A guitarra de Shane Parish parece desconhecer fronteiras ou, mais exactamente, reconhecer que as fronteiras entre linguagens, tradições, épocas e tecnologias existem sobretudo para poderem ser atravessadas. Nas suas mãos, uma composição de Alice Coltrane pode aproximar-se de uma balada dos Apalaches, o jazz de Ornette Coleman conviver com a pop oblíqua dos Sugarcubes e uma sequência electrónica concebida por Autechre ser devolvida ao mundo através de seis cordas de aço, dez dedos e uma memória musical suficientemente ampla para escutar relações onde normalmente apenas se encontrariam distâncias.
É essa capacidade de tradução – entendida como transformação estrutural e estratégia de descoberta de sentidos subterrâneos – que Parish levará ao Extremo, no dia 18 de Julho, às 19h00, na Capela de Santa Maria Madalena, na Falperra. O concerto integra a segunda edição de um festival que se estende ao longo de um dia pelo território de fronteira entre Braga e Guimarães, relacionando música exploratória, arquitectura religiosa, paisagem e natureza numa espécie de breve peregrinação artística. A entrada é livre.
Quem assistiu à passagem do guitarrista norte-americano pelo Jazz em Agosto, a 9 de Agosto de 2025, saberá já que “tradução” não significa, no seu caso, uma operação cerebral destinada apenas a demonstrar virtuosismo ou erudição. Na crítica então publicada no Rimas e Batidas, a imagem tutelar escolhida para descrever o concerto foi a da inscrição que Woody Guthrie gravou na sua guitarra: “Esta máquina mata fascistas”. Não porque Parish fizesse música explicitamente política, mas porque o instrumento acústico parecia recuperar a velha crença de Guthrie na música como “uma ferramenta de resistência e empatia”, capaz de produzir harmonia, inspirar a paz e contrariar “as energias malignas que vão manchando o mundo”.
Depois de ter surgido na véspera à frente dos eléctricos e abrasivos Ahleuchatistas 3, Parish “desligou a corrente” e apresentou-se sozinho com uma Taylor de cordas de aço. O repertório percorreu, como então escrevemos, “a distância incomensurável” que separa os ecos medievais da folk britânica de Davey Graham do jazz espiritual de Alice Coltrane, passando pelos Sugarcubes, Minutemen, Geeshie Wiley, Charles Mingus, Ornette Coleman, Aphex Twin e Rahsaan Roland Kirk. Mais do que um alinhamento ecléctico, era a demonstração prática de uma hipótese estética: toda a música pode comunicar com toda a música, desde que o intérprete encontre o ponto exacto em que a identidade de uma obra deixa de depender exclusivamente dos seus materiais originais e se revela enquanto impulso de reinvenção e radical apropriação para este tempo daquilo que tantas vezes se julga confinado aos terrenos distantes da memória.
Essa noite lisboeta forneceu ainda uma pequena prova da extraordinária capacidade de adaptação de Parish. A guitarra utilizada tinha sido alugada em Portugal e chegara-lhe às mãos apenas nesse dia ou na véspera. Porém, quem desconhecesse tal circunstância poderia acreditar, observava-se na mesma crítica, que músico e instrumento “sempre caminharam juntos, sempre mataram fascistas”. A técnica estava lá – avançada, precisa, aparentemente inesgotável –, mas encontrava-se inteiramente subordinada à comunicação. Parish agarrou desde o primeiro acorde o público que quase esgotou o Grande Auditório da Gulbenkian, provando ser verdadeiro o velho adágio que garante que não é a ferramenta que faz a arte, antes o artesão que sabe usá-la.
Nascido musicalmente muito antes de se afirmar como solista, Parish fundou os Ahleuchatistas em 2002, projecto de avant-rock cujo próprio nome funde “Ah-Leu-Cha”, composição de Charlie Parker, com os zapatistas mexicanos. O título do primeiro álbum, On the Culture Industry, remetia para Theodor Adorno e para uma ambição de produzir música subversiva não apenas pelo conteúdo, mas também pela forma. Nessa altura, o guitarrista procurava já libertar-se da dependência dos efeitos: depois de acumular pedais durante a adolescência, decidiu retirar tudo e descobrir quanto poderia extrair de uma guitarra limpa. O grupo chegou a editar nove álbuns de estúdio, cruzando rock de câmara, matemática rítmica, jazz, punk e improvisação, e reapareceu em Expansion, de 2022, com Trevor Dunn no baixo e Danny Piechocki na bateria. Paralelamente, Parish integrou o Bill Orcutt Guitar Quartet ao lado de Orcutt, Wendy Eisenberg e Ava Mendoza, formação onde quatro personalidades vincadas se entregam a complexas partituras de interligação eléctrica.
Mas foi sobretudo no trabalho a solo que começou a definir com maior nitidez o território que agora ocupa. Parish reconhece Janeiro de 2015 como o momento em que os seus múltiplos interesses – guitarra clássica, country blues, jazz, rock, formas folclóricas e improvisação livre – deixaram de representar compartimentos estanques e se fundiram num único modo de operar. A partir daí, já não sentiu que saltava entre géneros ou experimentava idiomas alheios: passou a dispor de uma voz própria, aquilo a que, numa entrevista ao site A Closer Listen, chama uma “máquina de síntese”. Aprender uma peça seria como introduzir dados nessa máquina; tocá-la, um acto de abandono, permitindo que o mecanismo interior encontrasse por si mesmo uma saída.
Essa consolidação coincidiu com uma redescoberta da interpretação enquanto centro da sua actividade criativa. John Zorn, que conhecia o trabalho dos Ahleuchatistas, encorajou-o a fixar algumas dessas experiências, editando em 2016, pela Tzadik, Undertaker Please Drive Slow. Nesse álbum, Parish submetia material tradicional norte-americano a processos de abstracção, redução e reorganização derivados tanto das músicas vernaculares como da composição experimental do século XX. Mais tarde, Bill Orcutt incentivá-lo-ia a reunir as suas adaptações para guitarra solo, impulso determinante para a criação de Repertoire. A interpretação deixava definitivamente de ser um projecto lateral: era, afinal, “o próprio trabalho”.
Editado em 2024 pela Palilalia de Orcutt, Repertoire permanece uma espécie de manifesto dessa arte de aproximação. Parish enfrenta aí peças associadas a Alice Coltrane, John Cage, Ornette Coleman, Charles Mingus, Eric Dolphy, Rahsaan Roland Kirk, Minutemen, Sugarcubes, Geeshie Wiley, Kraftwerk ou Aphex Twin, não procurando uniformizá-las, mas encontrando para todas elas um idioma guitarrístico coerente. O seu objectivo, explicou, era construir qualquer coisa que pudesse “empunhar”: um corpo de música amada, proveniente de diferentes géneros e compositores, que se tornasse simultaneamente repertório, ferramenta expressiva e matéria disponível para a improvisação.
A versão de “Avril 14th” é particularmente esclarecedora. Parish reconhece na peça de Aphex Twin, em declarações ao The Quietus, uma simplicidade próxima de uma canção infantil, mas também uma enorme concentração emocional e afinidades com a economia harmónica e rítmica de Erik Satie. Partiu de uma transcrição para piano, transpôs a composição para uma tonalidade mais favorável à guitarra, adoptou uma afinação em dó grave e alterou alguns registos, procurando tornar tocável aquilo que, no original, não fora imaginado para duas mãos percorrendo um braço com seis cordas. Não se trata de fidelidade literal, mas de uma fidelidade mais profunda à força emotiva da peça.
O passo seguinte foi dado com Solo at Cafe OTO, gravação de 2025 que documenta um concerto de guitarra eléctrica no cada vez mais incontornável espaço londrino. Aí, Parish mergulha em baladas da folk britânica associadas a Anne Briggs e Shirley Collins, em canções tradicionais norte-americanas recolhidas ou interpretadas por John Jacob Niles e até em “Sycamore Trees”, escrita por Angelo Badalamenti e David Lynch para o universo de Twin Peaks. A electricidade não serve para apagar o passado acústico dessas músicas, mas para lhes abrir novas zonas de sombra, duração e ambiguidade.
Porém, o seu gesto mais ousado chegou em Fevereiro deste ano com Autechre Guitar. O título possui a frontalidade de uma demonstração matemática e a estranheza de um paradoxo: dez composições de Autechre, dupla inglesa associada à electrónica mais abstracta, reescritas para guitarra acústica solo. Música originalmente construída com sequenciadores, programação, timbres mutantes, ritmos polimétricos e sistemas digitais é reduzida às possibilidades físicas de um instrumento de madeira e aço. Um homem, uma guitarra, duas mãos, dez dedos e, quando é mesmo necessário, um pé a marcar o tempo.
A ideia, contudo, levou mais de duas décadas a amadurecer. Courtney Chappell, companheira de Parish e destinatária da dedicatória do álbum, apresentou-lhe Amber, de Autechre, em 2002. O disco tornou-se presença constante no apartamento onde então viviam e Parish começou lentamente a decifrar “Slip”, cuja melodia se estende ao longo de 29 tempos antes de voltar a coincidir com o compasso quaternário que a sustenta. Rabiscou uma tablatura num caderno, regressando ocasionalmente ao problema durante os vinte anos seguintes. As adaptações de Kraftwerk e Aphex Twin incluídas em Repertoire convenceram-no finalmente de que poderia abordar um álbum inteiro de música electrónica e precipitaram a construção de Autechre Guitar.
Parish seleccionou apenas peças dos anos 90, concentrando-se em Incunabula, Amber, Tri Repetae e LP5: quatro temas do primeiro – “Maetl”, “Eggshell”, “Bike” e “Lowride” –, três do segundo – “Slip”, “Nine” e “Yulquen” –, dois de Tri Repetae – “Eutow” e “Clipper” – e “Corc”, retirada de LP5. A escolha privilegia aquilo que considera a idade de ouro melódica de Sean Booth e Rob Brown, período em que a crescente complexidade dos sistemas electrónicos ainda se articulava com motivos capazes de permanecer na memória. O disco foi gravado em casa, em Athens, na Geórgia, em Outubro de 2025, masterizado por James Plotkin e editado pela Palilalia, com grafismo de Bill Orcutt. Curiosamente, a fotografia interior da edição em vinil foi captada por Danny Piechocki durante o concerto de Parish no Jazz em Agosto.
A transcrição obrigou-o a decidir continuamente o que poderia conservar e o que teria de desaparecer. Autechre sobrepõem camadas rítmicas, baixos, melodias, ruído, reverberações, sequências e acontecimentos tímbricos que uma guitarra não pode reproduzir simultaneamente. Parish escolheu potenciar aquilo que o seu ouvido identifica como material melódico, trazendo para primeiro plano elementos que nos originais surgiam quase dissolvidos: as massas harmónicas que envolvem a batida de “Clipper”, os harmónicos semelhantes a feedback no interlúdio de “Maetl” ou as primeiras notas da segunda secção de “Corc”. A redução altera inevitavelmente as peças, mas também revela detalhes antes submersos. Como observa o próprio músico, uma vez mais ao site A Closer Listen, a guitarra pode ser “uma orquestra em miniatura”, desde que o intérprete saiba iludir o ouvido e levá-lo a preencher as lacunas.
É precisamente nessa diferença entre informação e sugestão que Autechre Guitar encontra a sua força. “Bike” conserva a melodia imediatamente reconhecível do original, distribuindo notas agudas semelhantes a gotas sobre um movimento pendular nos graves. Já “Eutow” afasta-se radicalmente da superfície electrónica de Autechre e reaparece como uma espécie de blues austero e faheyesco, vindo de uma solidão rural que pareceria não possuir qualquer relação com a imaginação futurista da dupla inglesa. Em “Nine”, os ataques deslizantes do original convertem-se em notas dobradas e inflexões de blues, permitindo ouvir nas máquinas de Booth e Brown uma memória da música negra norte-americana. “Clipper” e “Corc”, construídas sobre texturas menos obviamente melódicas, são reinventadas através daquilo que Parish consegue extrair das suas zonas mais atmosféricas.
A tecnologia não é, portanto, rejeitada em nome de um suposto regresso à pureza acústica. Parish compreende que os limites entre electrónico e acústico, popular e erudito, composição e interpretação são porosos. O que faz é colocar frente a frente diferentes tecnologias: de um lado, os sistemas digitais e as arquitecturas rítmicas de Autechre; do outro, uma máquina antiga formada por madeira, metal, tendões, músculos, memória e treino. A guitarra não humaniza uma música que fosse originalmente desumana. Mostra, antes, que a humanidade já se encontrava alojada no interior das sequências e dos timbres, à espera de outro corpo que a tornasse audível.
Para Parish, interpretar é uma forma de se aproximar da música que ama. Arranjar e tocar uma peça equivale, segundo uma imagem sua, a ler em voz alta uma carta de amor dirigida à própria canção ou a oferecer uma cassete a um amigo para lhe dizer: “Eu gosto disto; espero que também gostes”. Não pretende ser exuberante apenas para chamar a atenção, embora deseje que a música “cintile”. A técnica surge como consequência de um impulso afectivo: para alcançar mais profundamente aquilo que admira, o guitarrista aceita perseguir objectivos teóricos e físicos cada vez mais exigentes.
É também por isso que a sua música raramente soa a exercício académico, apesar da complexidade das operações que a sustentam. Depois de viver suficientemente com uma composição e de a “tornar sua”, Parish deixa de consultar o original. Passa a relacionar-se com as próprias interpretações, corrigindo-as, polindo-as e modificando-as num processo que considera interminável. O repertório torna-se um organismo vivo, capaz de crescer, contrair-se e abrir novos espaços para a improvisação. A obra interpretada não fica preservada numa redoma: continua a mudar porque encontrou outro músico dentro de quem pode viver.
Parish considera Autechre Guitar a melhor música integralmente composta que até agora arranjou e tocou. Encontra nessas peças harmonias menores e suspensas, melodias intemporais, grooves sincopados, partes móveis que se encaixam, elegância formal e uma paciência de desenvolvimento superior à sua. O estudo de Autechre ensinou-lhe a construir arcos narrativos com um número reduzido de sequências e, facto não despiciendo, proporcionou-lhe música que continua a ser estimulante praticar e apresentar.
Não se sabe ainda quanto desse disco ocupará o concerto na Falperra nem que outras peças poderão atravessar o programa. Mas a apresentação numa pequena capela, integrada num festival que procura dissolver os limites entre música, paisagem, arquitectura e natureza, parece oferecer o enquadramento exacto para uma arte baseada na passagem entre territórios. No Jazz em Agosto, Parish demonstrou que Davey Graham, Alice Coltrane, Minutemen, Sugarcubes, Geeshie Wiley, Mingus, Ornette, Aphex Twin e Rahsaan Roland Kirk podiam coexistir numa única guitarra sem perderem a identidade. No Extremo, poderá mostrar que a geometria electrónica de Autechre também contém melodias capazes de respirar no ar, ressoar na pedra e prosseguir viagem através dos dedos de um homem.
Shane Parish sabe que é importante escutar uma obra até encontrar nela outra obra possível. A sua guitarra não imita máquinas, saxofones, pianos, vozes ou conjuntos instrumentais: recorda-nos que todas essas formas podem ser traduzidas, desde que alguém esteja disposto a assumir as inevitáveis perdas da tradução e a descobrir nelas a possibilidade de um novo ganho. Essa é a singularidade da sua “máquina de síntese”: recebe música do mundo inteiro, desmonta-a cuidadosamente e devolve-a à circulação com a intimidade de uma confidência e a amplitude de uma linguagem universal.