Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?
7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal nos terrenos do hip hop e electrónica. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto de novo, com tanto para espreitar e escutar.
[Daynight] “CONSELHOS”
“Rua” não pode ser sinónimo de “desleixo”, e nesse capítulo Daynight tem “CONSELHOS” suficientes para dar a quem se deixa encostar. “Não vim fazer por moda, vim bater na mente” é como se apresenta na bio das plataformas de streaming e é precisamente isso que nos faz sentir com o mais recente single extraído do seu novo EP EntreTempos. Apesar de apenas ter ingressado no rap em 2025, o MC de Lisboa tem caneta afiada e knowledge para partilhar com quem o escuta — ingredientes suficientes para captar atenções sem recorrer a truques fáceis.
[Plutonio] “Corrida Para Alvalade”
Ainda na tuga, Plutonio confirmou a subida de escalão e está agora numa liga à parte a preparar a temporada 2026/2027. O rapper do Bairro da Cruz Vermelha moveu uma legião de fãs para uma corrida solidária no passado domingo e terminou o evento a fazer o maior anúncio da sua carreira — e até do hip hop nacional em geral. Dia 5 de Junho do ano que vem, Plutonio apresenta-se em nome próprio no Estádio José de Alvalade, num evento que desafia por completo as normas do mercado português. Pioneiro na invasão aos estádios de futebol, o autor de Carta de Alforria deu o mote com este “Corrida Para Alvalade”.
[Cassol] “Astrociv”
Também do Brasil chegam provas de que o street rap deve ser encarado como forma de arte em absoluto e não apenas um veículo para largar baboseiras. A operar no segmento underground — provavelmente não por muito mais tempo… —, Cassol tem sido fonte inesgotável de versos apenas alcançáveis por quem demonstra ter perícia na caneta. Depois dos EPs Feeling e Phobos em 2025, este ano já nos acenou com o álbum Vermelho Sangue, Amor e Guerra e com o curta-duração Kintsugi, bem como com um agradável número de singles, como é o caso deste “Astrociv”, que chegou sem pedir licença para brindar ao hustle de um dos rappers mais completos a despontar em solo brasileiro.
[namebliss & Paul Stephan] “run it”
Juntos ou em separado, namebliss e Paul Stephan têm agitado as águas no game do Reino Unido pela forma como combinam grime, boom bap ou jazz numa mesma equação sonora. A mestria de ambos foi até já destacada pela Notion, que os apontou (bem como ao produtor Bexblu, colaborador de ambos) como responsáveis por estar a “moldar a nova era da música britânica”. “run it” é mais recente bomboca da dupla, uma malha tão concreta quanto etérea e que chega com o aviso de que namebliss está neste momento a trabalhar num novo álbum, numa altura em que se prepara para se juntar a uma lista de nomes de maior dimensão (de Smino a Greentea Peng) no cartaz do londrino Jazz Cafe Festival.
[FKA twigs] “On Your Mind” feat. Lil Yachty
FKA twigs regressou com “On Your Mind”, a primeira faixa inédita da artista desde Eusexua Afterglow, do ano anterior. Aqui serve-se da colaboração com Lil Yachty para cruzar a pop futurista e o R&B alternativo que definem a sua identidade sonora com o experimentalismo melódico característico do rapper norte-americano, resultando numa música em tom de rave onírica que se revela um encontro tão inesperado quanto intrigante entre os dois.
[Rico Nasty] “Cupcake”
“Cupcake” é o segundo avanço do quarto álbum de Rico Nasty, RX, previsto para nos chegar aos ouvidos já a 24 de Julho. É também a segunda malha que volta a juntar a rapper de Maryland a Kenneth Blume (anteriormente conhecido como Kenny Beats), reatando uma parceria que remonta à mixtape conjunta Anger Management, de 2019. O tema aposta no lado mais colorido e enérgico de um trap açucarado, um desvio face a Lethal (2025), disco que se tinha aproximado do rap-rock e de uma produção mais orientada para a guitarra. “Cupcake” sucede a “Rituals” no caminho para o próximo LP de Rico Nasty.
[Liim] “Is Loving Really Bad?”
Jovem mas já a levantar ondas, o nome de Liim apanhou muita gente de surpresa quando citado por Tyler, The Creator numa entrevista dada no ano passado, descrevendo o emergente talento nova-iorquino como uma mistura entre Stereolab e Max B. A combinação pode soar estranha, mas talvez ajude se atirarmos para o meio da fórmula mais alguns ingredientes, como Smashing Pumpkins ou Frank Ocean. Seja de que forma for, basta escutar o álbum de estreia Liim Lasalle Loves You para percebermos que a música deste artista é tudo menos fácil de catalogar, desafiando todas as regras de etiquetagem que costumamos ver associadas ao que brota a partir dos campos do hip hop, bem ao estilo do que festivais como o Mucho Flow gostam de dar a conhecer ao público — o certame de Guimarães garantiu-o mesmo para a edição deste ano. Agora que tem todos os olhares centrados em si, lançou “R.I.P Peace”, este “Is Loving Really Bad?” e ainda esteou “Machete Summer” no A COLORS SHOW.