A etapa derradeira do primeiro fim-de-semana do Julho é de Jazz começou no gnration com talento local. Os bracarenses C.O.R. fugiram ao calor e em vez de se apresentarem no pátio exterior daquela sala, usufruíram do bem vindo ar condicionado na blackbox, o que, na realidade, pareceu ser a opção mais adequada para a apresentação do seu registo de estreia, Oxor, que acaba de merecer edição da Carimbo Porta-Jazz: é que o jazz straight ahead do trio formado pelo contrabaixista Gonçalo Cravinho Lopes, pelo saxofonista Lucas Oliveira e pelo baterista João Rocha impôs-se como uma fresca e retemperante brisa na tarde do último sábado.
Havia, de resto, uma lógica de oficina e descoberta no modo como C.O.R. se apresentou: o projecto nasceu de uma encomenda do gnration a Gonçalo Cravinho Lopes, mas rapidamente se transformou num exercício de equilíbrio triangular, em que cada um dos músicos contribui com duas composições originais para o alinhamento de Oxor. A esse corpo inicial juntou-se ainda uma peça pensada e desenvolvida em conjunto, espécie de assinatura colectiva que confirma a natureza democrática do trio. A sigla que os baptiza sugere precisamente essa passagem do som à cor, mas o que ali se escutou não foi tanto uma ilustração literal dessa ideia como a procura de diferentes incidências de luz sobre uma linguagem comum: temas de construção límpida e pulso diferenciado, com espaço suficiente para a expressão individual e uma energia colectiva que nunca precisou de forçar modernidade para afirmar frescura.
Também por isso, mais do que uma simples apresentação de uma estreia discográfica, o concerto funcionou como afirmação de uma geração que já se vai distribuindo por diferentes órbitas da nova cena jazzística nacional. Cravinho Lopes, contrabaixista, baixista e compositor natural de Braga, cruza trabalho em formações como OCENPSIEA, Fourward ou XauXauDodô com a direcção musical da JAM Jazz Orchestra; Lucas Oliveira, saxofonista nascido em Ovar e em formação na ESMAE, tem circulado pela Orquestra de Jazz de Espinho e por projectos como João Rocha 4tet, Onoma ou Pedra Quartet; João Rocha, baterista açoriano também formado na ESMAE, traz já no currículo colaborações com músicos como Carlos Bica, Gileno Santana ou José Pedro Coelho. Esse lastro, ainda jovem, mas claramente articulado, ajudou a explicar a segurança com que C.O.R. fez da exposição da matéria contido em Oxor uma promessa já em movimento. Um trio que certamente importará manter fixado nos nossos radares.



O programa previa a apresentação de um outro trio – completamente diferente – no mais amplo espaço do Theatro Circo. Ao passo que C.O.R. se movimentou ainda no território da descoberta e da afirmação de um idioma próprio, Maria João, André Mehmari e Carlos Bica subiram ao palco da sala principal da cidade de Braga com a segura leveza que só a experiência permite: três figuras maiores, vindas de geografias musicais distintas, reunidas numa colaboração inédita nascida de um convite do próprio Theatro Circo. A promessa anunciada – temas originais e releituras de peças emblemáticas – poderia fazer antever um encontro apoiado no conforto reconhecível do repertório e no prestígio acumulado dos nomes em cartaz. Na verdade, o que ali se procurou foi um espaço comum onde a canção, a improvisação, a memória jazzística, a escrita portuguesa e a imaginação brasileira se pudessem contaminar sem necessidade de obedecer a uma gramática única.
Havia, aliás, nesse encontro uma margem de risco assumida à partida. Maria João tem uma longa história comum com Carlos Bica – “até fomos namorados”, disse a dada altura, com a franqueza desarmante que também costuma projectar em palco –, recentemente prolongada em Close To You, álbum editado em 2023, e conhecia também a linguagem de André Mehmari, com quem gravou Algodão, lançado no ano passado. Mas os três nunca tinham tocado juntos neste formato e, ainda mais decisivo, Bica e Mehmari encontraram-se pela primeira vez no âmbito desta aventura. A curta digressão que os reuniu – seis concertos em seis dias consecutivos, de Faro a Lisboa, com passagem por Braga na sua quarta etapa – tinha, por isso mesmo, qualquer coisa de experiência em movimento, de objecto a revelar-se ao mesmo tempo que ia sendo criado.
A cantora, colocada no centro dessa equação, surgiu entre duas forças complementares: de um lado, a exuberância virtuosa de Mehmari, pianista capaz de fazer conviver sofisticação harmónica, lirismo popular, pulsação camerística e a riqueza infindável da música brasileira; do outro, a contenção mais contemplativa de Bica, contrabaixista que há muito aprendeu a transformar economia de meios em matéria expressiva. O ponto de partida foi precisamente esse desconhecimento mútuo resolvido em tempo real, essa disponibilidade para aquilo que Maria João nomeia com palavras como aventura, surpresa, inesperado. E foi daí que o concerto retirou a sua verdade mais funda.
O alinhamento ajudou, de resto, a perceber que aquele encontro permitiu expor o que se poderá descrever como uma espécie de cartografia afectiva da própria Maria João. De Mário Laginha chegaram os temas “Parrots and Lions” e “This Time”, sinais de uma parceria que continua a ocupar lugar central na forma como a voz da cantora se foi reinventando ao longo das últimas décadas. De André Mehmari foram interpretados “Duplo Falso Par”, com poema de Filipe Franco Nhoz, “Para Além do Alentejo” e “Do Sertão ao Mar”, esta última abrindo ainda caminho a uma citação de “Cais”, clássico de Clube da Esquina de Milton Nascimento, como se entre o interior brasileiro, a planície alentejana e essa ideia de cais se desenhasse uma mesma geografia imaginária de partidas, saudades e regressos. Carlos Bica assinou “Lucky” e “Iceland”, esta com palavras de Yeats, acrescentando ao mapa uma dimensão mais oblíqua e talvez até inesperada. A passagem por “Passarinhadeira”, de Guinga e Paulo César Pinheiro, o regresso a “Dário”, de João Farinha e Maria João, e o encore com “Iridescent”, da própria cantora, completaram esse percurso de forma reveladora mostrando que ali se estendeu uma rede de cumplicidades, memórias e afinidades emocionais.
Maria João continua a ser uma artista de corpo inteiro, literalmente. A sua voz dramatiza as melodias, desmonta-as, transforma sílabas em percussão, respiração em arquitectura, corpo em discurso. Mas também é verdade que a sua liberdade, por vezes transbordante e a espaços a ecoar a particular expressividade de Björk, encontrou aqui dois interlocutores capazes de lhe devolver foco sem lhe reduzir o raio de acção. Mehmari, pianista de imaginação torrencial, que nos solos pode até subtrair luz ao trio, preferiu quase sempre construir plataformas de delicada instabilidade para que a voz pudesse descobrir novas direcções. Bica, por sua vez, surgiu como elemento de gravidade e desvio, exibindo a sua sabedora e quase zen presença melódica, rítmica e narrativa, lembrando que o contrabaixo, nas suas mãos, raramente se limita a ser sombra.
Foi nesse jogo de escutas que o concerto encontrou a sua melhor respiração. O equilíbrio pareceu nascer precisamente da aceitação de uma certa imprevisibilidade criativa: a voz de Maria João ora procurava o canto pleno, até quase operático em determinados momentos, ora se libertava em jogos mais abstractos. Por sua vez, o piano de Mehmari abriu clareiras harmónicas mesmo quando atravessava território musical mais denso. E Bica manteve sempre o trio ancorado sem lhe retirar liberdade. O resultado foi um encontro em estado de formação, com a vulnerabilidade própria das primeiras conversas e a evidência de que a cumplicidade, mesmo quando ainda está a ser construída, pode produzir momentos de rara intensidade. Sabendo-se, ainda por cima, que esta curta digressão foi pensada para resultar numa futura edição ao vivo, talvez Braga tenha assistido não apenas a um concerto, mas a um dos capítulos iniciais de um disco em gestação.



