Dois músicos, duas guitarras, dois países: China e Japão. Afonso Cabral iniciou a digressão asiática de oito datas acompanhado pelo guitarrista Pedro Branco. O Rimas e Batidas assistiu ao segundo concerto e aquilo que o duo nos ofereceu foi… chef’s kiss.
Afonso Cabral e Pedro Branco são nomes que, a cada dia que passa, adquirem mais e mais visibilidade por baixo dos holofotes da música contemporânea portuguesa. Os artistas voaram para a Terra do Meio, para depois seguirem para a Terra do sol nascente com o objetivo de dar oito concertos onde não só revisitam temas antigos, como também apresentam malhas novas.
A primeira atuação foi em Shenzhen, a cidade vizinha de Hong Kong, no dia 2 de Julho. No dia 3, puxámos uma cadeira, sentámo-nos e apreciámos o que esta dupla, já conhecida há muito (visto que ambos são membros do grupo You Can’t Win Charlie Brown), nos ofereceu em Macau. O local é a Casa Garden, um espaço construído no século XVIII que ainda hoje recebe vários artistas. Passados pela entrada principal deste edifício branco com contornos cor-de-rosa, entramos pela porta à direita. Seguimos as indicações que apontam para o local do concerto — um pequeno auditório com cadeiras estilo “escola dos anos 90”, com uma mesinha de apoio incorporada. A sala vai enchendo e as luzes vão diminuindo de forma a criar aquela meia-luz aconchegante de quem aterrou num local confortável.
A delegada da Fundação Oriente em Macau, Catarina Cottinelli, fala de como o concerto representa o fim das comemorações do Junho, Mês de Portugal e dá as boas-vindas ao público. Depois de uma breve apresentação, sente-se a expectativa daqueles que permaneciam neste espaço.
Afonso apresenta-se com uma t-shirt castanha, umas calças pretas e um boné encarnado gasto (como se tivesse sido comido pelo sol). Pedro vem de camisa de manga curta verde às riscas mais escuras e com umas calças castanhas. Com este cenário, já compreendemos o tom deste presente musical. Vamos observar dois amigos próximos a cantar para nós.
Os dois pegam nos instrumentos e transformam-se num único ser. Pedro Branco com uma guitarra elétrica de madeira clara e Afonso Cabral com uma clássica azul escura e castanha escura. A sombra apodera-se do auditório, mas há uma luz forte que aponta para os músicos. Apesar deste noir espacial, conseguimos observar perfeitamente os vultos das dezenas de pessoas que estão prontas para apreciar o espetáculo.
Cala-se o silêncio com “Manel”, um tema do disco Demorar de 2024, o LP mais recente de Afonso Cabral. O som é uma dedicatória a um dos filhos do músico. Quando questionado, o cantor confessou que demorou algum tempo a falar sobre o porquê de existir uma faixa totalmente dedicada a um dos descendentes… “Eu não queria misturar a promoção do disco com este assunto. Mas este tema fala de um assunto sério. O meu filho [Manel] tem uma síndrome raríssima chamada Síndrome de Koolen-de Vries. O disco é sobre isto: lidar com as expectativas, aceitar os tempos de cada um. Por isso é que todo o disco é dedicado a ele e ao Tomás também”.
Depois de termos consciência do significado do tema, o momento ganha uma força maior. Afonso toca e canta numa afinação perfeita “Manel traz de volta o frio”. E esse frio, levantou-nos os poros. Pedro Branco vai entrando lentamente e acaba por acompanhar a melodia. Depois da lírica completa, terminamos o primeiro momento de espetáculo com sussurros do vocalista: “Mostra-me que mundo é este”. E o público aplaude meio confuso e perdido sobre o que acabou de acontecer.
Para nos dar algum norte, Afonso Cabral quebra o gelo e começa por falar sobre como é bom (e estranho) estar num local tão longe, mas onde pode falar português. De repente, um ritmo ligeiramente mais forte e menos sentimental veste a sala com outros tons. Ouvimos “Morada”, a faixa 2 do primeiro LP do artista, lançado em Julho de 2019.
“Leva-me a conhecer o teu lugar, a casa onde aprendeste a sonhar”, canta-nos Cabral. A calmaria desta fase slow inicial ganha força quando a lírica “Se casa é mãe, cama e um telhado” sai cá para fora. Há uma parte da atuação em que ambos estão a sentir a música de forma diferente. Afonso Cabral dança com a guitarra, Pedro Branco demoniza-a, como se fosse extensão do corpo. Isto provoca uma estranheza ligeira no corpo que é acentuada com os graves da guitarra de Pedro Branco a fechar. Falta de hábito por estarmos acostumados a um crescendo? Quiçá. Mas resultou. Ainda só tocaram duas músicas, mas o público já está delirante e pede bis.
Desse Morada de 2019, outra escolha musical: “Verso e Refrão”. A faixa, que originalmente conta com Margarida Campelo e Inês Sousa nos backvocals, ficaram reduzidas aos agudos esforçados de Afonso Cabral. Começou a medo, acabou em bem. Os artistas em palco estão de olhos fechados, quase como a convidar-nos a fazer o mesmo.
Chega a hora de uma das estrelinhas da festa, “Demorar”, a faixa que dá nome ao disco mais recente e é outra dedicatória ao Manel. Na versão original esta também é em colaboração. Aqui, a artista que sobressai é Manuela Azevedo (dos Clã). Visto ser humanamente impossível Manuela Azevedo estar presente, Afonso Cabral assume novamente as duas partes do dueto. “Podemos demorar sem termos horas certas para chegar” e “só caminhando sempre ao teu ritmo, quando estiveres pronto” são as frases que mais calam qualquer barulho que se estivesse a ouvir naquele pequeno velho auditório.
Como as colaborações ficaram todas para o meio do line up. Ouvimos agora o featuring com o cantor, compositor e multi-instrumentista japonês Shugo Tokumaru. Improvável? Sim. Lindíssimo? Também. “Confusão / ざわめき” perde o sentido cantada ao vivo sem Tokumaru. Apesar de ser uma música maravilhosa, o toque nipónico transporta a track para um patamar superior. Se desiludiu? Não. Só o faria se Afonso não a tivesse tocado.
Como estamos a falar de demoras e esperas e tempos, o cantor decide que está na altura de abandonar o palco. Pedro Branco fica sozinho uns bons 15 minutos e passa a entretainer com o solo de guitarra elétrica que nos ofereceu. Foi algo completamente experimental onde passámos de ritmos mais intensos para mais calmos, de ataques epilépticos para acordes maravilhosos e de ambientes perdidos, mas mais tarde reencontrados. No final deste frenesim, começamos a ouvir uns acordes que soltam gargalhadas tímidas e expectantes de um público remexido. “Maravilhoso Coração” ganha vida em versão instrumental na guitarra elétrica do Pedro.
O vocalista sobe de novo a palco e voltamos a ficar ansiosos com o que aí vem. Afonso Cabral apresenta o mais recente tema de Pedro Branco. “Não Canto Porque Sonho”, cover de um tema de Fausto Bordalo Dias com os convidados Noiserv e Tipo. Sem dúvida um dos melhores momentos musicais deste concerto. Ouvimos 23 segundos de uma guitarra sozinha que nos começa a colocar em introspeção. Afonso começa a acompanhá-la com “Não canto porque sonho, canto porque és real, canto o teu olhar maduro, o teu sorriso puro, tua graça animal”. Se as emoções já estavam à flor da pele, neste tema transbordaram. Ouvimos agora uma voz rouca nos versos “porque o fim não amadurece, nos teus braços deslumbrados, porque o meu corpo estremece, ao vê-los nus e suados”. É Pedro Branco. Deixámos de ter um público, passámos a ter estátuas de esponja. Todos os seres que se encontravam ali dentro, decidiram não se mexer para não estragar a obra musical presente naquele local. Enquanto isto acontecia, absorviam todos os acordes que dançavam ali dentro. Mas o que foi nota 100, foi o dueto intercalado que os músicos fizeram no tema. Não se complementavam. Estavam em direções opostas, enquanto caminhavam juntos. Foram um, divididos em dois. Mistério da fé.
O tema escolhido para ser apresentado em oitavo lugar chama-se “Resistir”. Voltamos ao disco Demorar. As duas guitarras tocam alegremente e levam-nos para um ambiente muito intimista, muito próximo. Afonso assume as rédeas e Pedro faz os backvocals (“não poder cantar sem o nó na garganta”). As vozes combinam bem, se calhar deviam fazer isto mais vezes.
Chegamos a “Perto”. O vocalista desabafa que foi o primeiro tema que escreveu em português. E enquanto conversa connosco, os nossos olhos prestam atenção a outra coisa… Uma das cordas da guitarra, partiu. Mas o espetáculo não parou. Estamos num momento da atuação mais cru, com uma letra mais fria. E, apesar de jogarmos com menos uma corda, ganhamos a aposta.
Seguimos logo para um dos momentos mais esperados da noite. As expectativas estavam elevadíssimas e Afonso Cabral não as quebrou. Foi o nosso convite para dançarmos com Afonso e Pedro na ilusão. O artista explica o sentido da música: “Tinha de a mandar cá para fora. Foi a primeira vez que lancei um tema sem um disco associado”. Afonso Cabral canta um género de fatalidade: o fim do mundo está a chegar. Mas, se assim for, que seja tão alegre como o tema.
Quase a fechar o concerto e depois dos agradecimentos, os artistas decidem enveredar pela “Entre as Palavras e os Actos”. Um sentimento de ação apodera-se. Estamos num cenário em que o foco não é a voz, mas sim a conjugação e coordenação instrumental. Para quem gosta de apreciar uma boa viagem só através da brincadeira dos acordes, esta é sem dúvida a música. Chegados ao final do som, Afonso Cabral canta sem instrumentos.
O concerto termina com a faixa nascida em 2017, no Festival da Canção. Francisca Cortesão decidiu convidar Afonso Cabral para cantar o tema, o qual o artista recusou, mas fez uma contra-proposta. “E que tal se compuséssemos a música juntos?” Dito e feito. “Anda Estragar-me os Planos”, um tema já interpretado por grandes nomes, como Salvador Sobral ou Tim Bernardes, começa com a guitarra clássica sozinha a dar-nos a orientação sonora. Passam 10 segundos e os agudos do vocalista assaltam-nos de rompante novamente. Ficamos atónitos com a melodia calma e romântica com que a faixa se desenrola. Foi um murro no estômago. Uma forma diferente de terminar um concerto, mas que, sem dúvida, foi a melhor decisão. Muitos parabéns.
Os artistas saem do palco e o público pede mais. Voltam a correr e decidem tocar um tema nada a ver com aquilo que tínhamos ouvido até então. Continuando com um lado romântico, o encore escolhido foi “I Remember”, que fala sobre memórias de um casal e nos mostra que a mesma experiência pode ser vivida de maneira completamente diferente aos olhos de cada um. A autora da faixa é Molly Drake, mãe de Nick Drake. Apesar da canção ter adquirido fama postumamente, a homenagem que Afonso Cabral e Pedro Branco fizeram a uma música de tamanha qualidade e que — ainda por cima — influenciou o inconfundível Nick Drake, foi maravilhosa.
O momento musical final fechou a noite com uma onda de calor que refletia a beleza de um concerto bem sentido. Todos aplaudiram, ouviram-se manifestos vocais de contentação e houve quem fizesse uma ovação. E esta foi apenas a segunda data da digressão… Afonso Cabral e Pedro Branco já tocaram em Zhuhai, no Antique 3000, e no Chez Trente, em Hong Kong. Neste momento já estão em terras nipónicas onde vão tocar dia 8 no Elevaty de Osaka, dia 9 no Submarine de Kyoto, dia 10 no Stiff Slack de Nagoya e terminam a digressão no Wall&Wall em Tóquio. Se continuarem com esta qualidade, o Japão vai passar noites maravilhosas.