Na segunda quinzena de Julho os dias abertos da OSSO, estão de volta à aldeia de São Gregório nas Caldas da Rainha. Entre os dias 17 e 26, haverá vinte diversas actividades, respeitantes a concertos, filmes, performances, instalações, culinária, um soundwalk e uma oficina. Além dos espaços da Associação Cultural OSSO, que durante o ano é local de acolhimento e criação, entre artistas associados e outros selecionados voltam grupos, projectos e ideias que tem apoiado, as actividades irão estender-se a outros locais da Aldeia de São Gregório, como o Salão de São Gregório, o Armazém 75 e o Café “O Fidalgo Amanhecer”.
As dinâmicas e sinergias resultantes deste evento não só fortalecem a vida cultural da região, como afirmam a relevância da associação no desenvolvimento deste território rural, como refere a apresentação do evento, em segundo ano de reafirmação.
O programa inicia-se com dois concertos. Primeiro com a dupla Mafalda Costa & Marcelo Reis com “Vestígios da Furna” (sex 17, 19h na Sala Piano da OSSO), onde as esculturas-velas encontram os processos sonoro numa acção singular entre o fogo e som. Depois no mesmo dia o trompetista João Silva vai juntar à percussão de André Hencleeday para SUCURI (21h na Sala Piano), um novo território onde as composições se tornam rituais sonoros que equilibram ordem e caos, estrutura e espontaneidade. Sara Marques & Santiago Tricot convidam-nos para um soundwalk (sáb 18, 17h na Eira da OSSO), em que “Holding Listening” será uma áudio‑caminhada traçada num percurso pelas paisagens de São Gregório como um exercício de escuta expandida. De seguida um acto performativo por Juju Bento (19h45 na Adega Estúdio da OSSO), que integrou as residências de longa duração da OSSO em 2025 com “O Pulmão de Lustre”; combinará som, escultura e imagem numa coreografia visual e sonora, proporcionando um ambiente imersivo ancorado no gesto e na sensibilidade. No Salão de São Gregório (20h) espaço para um Jantar Comunitário, a cargo do chef Hugo Brito, que se tornou uma presença indispensável nos dias abertos da OSSO. Ainda no mesmo espaço OMNISPECTRUM (21h30), reflectirá as visões de Jorge Quintela, Henrique Fernandes e Inti Galhardo; registos fílmicos do deserto de Atacama (Chile), território do povo Chinchorro, articulando memória ancestral, ecologia e espiritualidade, desvelando a teia de relações do humano à natureza. A harpista Angélica Salvi junta-se à poesia performática de Nuno Marques Pinto em HARPOEMACTO para o programa “Harp’oemas” (22h45, Sala do Piano da OSSO); como melhor descrevem “o encontro entre uma Harpa e uma Voz, a criação de uma nova língua, escavar buracos em toda a parte, um rodopiar de cabeças, um tiro no escuro acidentado do assombro. HARPO MARX EM VERSÃO OPERÁTICA.”
Ao terceiro dia, do primeiro bloco, ARCA estende-se à arte das imagens em movimento, e no café “Fidalgo Amanhecer” pelas 16h, espaço para uma “dupla sessão” em torno do cinema. Primeiro e inserido no programa VEREDAS — propõem-se uma leitura descentralizada do cinema nacional, com uma obra em diálogo directo com a identidade e o território local. Depois haverá “Histórias sem Fronteiras”, uma iniciativa da Associação para o Pensamento Crítico, Cultura e Desenvolvimento – Hirundo, um projecto que responde aos desafios de integração associados à diversidade cultural, linguística e social, através da criação de curtas‑metragens baseadas em histórias reais, num ambiente colaborativo.
O segundo bloco de programa da ARCA começa com a Oficina de Improvisação Vocal Colectiva e Ritmos com Sinais conduzida por Aixa Figini, que terá lugar no Salão de São Gregório (qui 23, das 15h—19h30). A cantora, compositora e produtora argentina Aixa Figini convida o público a integrar um coro improvisado, transformando a voz, o ritmo e o corpo em ferramentas de criação coletiva. Em Vozes de Improvisação Colectiva (sex 24, 18h no Pátio da OSSO) será apresentado como resultado da oficina de improvisação vocal com os participantes do dia anterior, assente no diálogo improvisado, na escuta mútua e na coordenação espontânea. O contrabaixista Gonçalo Almeida apresenta “Resonant Debris”, o mais recente solo do músico, explorando o seu instrumento amplificado e preparado em diálogo com gira-discos manipulado. Onde a amplificação expõe detalhes ocultos e expande a ressonância do instrumento, enquanto os gira-discos adicionam loops, saltos e ruído de superfície como material composicional. O duo @c, constituído por Pedro Tudela e Miguel Carvalhais, junta-se a Rodrigo Carvalho (aka Visiophone) para 30×N (21h, na Eira da OSSO), uma performance audiovisual com um sistema modular e três performers que interagem numa composição generativa com som, luzes e visuais projectados no espaço ao ar livre, numa antiga eira de cereais.
De volta ao Salão de São Gregório, NÛR (sáb 25, 17h) como encontro da dupla Babak Baharestani (setar e voz) e Radin Baharestani (teclados) com Hugo Bernardo (voz, tanbura e metalofones) é traduzível para “Luz”, uma performance sonoro‑visual, estruturada em oito andamentos, articulando improvisação e composição coreografada, aproximando‑se do universo modal do Dastgāh. Samuel Gapp e João Ghira em Fevereiro último estiveram na OSSO em residência, “Artigo Indefinível” (25, 18h na Adega Estúdio da OSSO) é uma declinação expositiva do trabalho desenvolvido; uma instalação que examina como perceção e subjetividade são moldadas pelo movimento, pelo som, pelos materiais e pelo espaço enquanto ecossistemas em transformação. “Requiem” (25, 19h na Sala do Piano da OSSO) é uma proposta de Mariana Dionísio na voz com a guitarra de João Carreiro, têm-se debruçado a repensar o formato de uma missa fúnebre, no seu original em latim; para esta apresentação contam com a participação do artista Lucas Xerxes na construção de instrumentos electrónicos. Sem sair do espaço da OSSo haverá um Jantar Comunitário (20h) pela mão de Gabriela Silva, uma aldeã de São Gregório, foi das primeiras pessoas da aldeia a abrir as portas à OSSO e, com ela, trouxe uma aldeia inteira; cozinha com a generosidade de quem aprendeu que alimentar os outros é uma forma de cuidar do mundo. “Debaixo da Terra” (25, 21h30 na Eira da OSSO) trará Mariana Fernandes de volta à OSSO depois da residência, para uma performance onde é anunciado que irão enterrar fragmentos de tempo — uma verdadeira arqueologia do futuro — onde o acto fúnebre abre a possibilidade de uma vida eterna e de um diálogo infinito com o que ainda virá. E o que ha-de vir, para encerrar em grande formato ARCA na sua segunda edição será o Ensemble of Other Living Beings (25, depois das 21h30, na Eira da OSSO) um organismo alargado composto por João Almeida e Yaw Tembe (trompetes e direcção artística), João Pereira (bateria), Carlos Godinho (percussão e electrónica), Álvaro Rosso e Bernardo Álvares (contrabaixos), Joana Guerra e Helena Espvall (violoncelos e vozes), Norberto Lobo (guitarra eléctrica), Bernardo Tinoco (saxofones), Teresa Costa (flauta), Leonor Cabrita (voz e piano) e Raquel Lima (voz). Uma assembleia de prodigiosos criadores dispostos a cruzar tradições folclóricas com abordagens contemporâneas de composição — passando pelo jazz, free jazz, música eletrónica e outras linguagens ainda por catalogar, festim na senda do que a Facada Records como casa vai abrigando melhor.