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Fotografia: Adriano Ferreira Borges
Publicado a: 15/07/2026

Quando o espaço altera o curso da música.

Sakina Abdou, Marta Warelis e Toma Gouband no Julho é de Jazz’26: Braga soa

Fotografia: Adriano Ferreira Borges
Publicado a: 15/07/2026

O primeiro concerto do segundo fim de semana de programação do festival bracarense Julho é de Jazz reuniu no pátio do gnration a saxofonista francesa Sakina Abdou, a pianista polaca Marta Warelis e o percussionista, igualmente francês, Toma Gouband. Com temperaturas bem mais amenas do que na semana anterior, foi desta vez possível realizar o concerto no exterior. E o que poderia parecer um simples pormenor logístico acabou, na verdade, por determinar a direcção da performance, permitindo a Gouband usar o próprio espaço como um inesperado instrumento. Para o percussionista, tudo pode constituir uma fonte sonora: o chão rugoso de cimento, a estrutura metálica da fachada, pedras, ramos de árvore ou pinhas recolhidas nas imediações. Mais do que acolher o concerto, o pátio do gnration tornou-se assim parte activa da música. É precisamente a isto que se pode chamar uma performance verdadeiramente site specific.

Nem sequer foi necessário amplificar essas intervenções para que a arquitectura se fizesse ouvir. Gouband abandonou repetidamente o lugar que lhe estava reservado junto dos seus instrumentos, caminhou pelo pátio, procurou superfícies, testou ressonâncias, percutiu o cimento e fez vibrar a estrutura metálica da fachada. O gesto nunca resvalou para a mera teatralidade, porque cada som descoberto no espaço regressava imediatamente à música, integrado numa construção colectiva que não estabelecia qualquer hierarquia entre instrumento, objecto encontrado, matéria natural ou arquitectura. Enquanto Gouband alargava o perímetro físico da actuação, Sakina Abdou e Marta Warelis elevavam progressivamente o grau de abstracção do discurso. Inteiramente improvisada e livre, a música aproximava-se por vezes de certa escrita de câmara contemporânea, sobretudo pela atenção extrema ao timbre, pela economia dos gestos e pelo modo como cada intervenção parecia medir o peso, a duração e a temperatura dos sons anteriores. Warelis distribuía pelo teclado frases angulares, ataques secos, massas harmónicas e breves acumulações de matéria; Abdou explorava alto e soprano com imaginação, passando do sopro ao ruído, da frase interrompida a linhas de crescente intensidade melódica.

Não havia temas, estruturas previamente determinadas ou pontos de chegada evidentes, mas o trio nunca pareceu avançar ao acaso. A música transformava-se continuamente, encontrando a cada instante novas formas de tensão. Nos primeiros momentos, assumiu contornos quase cubistas, feita de planos sobrepostos, ângulos pronunciados e fragmentos que pareciam oferecer diferentes perspectivas sobre um mesmo objecto sonoro. Depois, sem que se percebesse exactamente quando se dera a passagem, começou a adquirir outra temperatura emocional. Por momentos, desse território abstracto emergiram mesmo alguns grooves de inesperado impulso dançante. Não duravam o suficiente para se fixarem como estruturas nem pareciam buscar qualquer resolução, mas funcionavam como centros gravitacionais transitórios, aproximando os três músicos antes de a música voltar a dispersar-se. Gouband sugeria movimento sem propriamente marcar um tempo, fazendo nascer pulsações da combinação entre pedras, peles, metais e objectos recolhidos, enquanto Warelis e Abdou tanto podiam aderir a essas correntes como sugerir contrastes, empurrando de novo o discurso para regiões de maior instabilidade.

A música encontrava um centro e logo voltava a estilhaçar-se. Tornou-se mais atonal, mais fragmentada, atravessada por frases interrompidas, silêncios, choques tímbricos e materiais deliberadamente colocados em desequilíbrio. Mas mesmo nos momentos de maior dispersão nunca se perdeu a sensação de escuta colectiva. A liberdade aqui praticada não era a sobreposição de três discursos individuais, mas uma permanente negociação do espaço, uma atenção microscópica ao que cada gesto deixava em aberto para os outros. Foi talvez por isso que a transformação operada na recta final se tornou tão poderosa. Depois da abstracção, dos impulsos rítmicos, da fragmentação e da exploração quase laboratorial das propriedades acústicas do pátio, a música começou lentamente a adquirir um tom mais espiritual. Abdou encontrou no saxofone uma intensidade crescente, alongando as frases e elevando a temperatura emocional até se tornar difícil não reconhecer ali a sombra de John Coltrane. Uma nítida exploração da possibilidade sempre real da improvisação se converter numa forma de procura, elevação e transcendência.

Gouband respondeu a essa ascensão regressando aos materiais recolhidos nas imediações. Com o bombo disposto na horizontal, percutiu a pele usando ramos de árvore apanhados antes do concerto, extraindo do instrumento um som simultaneamente elementar e ritual. A imagem condensava tudo o que a actuação até então propusera: um instrumento construído pela cultura humana activado por matéria natural, dentro de um pátio urbano cuja arquitectura fora também convocada a participar. Foi nesse ponto de encontro entre natureza e cidade, abstracção e espiritualidade, escuta e descoberta que o concerto encontrou a sua mais poderosa resolução. Durante cerca de uma hora, Sakina Abdou, Marta Warelis e Toma Gouband demonstraram que improvisar livremente não significa tocar num espaço vazio, mas reconhecer tudo aquilo que existe em redor e permitir que qualquer superfície, objecto, ruído ou silêncio possa alterar o curso da música. No pátio do gnration, até o edifício pareceu escutar.


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