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O deslumbramento de observar um admirável mundo novo.

Pedro Melo Alves’ Omniae Large Ensemble no Julho é de Jazz’26: peças em movimento

A concentração de eventos com cartazes apetecíveis nos primeiros dias de Julho é significativa, como facilmente perceberá quem porventura esteja atento à quantidade de crónicas de espectáculos que vamos publicando nestas páginas. Ainda assim, poucas propostas poderiam superar a do festival Julho é de Jazz, que nos seus dois primeiros dias propunha encontros com أحمد [Ahmed] e com o Omniae Large Ensemble de Pedro Melo Alves. Este singular e ambicioso projecto comandado por um dos mais inventivos bateristas e compositores da nossa praça é um mecanismo altamente complexo, com muitas peças em movimento, e o elevado grau de exigência logística necessário para o montar — para não falar dos certamente significativos custos financeiros que implica — torna as suas aparições eventos relativamente raros. A estreia de novas obras no magnífico palco do Theatro Circo, em Braga, afigurava-se, por isso mesmo, uma oportunidade absolutamente imperdível.

Mariana Dionísio, Nazaré da Silva, Maria João Leite e Almut Kuhne nas vozes, Clara Saleiro, Teresa Costa, Camilo Angeles e Laura Cocks nas flautas, João Pedro Brandão na flauta e saxofone alto, José Soares no saxofone tenor, João Almeida no trompete, José Diogo Martins no piano, Mané Fernandes na guitarra eléctrica, Duarte Ventura no vibrafone, Pietro Elia Barcellona no contrabaixo, Pedro Melo Alves na bateria e condução e, como convidado especial, Kit Downes no órgão e piano, estiveram em residência durante uma semana na cidade dos arcebispos para prepararem o longo concerto apresentado na passada sexta-feira. E foi nítido que a singularidade da ocasião, aqui desde logo destacada, foi igualmente sentida por cada um dos músicos em palco, cujos rostos revelavam uma clara satisfação pelo simples facto de fazerem parte de tamanha aventura.

De facto, não é apenas para o público que ver 17 músicos de excepção integrados num colectivo apostado em tocar música avançada constitui oportunidade rara e especial. O mesmo sucede para cada um dos músicos que com maior frequência se apresenta em formações muito mais contidas. A título de exemplo, pode referir-se que vimos recentemente seis destes músicos — Mané Fernandes, Teresa Costa, Duarte Ventura, João Almeida, Mariana Dionísio e Pedro Melo Alves — no festival Profound Whatever, no Fundão, a tocarem em formatos que oscilaram entre o solo absoluto, o duo e o trio, formações possíveis em eventos de fôlego financeiro modesto, justamente aqueles que tendem a ser mais permeáveis às manifestações musicais mais desafiantes e criativas.

O Omniae Large Ensemble ocupa um lugar singular no percurso de Pedro Melo Alves, baterista e compositor que tem feito da expansão formal uma das marcas centrais da sua escrita. Nascido originalmente como septeto, o projecto afirmou-se em 2016 ao vencer o Prémio de Composição Bernardo Sassetti, mas conheceu uma transformação radical em 2020, quando uma encomenda do Guimarães Jazz levou Melo Alves a ampliar esse corpo inicial para uma formação de perfil orquestral. Com novos arranjos e direcção do percussionista e maestro Pedro Carneiro, a música estreou-se então como uma arquitectura de grande escala, reunindo intérpretes oriundos da música clássica, da improvisação, do jazz, da música experimental e da electrónica.

Um ano mais tarde, o álbum Lumina, editado pela Clean Feed, consolidou essa mutação, dando forma discográfica a uma música de amplo fôlego, tão atenta à escrita como à vertigem do desconhecido. A atenção crítica internacional confirmou a força da proposta: o ensemble foi distinguido, como referem as suas apresentações formais, como “Best Revelation Group” na votação da El Intruso, viu Lumina eleito Melhor Álbum Nacional pela Jazz.pt e nomeado para Melhor Álbum de Jazz nos Prémios Play. Agora, o projecto apresenta-se como um organismo ainda mais robusto, reunindo uma constelação de músicos activos entre Porto, Lisboa, Berlim, Nova Iorque, Berna ou Amesterdão.

Ao longo de quase duas horas, Pedro Melo Alves guiou o seu Omniae Large Ensemble por um significativo conjunto de peças que só pontualmente se alinhavam com modos mais próximos do “jazz” e que podemos mais facilmente classificar como música contemporânea, escrita, complexa e claramente exploratória. Sim, é verdade que a palavra “exploratória”, usada como descritivo para “música”, se tornou tão ubíqua que às vezes parece já tão despedida de sentido quanto outras como “ambiental” ou “experimental”. Mas, na realidade, é uma palavra que assenta como uma luva a música que procura novas possibilidades de expressão harmónica, rítmica ou cromática, fazendo da imaginação e da criatividade mais desafiantes o seu impulso principal. E esse foi certamente o caso da música que o Omniae Large Ensemble apresentou no passado dia 3 de Julho.

É importante referir que todos os músicos reunidos por Pedro Melo Alves têm apuradíssimas capacidades técnicas nos seus respectivos instrumentos, que muitos deles são líderes em múltiplos projectos – casos de Mariana Dionísio, Duarte Ventura, João Pedro Brandão, Mané Fernandes, Kit Downes ou José Soares, por exemplo – e que todos são dotados improvisadores. Qualidades que, certamente, o compositor levou em linha de conta na hora de gizar este ensemble. A música que juntos tocaram no Theatro Circo mostrou-se vibrante, viva e pulsante de formas inesperadas, umas vezes mais sombria e introspectiva, outras mais luminosa e empolgante, outras ainda tão sinuosa como os cursos de água que procuram caminho em paisagens acidentadas, resultado de pautas que quase de certeza continham espaços destinados a oferecer liberdade interpretativa a cada um dos executantes convidados. Os arranjos de Melo Alves recorreram também ao máximo de possibilidades cromáticas que um ensemble com ricas secções de cordas vocais e de sopros, dois pianos – e um órgão… –, um ágil contrabaixo e uma subtil, mas ultra-expressiva guitarra permitia.

Uma palavra para Kit Downes: do seu orgão e do piano que usou pontualmente com técnicas estendidas, debruçando-se sobre o seu mecanismo interior, extraiu sempre vibrações harmónicas de enorme beleza e expressividade, que se enredaram no som colectivo como uma hera, acrescentando cor e vida a um organismo já de si bastante luxuriante. Com o som de frente “orquestrado” pela magnífica Suse Ribeiro e um desenho de luz rigoroso e exemplar, o concerto desenrolou-se num ápice, dando a ideia de que o tempo suspendeu o seu passo apressado por um par de horas. Algo que só acontece quando nos deslumbramos a observar um admirável mundo novo.


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