O festival Sinsal SON Estrella Galicia regressa em 2026 com um formato alargado, distribuindo a programação por dois fins-de-semana e estendendo-se, pela primeira vez, até Braga, em Portugal. Considerado um dos festivais de música de referência em Espanha, o evento terá lugar entre 24 de Julho e 2 de Agosto, mantendo a ilha de San Simón como núcleo da programação, mas acrescentando novos espaços em Vigo, Oia e na cidade minhota.
A primeira etapa decorrerá entre 24 e 26 de Julho e preservará o formato habitual do festival, com concertos diurnos na ilha de San Simón, acessível apenas por barco a partir de Vigo e Meirande, e um cartaz secreto que só é revelado ao público no momento da chegada. Antes da travessia, a organização inaugura o festival com dois concertos na manhã de 24 de Julho, no Planetário do Instituto Marítimo Pesqueiro do Atlântico e na câmara semianecóica da Escola de Engenharia de Telecomunicações da Universidade de Vigo.
Na semana seguinte, entre 31 de Julho e 2 de Agosto, o Sinsal desloca-se para diferentes espaços do património industrial e histórico da Galiza, incluindo a Nave de Redeir@s, em Bouzas, o Museo do Mar de Galicia e o Real Mosteiro de Oia, terminando com um concerto da cantora e compositora Alondra Bentley. Pela primeira vez, o festival atravessará também a fronteira para Braga, numa colaboração com o Festival Semibreve, com actividades no Museu Nogueira da Silva e na Livraria Centésima Página, incluindo actuações dos músicos portugueses Tomás Alvarenga e Alcrud3.
Ao longo de seis dias de programação, o Sinsal reunirá 30 bandas, artistas a solo e DJs oriundos de 12 países de quatro continentes. A programação atravessa diferentes linguagens musicais, das músicas de raiz tradicional ao rock, hip hop, afrobeat, pop contemporâneo e electrónica, contando com representantes de países como Nigéria, Tanzânia, Mali, Egipto, Serra Leoa, Japão, Colômbia, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Portugal, além de projectos de várias regiões de Espanha.
A edição de 2026 contará ainda com 15 estreias — dez em Espanha e cinco na Galiza. A organização confirmou, para já, apenas a presença do duo Las Nietas del Charli, que actuará na Nave de Redeir@s, em Bouzas, a 31 de Julho. No total, o festival utilizará 13 espaços distintos, entre locais industriais, naturais, académicos e patrimoniais. Em San Simón, a programação musical será acompanhada por oito actividades paralelas dedicadas ao património histórico, cultural e natural da ilha, além de oficinas de experimentação sonora e um showcooking conduzido pela chef Begoña Vázquez.
Em entrevista ao Rimas e Batidas, um dos directores do festival, Luis Campos, aborda as novidades desta edição e antecipa o futuro incerto deste evento cultural de referência que se prepara para assinalar o 25.º aniversário no próximo ano.
Começo por perguntar sobre a principal novidade do Sinsal deste ano, que é esta expansão para o Caminho Português de Santiago. Era algo em que vocês já estavam a pensar há algum tempo? Como é que aconteceu agora?
Já tínhamos a ideia de tentar sair da ilha de San Simón. Mas não encontrávamos um lugar, uma forma de sair um pouco, também por causa do enorme trabalho que implica terminar um festival numa ilha e continuar a desenvolvê-lo. Depois de uma conversa que tivemos com a Turismo da Galiza, a pensar no Jubileu do próximo ano, e também nesta expansão do Sinsal, lembrámo-nos de uma coisa… Bem, na verdade, lembrámo-nos de que o Sinsal sempre foi, desde há 24 anos, um projecto de exploração em torno de espaços singulares, procurando deslocalizar a música dos espaços mais tradicionais e utilizá-la em locais não convencionais, ou que, à partida, não seriam espaços para acolher música, para que as pessoas conhecessem tanto esses lugares como propostas artísticas que, muitas vezes, não eram propriamente de consumo massificado. Portanto, essa combinação, tentar levá-la até às pessoas, sempre foi uma mais-valia na experiência de assistir a um espectáculo. Quando, em 2010, encontrámos a ilha de San Simón, o festival mudou completamente de características.
O festival tornou-se a ilha.
Durante os primeiros anos, fazíamos essa itinerância ao longo de todo o ano. Não tínhamos um espaço suficientemente adequado para fazermos aquilo que realmente queríamos. Por isso, fazíamos essa experimentação em diferentes locais, não apenas em Vigo, mas em diferentes pontos da Galiza. Chegámos inclusivamente a fazer algumas coisas em Madrid. Mas, quando nos instalámos na ilha de San Simón, concentrámos todos os esforços nesse espaço e passámos finalmente a poder falar de um verdadeiro festival de dois ou três dias, num lugar fantástico e extraordinário, que reunia tudo aquilo que andávamos há anos a procurar e a experimentar. Depois de nos fixarmos na ilha, o passo seguinte foi o do cartaz secreto, que também era uma forma de valorizar o próprio espaço onde o festival se realizava. Ao mesmo tempo, havia a ideia da descoberta, da experimentação, de as pessoas se deixarem levar pela experiência proposta pelos programadores e curadores. E isso implicava que alguém comprasse um bilhete sem saber o que ia ver. Além disso, um bilhete que não é barato, porque, no fim das contas, uma parte significativa do preço é destinada ao transporte de barco. Só o barco representa quase 20% do valor do bilhete.
E quando é que o cartaz passou a ser secreto?
Penso que foi no segundo ano em San Simón, creio que em 2011. Foi quando eu e o Julio, que somos os directores do festival, decidimos perguntar um ao outro: “O que podemos fazer aqui? Que te parece esta ideia?” Quando comentávamos isto com as pessoas, parecia uma loucura. Porque todos os festivais e eventos fazem precisamente o contrário: anunciam primeiro um cabeça de cartaz, porque é isso que atrai público. Nós fizemos exactamente o oposto. Foi uma aventura muito complicada. É certo que só a podíamos fazer porque já tínhamos um percurso consolidado. Ninguém consegue fazer uma coisa destas se as pessoas não conhecerem a trajectória do projecto. Mesmo assim, não era nada habitual. Lembro-me de várias conversas com jornalistas que me diziam: “Mas eu não posso escrever nada, porque não sei quem vai actuar”. E eu respondia: “Precisamente. Tens de contar que existe um festival onde não sabes quem vai actuar”. Depois podias recorrer ao arquivo, às edições anteriores, às histórias já existentes sobre o festival. Sempre achei que havia matéria suficiente para um jornalista conseguir construir uma notícia a partir dessa ausência de informação. Era um pouco esse o desafio. Bom, dito isto, e olhando para o tempo que passou, esta será a 16.ª edição em San Simón, mas o festival já leva 24 anos de existência. Como te dizia, há algum tempo que queríamos, talvez, sair da ilha. Afinal, a capacidade da ilha é limitada e temos esgotado os bilhetes todos os anos. Também gostávamos de fazer alguma coisa na nossa casa, aqui em Vigo, e recuperar um pouco essa sensação…
Mas desejam realmente sair da ilha ou pretendem manter a ilha e, ao mesmo tempo, expandir o festival para outros lugares?
Queríamos experimentar uma expansão e explorar outras possibilidades. Porque chega um momento em que a ilha tem os seus limites. A logística é extremamente complicada, exige um enorme esforço, há toda a carga simbólica e histórica da ilha… Andávamos há bastante tempo a pensar no que poderíamos fazer, em como experimentar algum crescimento. Não estamos a falar de passar para grandes recintos nem de organizar um festival gigantesco nesta extensão. Era, sobretudo, uma forma de permitir que pessoas que talvez nunca consigam ir à ilha pudessem, ainda assim, viver um pouco do espírito do festival. Quando falámos com as pessoas do Turismo e do Jubileu, pensámos imediatamente numa coisa: nós temos uma ligação muito especial com Portugal. Na realidade, o Sinsal nasceu graças a Portugal. O festival e a própria associação nasceram graças aos nossos colegas do Porto, da Matéria Prima. Foi aí que decidimos criar o Sinsal e tudo começou a partir desse momento. Por isso, podemos dizer que o nosso nascimento se deve, em grande parte, a Portugal. Depois surgiu a oportunidade perfeita com o Jubileu do próximo ano e com o Caminho Português, que está a crescer imenso. Pensámos: porque não trabalhar esse espírito do caminho, da travessia, da deslocação, saindo da ilha e envolvendo também os nossos colegas portugueses? Foi um pouco a conjugação de todas essas pequenas coisas que nos levou a dar este passo, esta pequena expansão. Sabemos também das dificuldades que existem agora para vender os bilhetes, porque também não podíamos anunciar isto com muita antecedência. Não sabíamos se seria realmente possível concretizar esta ideia e, por isso, estamos agora um pouco atrasados a anunciá-la e a fazer com que as pessoas conheçam o projecto. Toda essa amálgama de factores foi o que nos levou a dar este salto: voltar a ocupar diferentes espaços singulares — que faziam parte do ADN do festival nos seus primeiros anos — com propostas artísticas igualmente singulares, em formato reduzido, porque nunca iremos falar de mais de 800 pessoas, e, ao mesmo tempo, dar esse passo de fazer alguma coisa num país vizinho, precisamente aquele graças ao qual começámos. Foi essa combinação de factores.
Na tua perspectiva, faz todo o sentido aproximar a Galiza e Portugal, sobretudo o Norte de Portugal, tendo em conta a proximidade geográfica? Muitas vezes parece que não existem assim tantas iniciativas culturais que façam essa ponte entre as duas regiões.
Nós sempre tivemos muito contacto com Portugal. Insisto: a primeira edição do festival aconteceu graças a uma combinação com os nossos colegas do Porto, que organizavam um festival lá, e acabámos por articular os artistas entre os dois eventos. Foi aí que tudo começou. Além disso, para nós, ir a Portugal sempre foi uma enorme sorte, porque tínhamos aí ao lado uma oferta cultural que nos permitia descobrir coisas que, muitas vezes, nem na Galiza nem no resto de Espanha conseguíamos ouvir. Durante muitos anos fomos a inúmeros concertos no Norte de Portugal, sobretudo no Porto, mas também em Guimarães, Braga e noutros locais. Sempre tivemos esse privilégio de poder desfrutar da vossa programação cultural. Por isso, sempre pensámos que era uma pena existir ainda uma barreira entre nós. Porque, além da proximidade geográfica, partilhamos o idioma em muitos aspectos, partilhamos costumes, partilhamos tantas coisas… É impressionante que essa barreira continue a existir. Afinal, estamos tão próximos em tantos aspectos que é surpreendente que nem uns nem outros consigamos ultrapassá-la completamente. É certo que existe uma mobilidade natural entre a Galiza e o Norte de Portugal, sobretudo no sul da Galiza. Essa circulação existe. Mas, para muitas outras coisas, continua a haver uma barreira, e isso é curioso. Também por isso, as próprias administrações gostaram muito desta ideia. Porque, muitas vezes, são precisamente as administrações que têm mais dificuldades em estabelecer essas ligações. Acabam por ser as empresas privadas, os colectivos ou simplesmente as pessoas a criar essas pontes e a funcionar como elementos de ligação. É muito mais difícil quando depende apenas das administrações. Por isso, agradou-lhes muito esta ideia de dar esse salto e mostrar que, através de um evento, podemos criar essa ligação. Porque não procurar essa reciprocidade? Lembro-me de que, há alguns anos — já não me recordo exactamente em que ano, porque já passaram muitas coisas — fizemos uma pequena experiência de ligação entre os dois lados durante um fim-de-semana, com o Milhões de Festa. Falando com eles, dissemos: “Porque não criamos um passe conjunto para que as pessoas possam vir um dia cá e outro dia ao Sinsal, procurando precisamente essa ligação?” Fizemos essa experiência durante um ano. Depois o Milhões de Festa acabou por desaparecer no ano seguinte. Mas quero dizer que, da nossa parte, sempre houve essa vontade. Pela amizade que temos com muitos colegas portugueses, pela enorme admiração que sentimos pela vossa programação cultural, acreditamos sinceramente que esta ligação é necessária. Talvez tenhamos todos de contribuir, através de pequenas iniciativas, para reforçar essa relação. Além disso, penso que, pelo tipo de artistas que programamos no Sinsal, o público português aprecia muito propostas como as nossas. Provavelmente, muitas dessas pessoas já conhecem este tipo de programação porque existem vários festivais semelhantes no Norte de Portugal que funcionam muito bem e têm uma excelente resposta. Acredito que, se apresentarmos esta proposta, também conseguiremos despertar o interesse do público português. E que as pessoas possam descobrir algo mais além da praia de Samil ou das restantes que temos.
E neste momento continuam a estudar alternativas em relação ao futuro do Sinsal?
Neste momento ainda estamos muito concentrados na edição deste ano. Mas, no próximo ano, como dizia, teremos o Jubileu. Depois existe também outra questão importante: a ilha de San Simón está pendente da classificação como Espaço da Memória Democrática. Não sabemos ainda o que isso poderá significar. Não sabemos se os eventos que actualmente realizamos na ilha poderão continuar exactamente da mesma forma. Neste momento não temos qualquer informação. Este ano temos autorização da Xunta da Galiza, que é quem gere a ilha de San Simón. Mas, relativamente ao próximo ano, não sabemos o que poderá acontecer. Independentemente disso, também celebramos os 25 anos do festival. E isso poderá igualmente representar um momento de mudança. Essa mudança pode ser entendida de várias formas. Sinceramente, não sabemos. Digo isto de forma completamente honesta. Podia inventar uma resposta, mas estaria a mentir. Neste momento existem demasiadas variáveis. Independentemente do que venha a acontecer em San Simón, não sabemos se iremos mudar de rumo, trabalhar noutros formatos, manter tudo como está ou fazer ambas as coisas ao mesmo tempo. Está tudo muito em aberto. Não conseguimos ainda pensar muito além desta edição. Vamos primeiro perceber como corre este segundo fim-de-semana desta expansão. Temos também de ser conscientes de que, dentro desta ampliação, provavelmente nem tudo funcionará exactamente como gostaríamos. Mas também sabemos que qualquer projecto novo demora sempre algum tempo até ganhar o seu público. Não podemos desanimar imediatamente só porque não esgotámos todos os bilhetes. Acredito sinceramente que a proposta faz sentido. É uma proposta interessante. De certa forma, representa também um regresso às origens do Sinsal. Pode abrir uma porta para trabalharmos mais com os nossos colegas portugueses. Não sei se isso significará fazer um festival em cada lado da fronteira ou outro tipo de iniciativas. Ainda não sabemos. Quando terminarmos esta edição, já temos algumas conversas pendentes com colegas portugueses para perceber o que poderá surgir.
Sei que também programam um festival em Formentera. Esse tipo de iniciativas, paralelas e complementares ao Sinsal, também é algo que planeiam continuar a fazer?
O projecto do SON Estrella Galicia Posidonia é um caso diferente. Nós somos os curadores, por assim dizer, os directores do festival, mas não somos os fundadores do evento. A marca Estrella Galicia falou connosco porque gostava muito do projecto do Sinsal. Afinal de contas, a Estrella Galicia é o principal patrocinador do Sinsal. Há dez anos — precisamente este ano celebramos dez anos dessa colaboração — eles quiseram criar um evento próprio e acharam que a filosofia do Sinsal fazia todo o sentido. Pensámos então: que melhor do que convidar quem faz o Sinsal para criar uma espécie de “clone” do Sinsal, mas noutra ilha? Ricardo, se algum dia tiveres uma ilha, podes ligar-nos. Nós fazemos-te um festival bonito [risos]. Então passámos do Atlântico para o Mediterrâneo. O que lhes agradava era precisamente essa filosofia do Sinsal. Não necessariamente a ideia do cartaz secreto, mas uma filosofia semelhante, ainda que com algumas diferenças. É um festival mais pequeno, promovido por uma marca cervejeira, que naturalmente tem outras prioridades. A proposta artística é um pouco mais abrangente e dirigida a um público mais vasto. Mas já lá vamos há dez anos. E acredito que continuará a existir, dependendo naturalmente da estratégia da marca. Neste momento, o Sinsal trabalha praticamente durante todo o ano. Porque temos dois eventos bastante complexos. Mesmo sendo festivais relativamente pequenos em número de pessoas, toda a logística e as dificuldades inerentes aos espaços onde decorrem exigem um enorme investimento de tempo e de trabalho.
E isso leva-me também a outro tema: a nível internacional fala-se muito de uma certa saturação dos festivais de música, sobretudo dos grandes festivais. Isso sente-se em vários países, em Portugal também tem sido notório. O aumento dos preços, a repetição dos cartazes, o facto de as pessoas talvez já não sentirem o mesmo entusiasmo porque o modelo parece um pouco esgotado. Gostava de conhecer a tua perspectiva sobre isso. Mas também olhar para o outro lado da questão: festivais como o Sinsal mostram que existem alternativas que funcionam muito bem.
Sim. Bem, depois da pandemia houve um ou dois anos em que todos ainda andávamos um pouco desorientados. Mas isso era normal, porque vínhamos de uma situação muito complicada. Agora, nos últimos dois anos — e este ano talvez ainda mais — todos nós, promotores, programadores, público e artistas, começámos a perceber determinadas coisas. Os artistas querem tocar, naturalmente. É óptimo que existam tantos festivais. Mas o que está a acontecer é que cerca de 80% dos cartazes dos grandes festivais são compostos pelos mesmos artistas. Estamos constantemente a ver os mesmos nomes. E isso faz com que deixemos de dar oportunidades aos artistas novos. Sempre foi assim, é verdade. Mas devíamos conseguir aproveitar melhor essa diversidade para nos diferenciarmos. No fundo, isto acontece com qualquer produto ou serviço. É como na roupa. Existem várias marcas. Se todas fizerem exactamente a mesma coisa, no fim deixa de haver diferenças. Nos festivais acontece o mesmo. Existe uma inflação enorme de eventos. Isso é evidente. É verdade que durante algum tempo as pessoas enchiam os grandes festivais. Mas, nos últimos dois anos, começou a acontecer outra coisa. As pessoas iam aos festivais, mas deixavam de ir aos concertos nas salas durante o resto do ano. E aí temos um problema. Parece que muitas pessoas passaram a concentrar todo o seu consumo cultural nos festivais. Quando, na verdade, um festival deveria servir precisamente para despertar curiosidade. Vês uma banda, gostas, depois queres acompanhá-la durante o resto do ano. Queres ir vê-la numa sala, num clube, num contexto completamente diferente de um grande palco. Isso não está a acontecer. Pelo menos não da forma como eu imaginava. Pensava que isso pudesse acontecer em cidades como Madrid ou Lisboa. Mas, na realidade, esses grandes festivais reúnem dezenas de milhares de pessoas e, depois, as bandas mais pequenas continuam sem receber esse público. É uma pena. Por isso, entre nós, promotores e programadores, há já algum tempo que falamos disto. É evidente que, de uma forma ou de outra, o mercado terá de se regular. Porque não é sustentável. Vamos ver o que acontece.
Quantos festivais é que poderão continuar a existir?
Na minha opinião, acabarão por existir dois grandes segmentos. Os grandes festivais provavelmente sobreviverão. Têm recursos financeiros suficientes para continuar a investir. Quem me preocupa mais é o festival intermédio. Festivais de oito ou dez mil pessoas. Acho que esses serão os que terão mais dificuldades em manter-se, se nada mudar. Depois existem os festivais pequenos. E aí confirmo que muitos deles oferecem uma sensibilidade completamente diferente. Uma experiência que o público também procura. Como em muitas outras áreas, há espaço para tudo. Não se vendem muitos Ferraris, mas toda a gente sabe o que é um Ferrari. Nem toda a gente pode comprar um Ferrari, mas a marca Ferrari existe e toda a gente a conhece. Acho que aqui acontece um pouco a mesma coisa. Continuarão a existir pequenos eventos feitos com muito carinho, muito cuidado, com uma proposta muito própria. E quando digo isto não quero dizer que sejam eventos não comerciais, porque, no fim de contas, todos precisamos de vender bilhetes. É assim. Falando com alguns promotores, muitos dizem-me: “Eu também gostava de trazer outros artistas mais underground, mas não vendem bilhetes. E se não vender bilhetes, o festival não sobrevive.” Portanto, onde está o equilíbrio? Se aquilo que o público pede são sempre os mesmos cinco nomes… E continua a querer vê-los. É realmente muito difícil. Outra coisa que estamos a observar nos grandes festivais é a diversidade dentro do próprio público. Hoje em dia olhas para muitos cartazes e vês artistas que, muitas vezes, não têm absolutamente nada a ver uns com os outros. As pessoas compram um bilhete apenas para ver uma determinada banda. Chegam pouco antes desse concerto. Esperam na primeira fila durante horas. Nem sequer prestam atenção aos artistas que estão a actuar antes. Estão apenas a guardar o lugar. E, entretanto, as pessoas que poderiam estar verdadeiramente interessadas nesses concertos acabam por não conseguir aproximar-se. São situações que temos vindo a observar nos últimos anos. E, de certa forma, isso faz com que a música perca valor. Perde-se o respeito pelos artistas que estão em palco. Perde-se também o respeito pelas restantes pessoas que estão ali. Tudo isto está a mudar muito. Não sei se, no futuro, os grandes artistas acabarão por optar por fazer apenas os seus próprios concertos. Estamos agora a assistir ao caso do Bad Bunny, por exemplo, com os dez concertos no Estádio Metropolitano de Madrid. Talvez lhes faça mais sentido organizar apenas os seus próprios espectáculos. Porque aí terão outro tipo de relação com o público. Talvez as pessoas prefiram comprar um bilhete apenas para ver o artista de quem realmente gostam. Acho sinceramente que, nos próximos anos, haverá um reajustamento em torno de todas estas questões. Dito isto, continuo convencido de que os pequenos festivais que realmente oferecem algo diferente vão continuar a existir. Há pessoas que procuram precisamente isso. Que querem uma experiência cuidada. Que não querem estar num espaço completamente massificado. Que querem descobrir música.
E, além da programação, também existe toda a experiência de festival. Um festival como o Sinsal é confortável, não tem milhares de pessoas e tudo decorre de forma muito tranquila.
Exactamente. Às vezes penso que as pessoas não têm plena consciência do tipo de evento que é o Sinsal. Ainda há pouco tempo fui ver os The Cure na Maia, ao North Music Festival. Há muitos anos que queria vê-los ao vivo e pensei: “Tenho mesmo de ir, porque não sei quando voltarei a ter esta oportunidade”. A verdade é que hoje em dia já não gosto muito de grandes festivais. Passei demasiados anos neles. Também porque organizo um festival e, sinceramente, já não gosto de estar rodeado de tanta gente. Mas quando vou a um desses eventos e depois comparo com aquilo que acontece no Sinsal… No Sinsal estás a três, quatro ou dez metros dos artistas. Cruzas-te naturalmente com eles. Toda a gente partilha o mesmo espaço. Isso é realmente um privilégio. O problema é que chega um momento em que passamos a encarar isso como se fosse normal. E não é. É algo extraordinário. Poderes ir beber um copo, encontrar um artista e conversar. Claro que, se toda a gente decidir ir comer exactamente à mesma hora, haverá filas, porque isso é inevitável. Mas continua a ser um festival confortável. Podes deslocar-te. Podes estar tranquilo. E não somos os únicos. Existem outros colegas, tanto em Portugal como em Espanha, que organizam festivais com este mesmo espírito. É precisamente aí que considero que os meios de comunicação social e as instituições deveriam apostar mais. Compreendo perfeitamente que o impacto mediático e o retorno sejam importantes. Mas também acredito que estes pequenos eventos são os que verdadeiramente geram valor para a comunidade onde acontecem. Geram valor para as instituições, para o país e para as cidades. Porque um grande festival pode existir em Berlim, em Tóquio ou em qualquer outro lugar. Mas estes festivais singulares só existem naquele sítio específico, com aquela identidade própria. É um pouco como aquilo que está a acontecer nas grandes cidades. Podemos fazer esse paralelismo. O que aconteceu ao Porto nos últimos anos? Está a perder grande parte da sua identidade. E podia estar a falar do Porto, de Madrid, de Londres ou de muitas outras. É um fenómeno global. A globalização tem aspectos positivos. Mas cada cidade tem a sua identidade. E é precisamente isso que faz com que valha a pena visitá-la. Quando vou a Londres, não quero encontrar exactamente a mesma coisa que tenho na minha cidade. Quero descobrir aquilo que torna Londres diferente. Nos festivais acontece algo semelhante. Se os mesmos artistas actuam em todo o lado, acaba por ser indiferente estar em Londres, em Tóquio, em Belgrado ou em Berlim. No fundo, estamos a falar da mesma reflexão. E isso também se aplica aos festivais de música.
Precisamente. Só para terminar: a cultura do cartaz secreto, o facto de já ser uma faceta em que as pessoas confiam e por comprarem os bilhetes sem saber quem vai actuar — e de vocês esgotarem os bilhetes em menos de vinte e quatro horas, o que é impressionante — isso dá-vos também mais liberdade para programar? Ou continua sempre a ser um enorme desafio e uma enorme responsabilidade programar um festival como o Sinsal?
É uma excelente pergunta. Nós próprios dizemos muitas vezes que isso representa uma responsabilidade enorme. Porque, no fundo, as pessoas criam expectativas. E uma das piores coisas que pode acontecer é não serem correspondidas. Por isso, existe uma enorme pressão. É muito mais fácil anunciar um cartaz e dizer: “São estes artistas”. As pessoas sabem imediatamente ao que vão. Claro que sabem que não vão ver os Coldplay ou os Radiohead, sabem que vão ao Sinsal. Mas, quando não sabem absolutamente nada, a exigência é muito maior. É uma responsabilidade enorme. Claro que isso pode acontecer em qualquer festival. Mesmo conhecendo um artista, podes gostar ou não. Pode ter um bom concerto ou pode não estar num bom dia. Tudo isso acontece. Mas quando apresentas propostas completamente desconhecidas, o impacto é diferente. Sobretudo hoje em dia, quando toda a gente quer tudo imediatamente. Vivemos num tempo em que já ninguém parece disposto a deixar as coisas amadurecer. E isso sempre fez parte da filosofia do projecto. Há discos de que gostas logo na primeira audição. Mas há muitos outros que precisas de ouvir várias vezes até começares verdadeiramente a apreciá-los. Num festival isso não acontece. O artista tem apenas cinquenta minutos em palco. Durante esses cinquenta minutos tem praticamente de conquistar um público que, na maioria dos casos, nunca ouviu falar dele. Diria que cerca de 90% das pessoas que vêm ao festival não conhecem aqueles artistas. Mesmo que lhes déssemos previamente os nomes, continuaria a ser uma descoberta. Por isso, inicialmente, o público vem predisposto a ouvir. Mas, ao mesmo tempo, o artista tem de conseguir conquistar essas pessoas logo nesse primeiro contacto. É muito difícil. E implica uma enorme responsabilidade. Há quem saia do festival a dizer: “Não gostei muito, eram bandas demasiado desconhecidas”. Mas aquilo que também procuramos é precisamente que, algum tempo depois, essas pessoas pensem: “Vou voltar a ouvir aquele grupo”. E, com o passar do tempo, descubram que afinal gostam desse artista. Porque isso também acontece. Há coisas de que inicialmente não gostamos muito e que, mais tarde, acabam por se tornar importantes para nós. Por isso, para nós, cada ano representa uma responsabilidade ainda maior. Chega um momento em que até pensamos: “Se calhar, dentro dessa mudança dos 25 anos, talvez devêssemos revelar os nomes”. Talvez. Não sei. Há certamente muita gente a quem isso não agradaria. Lembro-me de uma curiosidade: há uns anos fizemos um inquérito junto do público para saber se queriam ou não que o cartaz deixasse de ser secreto. Não eram milhares de respostas, talvez umas 300, mas cerca de 95% das pessoas disseram que preferiam manter o segredo. Também é verdade que hoje tudo ficou muito mais caro. As deslocações, as viagens, os honorários… É verdade que muitos dos artistas com quem trabalhamos não têm cachets muito elevados. Mas, mesmo assim… É aquilo de que falava há pouco. As pessoas acabam sempre por querer um nome conhecido. Um artista em relação ao qual possam dizer: “Ah, este conheço”. Só que isso está cada vez mais difícil. Mesmo trabalhando numa escala muito abaixo dos grandes festivais, tudo ficou caríssimo. É muito complicado. E isto não acontece apenas connosco. Falando com colegas portugueses que organizam festivais deste tipo — Tremor, Mucho Flow e outros eventos semelhantes — todos estamos a enfrentar exactamente o mesmo problema. Onde está o equilíbrio? Como atrair pessoas sem depender permanentemente de um grande nome? É muito difícil. É uma situação complicada para todos, cada um à sua escala.
Claro, mas acredito que vocês também tenham conseguido formar um público que já vem precisamente à procura dessa descoberta. No fundo, o verdadeiro cabeça de cartaz é a experiência.
Exactamente. No caso da ilha, o verdadeiro cabeça de cartaz é a própria ilha. Nós limitamo-nos a ir acrescentando música a esse espaço. Sem o alterar, sem interferir demasiado nele, porque a ilha tem de ser preservada. Queremos apenas que as pessoas saiam de lá um pouco melhores do que quando chegaram. Mas também é verdade que apenas os melómanos mais dedicados não chegam para sustentar um festival. Precisamos de pessoas que gostem de música, naturalmente, mas também de pessoas curiosas, com sensibilidade. Temos de alargar um pouco esse universo de público. Porque existem determinados formatos de festivais que se dirigem sempre às mesmas pessoas. Nós precisamos de continuar a abrir-nos a novos públicos. Pessoas que, de outra forma, nunca iriam assistir ao concerto daqueles artistas. Mas que, ao descobri-los ali, acabam por ficar surpreendidas. E, de repente, têm um novo artista na sua lista do Spotify. Mesmo assim, é cada vez mais difícil chegar ao público. Porque existem muitos pequenos festivais com programações excelentes, e isso também é uma coisa positiva. Devíamos valorizar essa diversidade de pequenos festivais, precisamente porque oferecem propostas diferentes. Mas o público também é limitado. Não chega para tudo. É por isso que há pouco falava da importância das instituições e dos meios de comunicação social. Podem ajudar estes projectos a crescer. A preservar esse encanto, essa proposta, esse cuidado. Não quero dizer com isto que os festivais maiores não tenham valor. Claro que têm. E todos precisamos de ganhar dinheiro, porque sem dinheiro ninguém consegue sobreviver. Mas percebes aquilo que quero dizer.