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O primeiro fim-de-semana do evento contou com quatro bons concertos.

Jazz no Parque’26 – dias 1 e 2: programação com visão própria

Com programação de Rodrigo Amado desde 2022, o Serralves Jazz no Parque é, hoje, um pequeno oásis no panorama musical português: um festival de jazz de vanguarda e música criativa com uma linha consistente, resultante de uma escuta atenta ao que de melhor se vai fazendo nestas áreas. Olhando para o cartaz da edição anterior, deparávamo-nos com nomes como Alexander Hawkins, Eve Risser, Joëlle Léandre, José Soares, Peter Evans ou Petter Eldh, entre outros. Ou seja, a mais fina nata da música criativa contemporânea: uma espécie de Jazz em Agosto de menores dimensões, mas com uma visão própria. Este ano, tivemos a oportunidade de assistir ao primeiro dos dois fins-de-semana do festival: quatro concertos que oscilaram entre a excelência e o francamente bom.

O primeiro dia começou com uma actuação excepcional, totalmente improvisada, do duo de Gabriel Ferrandini e Lotte Anker. Já várias vezes me pronunciei sobre a minha preferência por abordagens que encaram a improvisação como composição em tempo real, i.e., pela improvisação com um cuidado particular com a forma e em que a responsabilidade pelas consequências de cada gesto é assumida, por contraste a uma improvisação que diria sobretudo reactiva, sem uma visão de médio ou longo termo. Há, obviamente, um sentido em que toda a improvisação é composição em tempo real, mas nem toda a composição em tempo real, nesse sentido, se rege pelo mesmo tipo de disciplina formal: há música que soa claramente improvisada e música que, embora improvisada, soa composta ou, quando muito, em que a fronteira entre improvisação e composição é difícil de discernir. Este concerto foi particularmente notável na medida em que, embora toda a música tenha soado improvisada, algures entre as coordenadas do free jazz e da livre improvisação, jamais se mostrou preguiçosa ou rotineira. De facto, Ferrandini e Anker foram sobretudo reagindo um ao outro no momento, mas de um modo tão sofisticado que nunca a nossa atenção se dissipou: improvisadores com linguagens muito pessoais, casam muitíssimo bem, nomeadamente pela sua imensa gama tímbrica e dinâmica, que traz grande variedade e subtileza às suas interacções. Iam-se sucedendo ambientes distintos, nem sempre com uma relação óbvia entre si, mas que, individualmente, se afiguravam preciosidades sonoras. Sem escapar à circularidade característica desta abordagem à improvisação, com os seus habituais crescendos e diminuendos, não deixou de haver um certo fio condutor: talvez a própria convicção com que davam cada passo, mesmo quando numa direcção incerta. Ficou a clara impressão de que este duo já justifica um registo discográfico, pois existe nele o potencial de trazer frescura a uma tradição que muitos julgariam esgotada. Destaque ainda para o trabalho irrepreensível dos técnicos de som (Carlos Moreira) e luz (Diogo Lopes), que fizeram deste concerto um espectáculo total.

Seguiu-se, no espaço do court de ténis do Parque de Serralves, o projecto “Three Tsuru Origami”, do multi-instrumentista italiano Gabriele Mitelli, em trio com duas lendas vivas do jazz de vanguarda britânico, John Edwards e Mark Sanders. Um pouco na linha de alguém como Rob Mazurek, com quem vem inclusive colaborando, Mitelli desdobra-se por vários recursos expressivos: o trompete piccolo (acústico ou com processamento electrónico), a electrónica e a voz (falada ou gritada). Com uma secção rítmica poderosíssima, o trio opera a um alto nível de intensidade, o que não quer dizer que não haja também espaço para a contemplação e para o detalhe. Aliás, a apontar um ponto menos positivo ao concerto, este teve que ver com o próprio som, demasiado alto e confuso: à altura da primeira dimensão, mas não da segunda. Tratar este grupo como um “power trio” não deixa de ser uma perspectiva válida, mas oiçam-se os seus álbuns Three Tsuru Origami (2022) e Colapesce (2025), ambos editados pelo selo We Insist!, o segundo dos quais com a participação da saxofonista Camila Nebbia: aí, sobressaem uma série de subtilezas que o tipo de som adoptado aquando do concerto tende a obscurecer. Houve, em todo o caso, momentos de belo efeito, nomeadamente quando Mitelli se concentrou em exclusivo na electrónica, que se fundia timbricamente com o contrabaixo, daí resultando uma curiosa “selva sonora” (em tudo adequada ao cenário natural envolvente), propelida pelos grooves abstractos de Sanders. Edwards é, por seu turno, uma verdadeira força da natureza e ouvi-lo ao vivo é sempre um acontecimento. Outro factor de interesse residiu na ocasional introdução de certos fragmentos melódicos por parte do trompete, que, embora provavelmente espontâneos, também poderiam ter sido predeterminados, suscitando o tipo de dúvida que, enquanto ouvintes de música criativa, gostamos de ter.

O dia seguinte abriu com mais um excelente concerto no auditório, com o duo de Sara Serpa e Matt Mitchell a apresentar o seu álbum End of Something, editado no final do ano passado pela Obliquity Records. End of Something é uma obra importante, um contributo-chave para a história do duo voz-piano no âmbito da música criativa, e o concerto veio confirmar isso mesmo. Em particular, a música deste duo questiona, de um modo muitíssimo persuasivo, três dicotomias comuns: composição/improvisação, música instrumental/canção e música erudita/outras músicas. (1) As composições de Serpa e Mitchell vão desde peças mais longas e intricadas a pequenos fragmentos a partir dos quais improvisam, verificando-se, em ambos os casos, uma estreita continuidade entre o material predeterminado e o material espontâneo: por vezes, a fronteira entre ambos é indiscernível (como no caso de alguns dos fragmentos, da autoria de Mitchell), mas, mesmo quando esta é evidente, trata-se de uma diferença entre exposição (predeterminada) e desenvolvimento (espontâneo) e não entre tema e solo. Serpa e Mitchell improvisam, pois, de um modo inteiramente composicional. (2) Com excepção de “News Cycle”, as composições de Serpa incluem palavras, ao passo que as de Mitchell são puramente instrumentais. Ora, também a este respeito se verifica mais continuidade do que ruptura: se, por um lado, é comum falar-se em canções sem palavras, poderíamos, por outro, caracterizar alguma da música de Serpa como música instrumental com palavras. (3) Serpa e Mitchell são muito mais do que músicos de jazz: são músicos criativos, no mesmo sentido em que Bach ou Monk o foram. Se a sua música cabe, claro, em programas de jazz, também caberia, sem reservas, em programas de música erudita contemporânea. Por exemplo, da mesma maneira que o seu arranjo de “Les bergers”, de Messiaen, poderia ter sido composto por Serpa ou Mitchell, também alguma da música original de ambos poderia ter ser sido composta por Messiaen. Por outras palavras, longe de qualquer crossover espúrio que assuma um dualismo entre “jazz” e “clássica”, esta incorporação de Messiaen no seu repertório demonstra que a música deste duo de compositores contemporâneos e a do compositor francês advêm largamente da mesma fonte.

O fim-de-semana terminou com mais um concerto que pareceu feito à medida da natureza que rodeia o court de ténis: o trio, sem líder, de Ziv Taubenfeld, Helena Espvall e João Sousa, cujo álbum de estreia You, Full of Sources and Night (No Business Records) foi também editado no final de 2025. Mais um concerto totalmente improvisado, destacou-se sobretudo pelos seus últimos dois terços, em que, depois de alguma deambulação incerta, tudo pareceu entrar nos eixos, seguindo-se um percurso de grande beleza, foco e profundidade emocional. Composto por três personalidades singulares, este trio faz plena justiça ao lema “Ancient to the Future”, criando uma música com tanto de ancestral ou tribal como de contemporâneo. O seu espectro estilístico é imenso, integrando elementos que vão desde o free jazz à música de câmara, da folk escandinava ao krautrock, do noise ao drone, mas o resultado é sempre um todo coerente, tal o nível de síntese: podemos dizer que o trio tem já uma linguagem. Este é, além disso, um grupo de improvisadores para quem não parecem existir restrições para lá das próprias características individuais de cada um, levando, assim, a ideia de liberdade realmente a sério: por exemplo, não têm qualquer receio em abraçar a tonalidade, que, por vezes, chega a coexistir com camadas contrastantes, próximas do ruído. É também de notar a variedade de técnicas ou abordagens adoptadas por cada um dos três: de um fraseado mais jazzístico a técnicas estendidadas (Taubenfeld), do arco ao pizzicato (Espvall), da abstracção textural ao groove (Sousa). Nenhum dos músicos faz questão de se impor, podendo ficar em silêncio quando o resto está, por si só, a soar bem. Em todo o caso, o som do trio é geralmente denso, mas não por isso pouco claro, aspecto que a equipa técnica conseguiu, desta feita, captar. Saímos com uma sensação de catarse depois de assistir a algo tão orgânico e verdadeiro.


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