. E fechou com o funk de elevada nota artística de “Trouble”, fazendo estender os três minutos da versão em disco a uma verdadeira epopeia de 10 minutos, que atravessou diferentes momentos de intensidade. Chegou a soar a despedida o momento em que fez os holofotes se virarem para Hirano, que solou até todos os outros instrumentos se calarem e nos fez viajar por diferentes grooves, tirando total partido do lado percussivo do piano e arrancando inúmeras reações do público. Quando parecia que já estávamos noutra galáxia, aplicou a punchline e trouxe de volta os colegas para um reprise final de “Trouble”, levando toda a plateia a um estado de êxtase e permitindo-nos desfrutar mais um pouco da verdadeira soul que reside em José James.

Após a despedida, a audiência não arredou pé e fez chover uma tamanha ovação que trouxe os artistas de volta ao palco com a promessa de mais uma canção. “Lovely Day”, a cover de Bill Withers que é a grande pérola do seu álbum de 2018 Lean On Me, fez-nos uma vez mais acreditar num mundo melhor e valeu ao grupo uma nova chuva de aplausos, com todos os músicos a virem à frente do palco agradecer o carinho e apoio.


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